Agricultura

Amêndoa seduz agricultores do Ribatejo

A procura e o preço continuam a rentabilizar a aposta na cultura da amêndoa que, depois de conquistar o Alentejo, está agora a interessar os produtores do outro lado do Tejo como complemento às culturas tradicionais da região. A organização, a cargo do projeto AlmondPT, encheu a sala para ouvir produtores e especialistas, nacionais e estrangeiros, a falar dos vários aspetos desta produção.

O Auditório da Escola Superior Agrária de Santarém foi pequeno para todos os que quiseram ouvir falar da cultura da amêndoa nas suas várias vertentes: agronómica, rega, rentabilidade, apoios, mercado e perspetivas internas e externas.

Depois das apresentações em sala (todas disponíveis em almondpt.com), a seguir ao almoço houve também a possibilidade de ver no terreno uma demonstração de colheita de amêndoa, na Quinta da Lagoalva de Baixo, onde João Freire de Andrade, agricultor e um dos dinamizadores do site AlmondPT, decidiu plantar há três anos 10 hectares de amendoal, aproveitando “um terreno sem interesse para outras culturas”. E, ao contrário do que se possa pensar, seguindo uma tradição da zona porque: “lembrei-me que quando era miúdo todas as bordaduras das várias plantações tinham amendoeiras”. Mas vamos às informações, experiências e ensinamentos que os oradores partilharam com os participantes.

Depois das boas vindas de José Nuno Lacerda Fonseca, diretor da Direção Regional de Agricultura e Pescas de Lisboa e Vale do Tejo, e de Margarida Oliveira, subdiretora da Escola Superior Agrária de Santarém, o presidente do Centro Nacional de Competências dos Frutos Secos, Carlos Silva, apresentou o CNCFS, os projetos que tem vindo a desenvolver e os objetivos para o futuro, além de alguns números do setor.

Amêndoa na Quinta da Lagoalva de Baixo

 

CNCFS: promover o conhecimento para dar mais valor à fileira

O Centro, criado em 2015, tem por objeto promover o desenvolvimento do setor dos frutos secos em Portugal, nomeadamente a castanha, a amêndoa, a noz, a avelã, a alfarroba e o pistácio, pela via do reforço da investigação, da promoção da inovação e da transferência e divulgação do conhecimento. “O nosso centro pretende servir a fileira portuguesa associada aos frutos secos, aportando mais valor às suas operações, através de articulação com entidades nacionais e internacionais capazes de elevar o nível de conhecimento existente”, afirmou Carlos Silva.

O responsável adiantou ainda que “temos levado a cabo jornadas técnicas em todo o País”, sobre diversos temas, entre eles o combate a pragas, como a vespa das galhas do castanheiro, ou que afetam a amêndoa e a noz e referiu igualmente várias visitas técnicas a Espanha organizadas pelo CNCFS, sobre o pistácio e a amêndoa– e no caso da amêndoa também ao Alentejo –, e ainda a Itália sobre a cultura da avelã.

O centro lançou também um projeto de divulgação do consumo de frutos secos junto de crianças e escolas – o Trinca Secos – e continua com vários projetos em desenvolvimento, como o Biosave (promoção do potencial económico e da sustentabilidade dos setores do azeite e castanha), o BioPest (estratégias integradas de luta contra pragas chave em espécies de frutos secos), o ValNuts (valorização dos frutos secos de casca rija), o Egis (estratégias para uma gestão integrada do solo e da água em espécies produtoras de frutos secos) e o TreeNuts (partilha de conhecimento e estratégias para potenciar a fileira dos frutos secos), entre outros, cuja informação está disponível no website do CNCFS. Na página estão também disponíveis para download Manuais Técnicos sobre Investimento, Produção, Transformação e Comercialização para cada um dos seis frutos secos que o Centro abrange.

 

Consumo de amêndoa duplicou em Portugal

Carlos Silva fez também uma breve caraterização do setor da amêndoa em Portugal referindo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) segundo os quais “em 2017, Portugal tinha uma área de 34.002 hectares de amendoal e uma produção de 20.139 toneladas, o que corresponde, em relação à área e produção total de frutos secos em Portugal, a 38% e 21% respetivamente”.

Os dados evidenciam, por exemplo, o aumento para mais do dobro do consumo aparente (produção + importação – exportação) de amêndoa em Portugal entre 2007 e 2017, que subiu de 3.003 para 6.711 toneladas, e todos os analistas consideram que a margem de crescimento é ainda muito grande e vai certamente evoluir.

Xavier Miarnau, do Programa de Fruticultura do Instituto Público de Pesquisa e Tecnologia Agroalimentar da Catalunha (IRTA), falou depois do Estado atual, perspetivas futuras e potencial da cultura da amêndoa na Península Ibérica.

O investigador salientou alguns problemas semelhantes entre Trás-os-Montes e a Catalunha, ao nível da geada na primavera, da deficiente polinização, da produção ser de sequeiro e em solos pobres e marginais, destacando que “nestas zonas a evolução tem sido lenta”, embora reconheça que nos últimos anos a produção se profissionalizou, através da programação da produção, concentração da oferta e da comercialização em comum, havendo também uma reconversão do setor e novas plantações, de novas variedades, em novas zonas (entre elas o sul do Alentejo), com fertilização e rega. “Uma revolução que começou, principalmente a partir do ano 2000”, afirmou.

Produção ibérica tem de ser muito mais eficiente

Espanha é o terceiro produtor mundial de amêndoa mas Xavier Miarnau apontou a ainda grande falta de eficiência desta produção uma vez que o país possui a maior área plantada (2018-2019) – 661.000 hectares, onde produz 61.160 toneladas, contra uma produção da Austrália de 80.374 toneladas em 39.662 hectares e do líder destacado – os EUA – com uma produção de 978.900 toneladas para uma superfície  de 538.000 hectares.

Por isso, o investigador considera que a reconversão do setor, “com novas variedades e porta-enxertos, novos regadios e modelos produtivos”, será fundamental para o futuro da cultura da amêndoa na Península. Entre as novas variedades destacam-se Lauranne, Soleta, Belona, Guara e Vairo, entre outras, referindo que o IRTA tem vários projetos de melhoramento genético de variedades, apostando, por exemplo na floração precoce, tardia ou extra-tardia. Por oposição as variedades tradicionais não são autoférteis e são mais suscetíveis às geadas e a doenças.

Com os porta-enxertos a situação é semelhante salientando alguns de eleição nas plantações dos últimos anos, como o Rootpac 20, o IRTA 1, o Rootpac R, entre outros.

Xavier Miarnau falou também sobre as novas orientações das plantações de hoje, assumindo configurações muito mais intensivas e diferentes das tradicionais. Somando a estas variáveis a rega, a fertilização e a mecanização, o investigador mostrou resultados produtivos de vários ensaios promissores, desta intensificação, assinalando, todavia, vantagens e benefícios dos modelos tradicional, intensivo e superintensivo. Não deixou ainda de alertar para algumas ameaças como as pragas e doenças, os efeitos da deslocalização da produção e as alterações climáticas.

Amendoal chave-na-mão

Com os preços do milho e do tomate a baixar, muitos agricultores do Ribatejo procuram alternativas, sendo a amêndoa uma delas, por isso, a somar aos cereais e aos hortícolas, a Cooperativa Agrícola do Vale de Arraiolos (que abrange muitos concelhos do Ribatejo) fez investimentos para poder receber, despelar e comercializar este fruto seco.

Vasco Reis, presidente da CADOVA, explicou à plateia que em 2018 “recebemos 330 kgs de amêndoa, mas este ano esperamos que chegue já às 20 toneladas, de quatro produtores, dois do Alentejo e dois do Ribatejo”. O responsável adiantou ainda que a Organização de Produtores também ajuda no planeamento e aconselhamento técnico.

Por seu lado, Marisa Juan-Dalac, da Novalmendro, foi a Santarém apresentar as soluções chave-na-mão que a empesa espanhola do grupo Todolivo, dispõe para a cultura da amêndoa. “Os serviços que oferecemos são os seguintes: execução integral de plantações (incluindo a rega), assistência técnica, colheita mecânica com máquinas cavalgantes, venda de fitossanitários e de qualquer outro tipo de material relacionado com o maneio da cultura”, afirmou.

A responsável adiantou que “os excelentes resultados obtidos pela Todolivo em olival em sebe [superintensivo], o sucesso da gestão agronómica e a tecnologia utilizada serviram de base para o desenvolvimento da cultura do amendoal em sebe, pois apresentam grandes semelhanças”.

A primeira plantação de amendoal em sebe realizada pela Novalmendro foi em Lérida em julho de 2010 e tendo até hoje plantado “550 hectares de amendoal em sebe, dos quais 75% em Portugal”.

Marisa Juan-Dalac resumiu então as principais vantagens do amendoal em sebe: “Rápida entrada em produção e cultivo mecanizado, com uma colheita mecânica muito rápida, económica e assética. De referir ainda a redução de custos; excelente rentabilidade; aumento da eficiência dos tratamentos fitossanitários e do maneio cultural em geral e minimiza a necessidade e dependência de mão-de-obra qualificada”, explicando de forma pormenorizada os serviços da empresa e mostrando exemplos de plantações, porta-enxertos e variedades (indicando rentabilidade e produção).

Depois de falar também da produção mundial de amêndoa, a responsável salientou o preço ronda os 4,67€/kg (sem casca) em 2019 para as variedades comuns, defendendo que o amendoal “é uma grande oportunidade de cultivo”, referindo ainda os inúmeros benefícios deste fruto para a saúde, esperando-se assim um aumento do seu consumo numa sociedade cada vez mais preocupada com uma alimentação saudável.

Califórnia versus Alentejo

Com mais de dez anos de experiência de campo na Califórnia David Doll foi consultor agrícola da Universidade de Davies e está em Portugal desde novembro do ano passado para liderar o desenvolvimento do projeto internacional Rota Única no Alentejo, de várias culturas, incluindo amêndoa. Assim, neste seminário foi falar da indústria da amêndoa na Califórnia e fazer uma análise e comparação das oportunidades em Portugal (Alentejo).

David Doll salientou que na Califórnia em cerca de 100 anos a área de produção cresceu para cerca de 400.000 hectares e que os sistemas de abastecimento de água possibilitam uma irrigação adequada, frisando que “a produção é ditada pela quantidade de água”. O responsável agrícola sublinhou ainda que apesar de existirem grandes explorações a maioria (61%) são até 12,5 hectares.

Na comparação com as áreas de produção em Portugal – do Alentejo até Castelo Branco – David Doll afirmou que as condições são “semelhantes às áreas de produção do Vale do Sacramento”. Quanto ao solo, o especialista salienta que em Portugal é “mais variável, dependendo da localização; (…) pobre em nutrientes (potássio e fósforo); muitos são ácidos e com alto teor de magnésio; (…) solos irregulares requerem uma regularização topográfica”, mas em termos de doenças e insetos as duas regiões são idênticas.

Nas vantagens competitivas, Portugal ganha apenas no preço da terra, no custo da mão-de-obra e na proximidade ao mercado europeu.

Assim, além de algumas recomendações políticas, David Doll incluiu também algumas considerações para a indústria da amêndoa em Portugal, nomeadamente: “Uma melhor compreensão dos sistemas biológicos para ajudar na redução do uso de pesticidas; sistemas de produção que utilizem menos energia, aumentando o rendimento; técnicas culturais desenvolvidas para aumentar as produtividades das áreas de produção portuguesas e um melhor sistema que permita a pequenas explorações entrar na indústria”.

Regar à medida das necessidades

António Ramos, diretor-geral da Aquagri, falou depois da rega num amendoal intensivo e, aproveitando a comparação com a Califórnia, salientou que nesta região a maioria das explorações as árvores são adultas pelo que as suas necessidades hídricas anuais podem chegar aos 12.000m3/ha e afirmou: “Potencialmente as necessidades hídricas anuais [no Alentejo] poderão chegar aos 12.000 m3/ha, mas primeiro as árvores têm de fazer o seu caminho e pedir essa quantidade de água”.

Para já, as necessidades das produções para as condições climáticas de Beja têm rondado os 3.900m3/ha/ano.

De acordo com António Ramos, algumas soluções que poderão ajudar a ‘chegar à Califórnia’ passam por: “Escolher bem o local e tipo de solo (se possível), recolher informação do solo (por ex: levantamento da condutividade elétrica, fazer uma boa preparação do solo (fundo), projetar bem o sistema de rega, investir numa boa drenagem, utilizar práticas culturais que facilitem a entrada de água no solo como o enrelvamento na entrelinha – essas ervas deixarão de competir quando completamente ensombradas, mas facilitarão a entrada de água no solo nos primeiros anos e esse beneficio compensará a competição existente”. Além disso, o responsável da Aquagri salientou ainda a importância de “saber a cada momento as condições meteorológicas do meu local. É fundamental para cálculo das necessidades de rega e uma grande ajuda no controlo de pragas e doenças”, bem como para o desenvolvimento cultura, usando imagens satélite ou drone, para poder fazer as correções necessárias (por ex: drenagem, adubação) e ajustar rega.

António Ramos considera que é fundamental conhecer bem o pomar para saber as suas necessidades (100%), defendendo que se não houver água suficiente “podemos reduzir até aos 80% (relativos ao nosso pomar) sem perdas significativas de produção e crescimento das plantas”, disse ainda que “só se houver muito pouca água é que se deverá cortar mais radicalmente nos meses de maior consumo” pois esse corte irá ter impacto no peso do miolo desse ano e não se deve começar a regar cedo demais (quando há agua no solo) de forma a evitar saturação.

O técnico recomendou ainda que se deve fazer sempre rega pós colheita e que as regas deverão ser o mais longas possível.

Novo paradigma, novos financiadores

Sobre os apoios financeiros à cultura da amêndoa, depois de frisar que “o interesse pela cultura continua e que estamos a fazer um bom trabalho e a criar uma fileira” Pedro Santos, da Consulai, lembrou que os agricultores já não podem contar só com os fundos, sendo necessário “andar de mãos dadas com outros financiadores, como os bancos”.

Assim, afirmou que em termos de financiamentos de médio-prazo, há instrumentos financeiros que o executivo deverá disponibilizar ainda até ao final do ano, como uma carteira de empréstimos de 190 M€ (empréstimo FEI – Fundo Europeu de Investimento –, com contributo PDR2020), devendo ser selecionadas uma ou duas instituições de crédito para operacionalizar a medida. Pedro Santos explicou que é um “financiamento através de empréstimo com garantia (70%) pública”, sendo as despesas elegíveis ‘compra de terras + capital circulante’, mas apenas para beneficiários sem projetos aprovados no PDR2020”.

Sobre o pós 2020, o responsável resumiu que o que podemos esperar será: “Menos dinheiro disponível, menores taxas de apoio, complementaridade com apoios do tipo ‘Instrumentos Financeiros’, custos forfetários e foco nos resultados”.

Conta de cultura de uma exploração em Serpa

Por último, Afonso Salazar Lebre, da Prime Almonds, fez uma apresentação sobre a conta de cultura de um amendoal intensivo, com números reais da sua exploração, sendo que o investimento total até agora (incluindo custos operacionais) foi de 10.575 milhões de euros.

Situada na zona de Serpa, a exploração teve início em 2015, está dividida em quatro parcelas distintas que somam 80 hectares, tendo sido plantados 20 hectares em 2016, 20 em 2017 e outros 20 em 2019, com as variedades Guara, Lauranne e Marta, estando ainda 20 hectares livres para plantar.

Afonso Lebre explicou que “a precipitação média anual é de 537 mm, mas com uma grande irregularidade inter-anual”, exemplificando: “De setembro de 2018 a agosto de 2019 choveram 309 mm na nossa exploração”, e salientando que “a precipitação concentra-se nos meses mais frios entre novembro e janeiro apresentando períodos de seca frequentes típicos do clima mediterrâneo”.

O produtor caraterizou também os níveis de humidade vento e evapotranspiração, referindo que “regamos com base na evapotranspiração, cujos dados retiramos da nossa estação meteorológica. Apoiamo-nos ainda em sondas de humidade de solo, sonda de recolha de amostras de solo e câmara de pressão”. Referiu também que o solo é argiloso (calcário dolomítico), com “boa capacidade de retenção de água, com percentagem elevada de argila que provoca fendas no solo”.

A exploração está no perímetro de rega de Alqueva, tendo água de boa qualidade mas salientando que é necessário ter em atenção à limpeza dos filtros devido à elevada quantidade de algas em algumas fases do ano.

Quanto à dotação, Afonso Lebre salientou que “nos primeiros quatro anos temos, como base para o cálculo de rega, uma percentagem das necessidades das árvores em plena produção, calculada mediante o diâmetro de copa”, o que dá 8.200 m3/ha/ano.

Breakeven ao 5º ou 7º ano

O produtor frisou ainda a grande importância que tem a poda, referindo que o sistema de formação é em vaso, fazendo “normalmente duas podas por ano, no inverno e no verão com maior intensidade nos primeiros três anos”. Quanto a tratamentos, em 2019 foram realizados quatro tratamentos com herbicidas, oito com inseticidas e seis com fungicidas.

Afonso Lebre mostrou também o custo operacional por quilograma de amêndoa e por hectare entre o terceiro e o sexto ano para os vários inputs. (Ver quadro)

Quanto ao breakeven do negócio, o produtor apresentou estimativas para o ano 5, se o preço da amêndoa se mantiver em 5,5€/kg e para o ano 7, se baixar para os 3,5€/kg.

Por último, salientou que a conta de cultura pode ser afetada, em termos de investimento por uma “boa implantação da cultura e sistema de rega”, e ao nível dos custos operacionais pelo “apoio técnico; métodos de condução da cultura; poda; rega e fertilização; e métodos de colheita”.