Vinhos

A casta do ‘decote pequeno’

Frederico Falcão, Vasco D'Avillez e António Ventura - blogue Agricultar - Vida Rural

Vamos lá falar sobre Vital? O desafio foi proposto pelo Grupo Parras Wines e as portas da fabulosa Casa das Gaeiras, em Óbidos, foram abertas para uma tertúlia que juntou produtores, enólogos, jornalistas e especialistas do setor.

A casta Vital vingou na região da Estremadura, mas nos últimos anos perdeu expressão e a sua área tem vindo a diminuir. Na região de Lisboa, o enólogo e consultor António Ventura estima que não existam mais de 20 hectares no total: “É uma pena perdê-la!”

João Paulo Martins, jornalista, crítico de vinhos e moderador desta tertúlia, falou de uma casta prometedora, “embora enferma de uma série de problemas”, e brincou mesmo com os seus atributos: ”tem um decote muito pequeno, não se consegue ver nada”.

“Se fizeres um vinho branco, não te esqueças da Vital”

Este foi o conselho que o pai do enólogo João Melícias lhe deu há 30 anos. E os primeiros dois hectares que fez para produção própria foram mesmo de Vital. Uma casta que necessitava de poda curta, “para produzir menos, mas bem”, mas que acabou por abandonar: “As modas no mundo do vinho ditaram a substituição da Vital pelo Arinto”, revela.

O investigador Eiras Dias, do INIAV Dois Portos, foi claro e alertou: “A Vital não ultrapassou as suas dificuldades e está a caminho de se tornar um casta minoritária”. É que, apesar da evolução das técnicas culturais e enológicas, ainda não se encontrou o clone que poderá resolver o problema da podridão.

Quanto à origem da casta, Eiras Dias esclareceu os tertulianos presentes que esta deriva do encontro entre a Alfrocheiro Preto e a Mourisco Branco, de que resultou a Malvasia Fina. Mais tarde, esta última ‘casa’ com a Rabo de Ovelha e nasce assim a Vital. “Mas não nos devemos agarrar à origem da casta, devemos juntar a casta ao enquadramento territorial”, diz este investigador.

Vasco Avillez, presidente da Comissão Vitivinícola de Lisboa, concorda: “A ligação entre a casta e o território é de tal maneira importante que esta região foi demarcada como Gaeiras [localidade em Óbidos onde fica a Casa de Gaeiras] e só quatro anos mais tarde mudou para Óbidos”.

Carlos João Pereira da Fonseca, da Quinta das Cerejeiras, partilhou a sua experiência. No meio hectare de Vital que explora nas suas propriedades conseguiu, em 2015, uma produção de 38.837kg. Em 2016 este número baixou para 24.389 kg: “A casta tem muitos problemas com a botritis, mas tem um melhor comportamento em terrenos virados a norte, que permitem evitar os escaldões. E de facto, a única vinha de Vital que tenho está virada a norte”, diz. Este empresário referiu ainda que durante algum tempo “estranhei o facto de a Vital não constar no livro de Cincinato da Costa” [Portugal Vinícola] mas percebi depois que tinha dois sinónimos: Boal Bonifácio e Malvasia Corada”. Tempo ainda para lembrar a falta de material vegetativo: “Continuo interessado em fazer Vital, mas quando fiz novas plantações não consegui encontrar plantas”.

Para o presidente do IVV, Frederico Falcão, a abertura atempada de concursos pode dar uma ajuda neste problema e beneficiar a disponibilidade de plantas: “Os concursos do Vitis abriram mais cedo precisamente para dar tempo aos viveiristas. Demos-lhe as listagens das intenções de plantação dos produtores para poderem preparar as futuras encomendas”.

Casada ou solteira?

João Paulo Martins lançou a pergunta: Podemos esperar que a casta no futuro seja utilizada para vinhos extremes ou será sempre trabalhada em lotes?

Paulo Tavares da Silva, da Quinta da Chocapalha, confessa que arrancou a área de Vital que tinha na sua exploração. “Era uma casta demasiado produtiva e vigorosa. Mas compro uvas Vital a outros produtores para fazer lote com Arinto e para acrescentar volume”.

Carlos João Pereira da Fonseca é perentório: “Acredito que é uma boa casta para fazer blends, em especial numa altura em que existe alguma dificuldade em encontrar massas vínicas com baixo grau”, aponta.

A enóloga residente da Parras Wines, Vera Moreira, explica a importância desta casta, num grupo “altamente comercial, com foco nos perfis de moda, onde é preciso encontrar fatores diferenciadores. E esta casta pode ser o que precisamos para fazer um grande vinho”. Uma opinião corroborada pelo CEO da Parras Wines, Luís Vieira, que coloca a tónica precisamente na diferenciação: “O Grupo quer potenciar esta casta como produto de nicho, para utilizar em vinhos de valor acrescentado que vamos vender com alguns anos. A Vital faz parte de uma estratégia de vinhos para o futuro”, revela.

Os vinhos

Esta tertúlia foi o pretexto para a apresentação do novíssimo vinho Casa das Gaeiras Reserva Vinhas Velhas. Ocasião para um almoço onde os convidados puderam provar um Gaeiras branco com 20 anos e um Quinta das Cerejeiras branco com 30 anos, ambos em grande forma!

De volta à Vital, o Casa das Gaeiras Reserva Vinhas Velhas branco é a materialização da aposta da Parras Wines nesta casta. Não chega ao mercado todos os anos e, como dizem na casa que o produz “só aparece quando lhe apetece e quem se atreve a fazê-lo só o faz mesmo por amor”, dada a dificuldade em ter produções homogéneas todas as campanhas. Um vinho que vale a pena conhecer pela sua singularidade!