Raça faz a diferença na produção de leite caprino

Cristina Soeiro

É a raça leiteira mais produtiva em Espanha. Que está presente em Portugal numa exploração em Viana do Alentejo com 550 animais. Os resultados estão a ser bons. Mas o apuramento da genética e a colaboração com a associação espanhola deverão contribuir para que venham a ser ainda melhores.

De acordo com o registo espanhol, a cabra de raça Florida é a raça leiteira espanhola mais pro-dutiva. Os números médios de um animal adulto são de 682 quilos de leite anuais, com 4,96% de gordura e 3,28% de proteína (ver quadro). Valores bastante positivos por agregarem três condições fundamentais do leite e que distinguem esta raça das restantes – espanholas ou não. “Em França, por exemplo, as maiores produtividades são de 750/800 litros, mas têm médias de apenas 3,5% de gor-dura e 1,3% de proteína”, enuncia o director técnico da associação desta raça, Manolo Sanchez. É um dos responsáveis pela Associação Nacional de Criadores de Ganado Caprino de Raza Florida (Acriflor), criada em 2000, que presta apoio às explorações que produzem esta raça e realiza todo o trabalho de apuramento genético.

Cabras para substituir ovinos

A cabra de raça Florida é produzida numa exploração em Viana do Alentejo há cerca de três anos. Paulo Cabral procurava caprinos espanhóis, para leite, para substituir a sua extinta produção de ovinos de leite. Uma componente pecuária que acabou na propriedade por questões “sanitárias e dificuldades na comercialização”, indica. A opção pela cabra leiteira deveu-se ao maior leque de hipóteses do seu produto, revela: “o leite de cabra tem mais aproveitamentos que o normal – é utili-zado para mais misturas e rotações”.

Contou com o apoio da Acriflor em todos os esclarecimentos sobre esta raça e a sua produção. Um acompanhamento que se mantém agora, na fase de gestão da actividade. Foram três anos de investimento. Na compra dos animais, na modernização e na adaptação das instalações. Legalizou a exploração – como importadora e exportadora –, adquiriu duas máquinas para o leite, investiu numa estação de tratamento de água, para controlar os problemas bacteriológicos, procedeu a modificações na sala de ordenha e construiu balneários para os trabalhadores.

O retorno destes investimentos avultados deverá começar este ano. “O quarto e quinto anos são para o equilíbrio de contas, a partir do sexto espero começar a recuperar”, adianta Paulo Cabral.

Requisitos definidos

Todo o processo produtivo na exploração está protocolado. Os animais são separados em dife-rentes lotes, dependendo da sua idade e estado. Toda a alimentação é previamente definida e o controlo produtivo assegurado. “Estabelecemos um espaço mínimo de um metro quadrado/animal, tem de existir uma cama confortável, um solo seco com palha, um sítio próprio para comer e um espaço muito bem ventilado”, descreve Manolo Sanchez.

A ordenha também está perfeitamente estipulada: “Tem de ser um processo rápido e, também para isso, recorremos a um sistema de ração, com pouca comida, apenas para a cabra se deslocar rapidamente”. Na sala de ordenha de Paulo Cabral há 48 pontos de ordenha, um para cada animal. 300 cabras são ordenhadas diariamente. O processo é o mais rápido possível. Dura uma hora e 20 minutos de manhã e uma hora à tarde. Mais demorado, porque envolve muitas chibas.

Apuramento genético

As visitas da Associação à exploração em Viana do Alentejo acontecem de dois em dois meses. Para analisar os animais, controlar as gestações e fazer a revisão geral da alimentação. Realiza eco-grafias para perceber quais as cabras que estão prenhas ou não e efectuar tratamentos nas que não estão. Um deles, tratamentos hormonais de implantes de melatonina. Uma hormona natural produzida pelo animal que, quando ministrada, põe em funcionamento as hormonas reprodutivas.

Os implantes são colocados em apenas 50% das fêmeas e em todos os machos. A libido dos machos e de metade das fêmeas deverá ser suficiente para, por sugestão, despertar os comportamentos sen-suais nas restantes. “É uma forma de reduzir custos e ter bons resultados na mesma”, observa Mano-lo Sanchez. A eficácia do método é elevada. A taxa de fertilidade ronda os 75%, apenas menos 5% do que por método natural.

Mas o trabalho da Acriflor nas explorações envolve também todo o controlo da qualidade. Tira amostras de leite, para levar para a Associação, um processo complementar às análises que são feitas na própria propriedade. O intuito é detectar problemas bacteriológicos do leite e fazer estu-dos comparativos com outras raças.

Investe ainda fortemente no apuramento genético da raça. Para tal, realiza controlos genéticos mensais nas explorações associadas. Analisa as produtividades das cabras, e, no final do ano, indica quais as mais produtivas. Em 50% dessas, o produtor fica com as filhas. Nos machos, fica com 1% dos melhores. O melhor macho é comprado pela Acriflor e incorporado no seu centro de testagem de machos. Retira o sémen e insemina na cabra, para realizar uma prova genética e avaliar a efectiva produtividade.

Este ano Paulo Cabral deverá começar a investir na inseminação artificial. A Associação fornece o sémen e as escolas portuguesas realizam o processo. Uma opção para ter animais mais produtivos, salienta: “Se conseguir a inseminação em pelo menos 50 ou 100 fêmeas por ano é um salto qualitati-vo bastante elevado, porque a cabra, comendo o mesmo que outra, consegue produzir o dobro – tanto em quantidade como em qualidade – apenas por questões genéticas”.

Leite mais valorizado no Inverno

Paulo Cabral ainda não conseguiu atingir os valores médios de produção da raça Florida. Este ano espera chegar aos 450/500 litros, no conjunto chibas e adultas. O objectivo é ter 600 cabras em ordenha. Para ter a mesma produção todo o ano. “Para isso tenho de investir na qualidade e na genética, mas também na quantidade”. Um trabalho que só é possível com uma profunda selecção dos animais.

Esta selecção, os tratamentos hormonais, entre outros, são processos que visam garantir que as propriedades têm produção de leite todo o ano. E forçar a cobrição em épocas em que a cabra tendencialmente não gosta de cobrir, como acontece nos primeiros meses do ano. Mas, também, aproveitar a maior rentabilidade do negócio. Como há menos leite e menos chibos no mercado na segunda metade do ano, o produto é mais valorizado. No Outono/Inverno o leite é mais caro, tal como os cabritos.

Novos nichos para a produção caprina

Paulo Cabral vende o leite de cabra para três queijarias em Portugal. O ano passado, os preços foram de 58 cêntimos/litro. Este ano prevê que cheguem aos 60 cêntimos. Valores que o próprio classifica de “bons”. E que, acrescenta, chegando aos níveis de produção previstos pela Associação, “será um valor ainda mais interessante por animal”.

Nos machos, o negócio é bastante mais fraco. Compra leite artificial para os alimentar, gasta elec-tricidade e mão-de-obra. No final, constata, “são mais caros de produzir do que o preço por que depois são vendidos”. Em certas alturas do ano consegue valores superiores, ao escoar para Espa-nha. Em particular, no final do Verão, em que vende sobretudo para festividades do norte espa-nhol. Fora dessa época, é difícil vender para o país vizinho. Porque, concretiza, “os produtores espanhóis também produzem – bem e a bons preços”.

Em Espanha, a produção de caprinos começa a ser utilizada para novos nichos de mercado. É o caso do que Manolo Sanchez designa de “cabrito leital”. Um animal que só é alimentado com leite materno e que é abatido ao fim de um mês de vida, com cerca de oito quilos. Vale entre cinco a seis euros/quilo entre Julho e Dezembro e três euros/quilo no resto do ano. “É uma carne muito típica em Espanha e muito cara”, evidencia.

No país vizinho o leite de cabra também já é aplicado em outros produtos, além do queijo. Tem vin-do a comunicar as vantagens por o seu ácido de gordura ser mais saudável e digestivo e com maiores benefícios para quem tem sensibilidade à lactose. Começa, por isso, a entrar no segmento dos iogurtes e do leite.

Hipóteses que ainda não são aplicadas em Portugal. Mas que, por influência espanhola, deverão chegar num futuro próximo. Um maior leque de utilização que poderá vir a valorizar o leite de cabra no nosso País.

Ajudas motivam criação da associação

Raça caprina leiteira autóctone do Bajo Valle del Guadalquivir, Andaluzia, a Florida procede de uma raça que existia em Sevilha. Um produtor trouxe sémen de Inglaterra, que cruzou com raças não definidas. Desse cru-zamento surgiu esta raça que, reconhecida pelo seu potencial produtivo, levou à criação, em 1984, de um rebanho de selecção para estabelecer as bases para a sua definição, homogeneização e selecção.

A Asociación Nacional de Criadores de Ganado Caprino de Raza Florida – Acriflor surgiria em 1996. “Só estando reunidos numa associação é que conseguíamos aceder a ajudas públicas e a apoios do Governo Central, para melhorar a genética”, conta Manolo Sanchez. Em 2000 eram oito produtores. Agora são 60 pro-dutores e 20 mil reprodutoras.

Edição julho/agosto 2014| n.º 1799

Produção agrícola tem de aumentar com sustentabilidade

Pequenos frutos:produção e mercado a crescer

Milho: a cultura arvense mais competitiva

Outras publicações do Grupo