Culturas

As contas da figueira-da-índia

Confraria Gastronómica do Figo e da Figueira-da-Índia ganha site

A figueira-da-índia, espécie Opuntia ficus-indica (L.) Mill., foi trazida da América para a Europa na época dos descobrimentos marítimos, tendo-se expandido onde as condições climáticas lhe foram mais favoráveis. Em Portugal, foi sobretudo no Algarve e no Alentejo. É também conhecida por piteira, figueira-do-diabo, tabaio ou tabaibo.

O cultivo da figueira-da-índia começou a ganhar expressão em Portugal apenas a partir de 2010, aproximadamente. Até então surgia de forma silvestre, nas beiras dos caminhos rurais e dos terrenos agrícolas. O fruto era colhido de forma espontânea, numa prática recolectora.

Nos últimos anos começaram a surgir plantações em pomar, por quase todo o país, formou-se uma associação de profissionais, uma cooperativa, emergiram novos aproveitamentos e produtos transformados, e começaram a realizar-se eventos (feiras, seminários, workshops) em torno desta fileira.

O primeiro aspeto a analisar por quem deseja instalar um novo pomar é uma análise de mercado. Quem produz necessita de vender. O figo-da-índia integra um lote de produtos cujo consumo é limitado, constitui o que se designa comumente por nicho de mercado. Esse nicho de mercado que surgiu no século XXI é o dos “produtos exóticos”, que atrai uma gama de clientes que procuram coisas novas, raras e pouco conhecidas. Isto significa que o mercado do figo-da-índia para consumo em fresco será sempre limitado. Mas tudo na figueira e no figo-da-índia tem utilização e será porventura aí que haverá maior procura: as sementes para óleo, as flores para infusões, os cladódios jovens para vinagretes e saladas, os cladódios para forragem, os produtos transformados do fruto, os cladódios com utilização como fármacos, de entre outras utilizações.

O segundo aspeto é que a instalação de um novo produtor requer investimento para a instalação do pomar, nalguns equipamentos e possivelmente em instalações, máquinas ou mesmo terra. Esta decisão de empreender no cultivo desta planta deve ser precedida, como em qualquer outra atividade económica, de uma análise prévia do investimento a realizar.

Análise de investimento

Um investimento corresponde a um custo no presente para a obtenção de benefícios líquidos no futuro, com o objetivo iniciar uma atividade económica ou melhorar os resultados económicos futuros. Um custo corresponde à aquisição de uma máquina ou equipamento, à instalação de um pomar ou à construção de um muro ou armazém, ou qualquer outro bem ou serviço cujo uso se prolonga para além de um exercício económico (um ano). Os benefícios líquidos correspondem à diferença entre os fluxos de entrada (receitas da produção e subsídios) e os fluxos de saída (custos de produção e impostos).

Os custos e proveitos ocorrem ao longo de vários anos e não é indiferente ter hoje, ou daqui a n anos, um proveito ou um custo. Para incorporar o fator tempo, é necessário calcular os fluxos de receitas e custos a uma data inicial (proceder à atualização) ou final (realizar a capitalização). Normalmente procede-se à atualização dos fluxos futuros. Esta atualização é feita com a aplicação de um fator de desconto [(1+i)n] que depende do número de anos que decorre até à ocorrência do fluxo financeiro em causa (n) e da taxa de desconto utilizada (i), utilizando-se normalmente a taxa de juro dos depósitos bancários a prazo.

Valor atual = valor futuro / (1 + i)n

Na instalação do pomar de figueira-da-índia são efetuadas várias tarefas como: a preparação do solo para plantação, que engloba o controlo de infestantes com meios mecânicos e/ou químicos, a lavoura do terreno e a adubação de fundo; a marcação e piquetagem; a abertura de covas e a adubação orgânica, com distribuição de estrume nas covas; a plantação dos cladódios. Há que proceder à deslocação de pessoal e de materiais para a parcela em vários momentos, para a execução das referidas tarefas e também da retancha, se necessário, com todos os custos de deslocação, ou por meios próprios ou por aluguer de tração (aquisição de serviços).

Prática cultural num pomar de figueira-da-índia

Prática cultural num pomar de figueira-da-índia

Apresenta-se, como exemplo, no quadro 1, o custo de instalação de um pomar de um hectare, instalado em 2013, com uma densidade de 625 covas por hectare e duas plantas por cova. O terreno foi lavrado e gradado e os cladódios, adquiridos a outro produtor, foram plantados à mão. As plantas foram regadas à mão com uma dotação de 10 litros por cova.

O custo de instalação, no primeiro ano, foi de 2 235 euros/ha, com um peso relativamente equilibrado entre a mão-de-obra (23,3%) e o aluguer de máquinas (20,3%), tendo a aquisição de plantas representado mais de metade do custo de instalação (55,9%). No segundo ano fizeram-se, uma gradagem do terreno, uma aplicação localizada de inseticida contra formigas e algumas regas no verão, totalizando 145 euros/ha. No terceiro ano o pomar começou a produzir frutos, estimando-se cerca de 3 000 kg/ha de figos. Chama-se a atenção para o facto de estes custos refletirem a instalação de um pomar de sequeiro; no caso da instalação de regadio esses mesmos custos seriam muito superiores pelo custo do material de rega e respetiva instalação.

Os indicadores mais utilizados para a análise de investimento são o valor acrescentado líquido (VAL), o rácio benefícios-custos (RBC), a taxa interna de rentabilidade (TIR) e o tempo de recuperação (TR) do investimento. Se houver várias alternativas de investimento deve-se utilizar a TIR porque informa sobre o nível de rendibilidade dos capitais investidos. No caso de se analisar apenas uma possibilidade de investimento, pretende-se simplesmente saber se é rentável ou não (e não o seu nível de rentabilidade), pode-se utilizar o VAL ou o RBC.

O VAL corresponde à soma de todos os fluxos (receitas e despesas) atualizados ou ao somatório dos benefícios líquidos (receitas menos custos de exploração) atualizados menos os custos de investimento atualizados. O RBC é, conforme o nome indica, o rácio entre o somatório dos benefícios líquidos atualizados e os custos de investimento atualizados. O investimento é rentável se o VAL é positivo ou se o RBC é igual ou superior a um. A TIR é a taxa de atualização para a qual se anula o respetivo VAL e que deve ser comparada com a taxa de juro de um empréstimo bancário.

Conta de exploração

A conta de exploração é uma conta anual que nos permite apurar o excedente líquido de exploração, correspondendo à produção bruta mais as ajudas e subsídios à produção, menos o consumo intermédio (despesas com aquisição de bens e serviços ao exterior da exploração agrícola), consumo de capital fixo (amortizações económicas do capital fixo: construções, plantações, máquinas e equipamentos), remuneração do trabalho (salários, segurança social, seguros e outros encargos com a mão-de-obra) e impostos sobre a produção.

A amortização económica corresponde ao custo do capital fixo, a dividir pelo período de vida útil estimado para a plantação, para a maquinaria e para os equipamentos. No exemplo da plantação indicada no quadro 1, considerando um período de vida útil de 20 anos, a amortização económica será de 119 euros/ha [(2235+145)/20]. As amortizações são usadas no apuramento dos resultados de produção e de exploração porque são apuramentos anuais. No caso de análise de um investimento, haverá um custo na data de realização e um valor residual no final do período de vida útil (em geral uma percentagem sobre o valor inicial, sendo o mais comum ser 10%).

A produção bruta (PB) é um dos agregados fundamentais a estimar e engloba a produção final (PF) e a produção intermédia (produtos criados e consumidos na atividade produtiva no mesmo ano). Por sua vez, a PF considera as vendas, as existências finais de produção, o investimento bruto (realizado com recursos próprios da unidade produtiva) e o que se designa por outra produção final (que inclui ofertas e autoconsumo).

No caso em apreço, a produção bruta será constituída, basicamente, pelo valor das vendas. E este termo venda é crucial no apuramento dos resultados económicos. O valor da venda (ou produção vendível se considerarmos também a variação de stocks) deve ser valorizado ao valor unitário pago ao produtor à porta da exploração. Isto é, não é o preço a que está à venda ao consumidor, mas sim aquele que alguém paga à saída da exploração. Por outro lado, a produção física deve ser contabilizada pela quantidade vendida (ou vendível) e não pela produção no pomar. Isto é, que quantidade de fruto produzido num hectare é vendido, ou terá as condições para ser vendido. De referir ainda que pode haver perdas no período entre a colheita e a saída do produto. Normalmente, a planta começa a produzir dois a três anos após a plantação e atinge a plena produção aos seis a oito anos.

Pomar jovem

Pomar jovem

A produção depende naturalmente das condicionantes ecológicas e do sistema de produção, sobretudo da densidade de plantas e da possibilidade de rega. Por exemplo, no México, as produções médias variam entre as 4 t/ha no norte e as 9 t/ha na zona central e as 20 a 25 t/ha no sul (Inglese et al., 2002). Tomando como referência as plantações intensivas em Itália, que é o principal produtor europeu, a produção média será próxima das 10 t/ha (Oliveira et al., in Ferreira et al., 2016). O valor do produto varia muito, dependendo do calibre, do destino e de condicionantes do mercado. Tomando como referência valores para a campanha 2015 (Ramos e Alves, in Ferreira et al., 2016), o fruto para transformação foi pago entre 0,40€/kg e 0,50€/kg, e para a venda em fresco, uma cooperativa conseguiu um acordo de 3,90€/kg, para fornecimento a uma cadeia de supermercados.

Em relação aos custos de produção, o principal custo será as despesas de mão-de-obra com a colheita. Segundo a informação recolhida, um trabalhador pode apanhar cerca de 200 kg de figo num dia. Considerando um custo do trabalho indiferenciado horário de um homem entre 5,00€ e 7,50€, temos um custo da apanha de 0,20€ a 0,30€/kg. Este valor é coerente com o indicado por Inglese et al. (2001): 0,32 a 0,41€/kg (à taxa de câmbio atual) para os custos de colheita, transporte, processamento e embalagem.

O livro “A cultura da figueira-da-índia e a valorização agroindustrial do fruto”

O Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, I.P. (INIAV), em parceira com o Centro de Excelência e Valorização dos Recursos Silvestres Mediterrânicos (CEVRM) e a Opuntiatec – Consultora Agronómica, editaram o livro “A cultura da figueira-da-índia e a valorização agroindustrial do fruto”, onde se aborda a cultura, a sua valorização agroindustrial, a economia e os mercados.

Nos dois primeiros capítulos descreve-se a espécie na perspetiva botânica e de adaptação ao meio, a sua dispersão pelo mundo e as técnicas culturais adequadas à obtenção de uma boa produção. Segue-se um capítulo dedicado aos aspetos económicos da cultura referidos nos pontos anteriores. Os aspetos ligados os apoios no âmbito do PDR e vias de valorização económica do figo-da-índia e outros produtos da figueira são também aqui abordados. No capítulo sobre a valorização agroindustrial, descrevem-se os métodos para a confeção dos produtos à base do fruto e referem-se outros aproveitamentos do fruto, da semente e dos cladódios jovens. Por fim, apresenta-se a situação atual da cultura em Portugal, em termos de área plantada, possibilidade de expansão e de colocação da produção no mercado.

O livro está disponível, em formato digital, no sítio no INIAV, na divulgação, em livros e cadernos, no endereço http://www.iniav.pt/menu-de-topo/divulgacao/edicoes-proprias/livros-e-cadernos.

Bibliografia:

Eurostat (2000). Manual das Contas Económicas da Agricultura e Silvicultura CEA/CES 97 (Rev. 1.1) 200p.

Ferreira, A., Candeias, D.,Coelho, I.S., Passarinho, J.A., Alves, J.C.R., Andrada, L.C., Ferreira, M.E., Oliveira, M.M.R., Sapata, M.M.L., Ramos, P.J.T., Reis, P. (2016). A cultura da figueira-da-índia e a valorização agroindustrial do fruto.

Inglese, P., Basile, F., Schirra, M. (2002). Cactus pear fruit production. In P. S. Nobel, ed. Cacti: Biology and Uses. Berkeley, CA: University of California Press. Pp. 163–179.

Artigo publicado na edição de outubro de 2016 da revista VIDA RURAL