Pecuária

“Na exportação é onde conseguimos uma valorização maior”

“Na exportação é onde conseguimos uma valorização maior”

António Manuel Rocha gere 300 hectares de terrenos da família, “que já vêm do tempo do meu bisavô”, mais 600 hectares alugados de propriedades contíguas, em Grândola. “Sempre nos dedicámos à pecuária (ovinos) e à floresta, com sobreiro e pinheiro bravo e manso” e hoje “na exportação é onde conseguimos uma valorização maior”. Assegura que a seca está a afetar a atividade e muito: “o pinheiro manso não tem pinhas por causa do calor e falta de humidade”.

O agricultor diz que “na exploração tudo é integrado: a par da produção florestal, semeamos pastos para alimentar as ovelhas e, mais recentemente, dedicámo-nos também à multiplicação de semente, principalmente de serradela”.

Vende os borregos nas duas épocas tradicionais – Natal e Páscoa – “porque fora disso o preço não é interessante”. Tem cerca de 550 ovelhas e as vendas anuais de borregos rondam os 400, “porque ficamos sempre com cerca de 80 para reposição do efetivo e tentamos fazer uma melhoria, aproveitando a descendência das ovelhas mais prolíferas, como é o caso das gémeas, mas apontamos para as três parições a cada dois anos”.

Antonio Manuel Rocha
Crédito: Rodrigo Cabrita

António Manuel Rocha conta à VIDA RURAL que vende “os borregos para um engordador da zona da Benedita, que concentra muitos animais no Sobral e os importadores do mercado islâmico francês e também israelitas vêm assistir ao abate” e adianta: “Na exportação é onde conseguimos uma valorização maior, porque cá está instituída a cultura da promoção”.

Vende a lã para um intermediário de Grândola que concentra de vários produtores “e depois vai para Alcanena, mas pouco lucro sobra da tosquia”.

O também presidente da Associação de Agricultores de Grândola (que tem cerca de 200 associados) defende que “os brincos já não deviam existir, porque não têm informação nenhuma que não esteja no chip e só nos dão problemas: as ovelhas metem a cabeça nas vedações e rasgam-nos ou perdem-nos e temos de os substituir e associar outro número ao chip”.

“Os animais são numerados de acordo com a data de nascimento, por ordem, em cada época, os filhos ficam o mesmo número da mãe”

Um sistema próprio de numeração dos animais

Por isso, desenvolveu um sistema próprio de numeração na sua exploração salientando que “o número do brinco não me interessa para nada, pode ser o 1 ou o 300. No nosso sistema os animais são numerados de acordo com a data de nascimento, por ordem, em cada época, os filhos ficam com o mesmo número da mãe e assim sabemos sempre quando é para vacinar, desparasitar, etc. porque é só colocar na manga do número X ao Y, é tudo muito mais rápido”. Claro esta numeração serve apenas para o maneio na exploração, sendo associado à informação do chip.

O agricultor faz parte da Organização de Produtores Pecuários do Litoral Alentejano e do seu Agrupamento de Defesa Sanitário, sendo os animais acompanhados pelos seus serviços veterinários. “Ao nível sanitário e veterinário as coisas evoluíram muito nos últimos anos”, reconhece, salientando que “praticamente não temos problemas a este nível”.

Na exploração os ovinos estão separados por parques de acordo com idades e situações (prenhes, em lactação, etc.) e também segundo a qualidade e tipo de pasto. “Os carneiros estão nesta altura [janeiro] separados do rebanho e só voltam em fevereiro para a cobrição dos borregos do Natal” diz e acrescenta que “as ovelhas ficam numa volta curta mais ou menos um mês antes de parirem e numa pastagem melhorada, com trevos, serradelas e azevéns, além de começarem a comer ração própria para a produção de leite”.

Em termos de raça, a aposta tem sido em animais cruzados de Ile-de-France porque “os puros não suportam o calor e o pó de junho a outubro, e estes são animais mais rústicos, já muito integrados no clima e habitat”, conta o produtor.

Semanalmente é feito o controlo do peso dos borregos e “já sabemos o que devem aumentar. Se isso não acontece temos de analisar a ração e o pasto!

Quase tudo produzido na exploração

António Manuel Rocha indica que “produzimos quase tudo, como a palha para as camas. Mas com a seca não sabíamos como ia ser o outono e inverno e decidi comprar 30 toneladas de palha de arroz no verão, na zona de Alcácer do Sal, que agora vamos usando de acordo com as necessidades”. Esta palha pode durar dois ou três anos em boas condições, assegura.

Tem algumas pastagens permanentes biodiversas e ainda algumas espontâneas mas semeia várias folhas (todas têm água de poços, furos ou charcas, mas só rega quando é mesmo necessário) com aveia, azevéns, tremocilha e também trevos e serradelas “que começámos a debulhar e a vender a semente para particulares e empresas”, diz, acrescentando: “particularmente a nossa serradela que é de muito boa qualidade”.

Tem stock de palha e feno e nos trevos e azevéns “normalmente ensilamos o primeiro corte, depois damos uma adubação de cobertura e deixamos crescer para ser cortado ‘a dente’, pelos animais em pastagem, ou deixamos secar para debulhar, conforme as necessidades e as condições do terreno, se permitem ou não a entrada das máquinas”.

Rendimento vem da cortiça e madeira

“Sempre nos dedicámos à pecuária (ovinos) e à floresta, com sobreiro e pinheiro bravo e manso” mas a seca está a afetar a atividade e muito: “o pinheiro manso não tem pinhas por causa do calor e falta de humidade”.

Já em relação ao pinheiro bravo, “tivemos nemátodo há cerca de dez anos e tivemos de cortar grande parte. Hoje vendemos a madeira”. Mas a aposta é na cortiça, “temos cerca de 140 hectares de sobreiros adultos” e António Manuel Rocha mostra-nos uma plantação de sobreiros, feita em outubro de 2016 “tudo do nosso bolso, sem quaisquer apoios”, foram semeados e regados no verão dentro do próprio tubo, “trouxemos um trator com uma cisterna todas as semanas para os regar”.

“Temos cerca de 140 hectares de sobreiros adultos”

O produtor diz-nos que não concorda com a proibição de retirar cortiça pelo sistema de meças (dividir o sobreiro em partes não as descortiçando todas no mesmo ano) a partir de 2030, tendo de ser substituído pelo sistema de pau batido (retirar a cortiça do sobreiro toda no mesmo ano), porque “no futuro a árvore não vai agradecer, principalmente as árvores de maior porte uma vez que vamos expô-las à perda de humidade. É uma barbaridade, com as meças a árvore sempre se consegue proteger melhor”. E lembra o que aconteceu este ano por causa da seca na Serra de Grândola onde secarem centenas de sobreiros adultos deixando os produtores sem rendimento nem alternativas a curto prazo.

No montado António Manuel Rocha não semeia nada, “apenas deitamos algumas sementinhas para os animais e passamos o raça-mato” e mesmo no resto da exploração “seleciono sempre o tipo de máquina por potência e peso: por exemplo no montado só entram equipamentos até três toneladas e 75 cavalos, como um roça-mato cabinado e os semeadores também andam normalmente nos 75 cavalos, podendo ir até aos 100 cavalos nos terrenos mais limpos”.

Alerta ainda para os frequentes roubos de cortiça na região: “há cinco anos o prejuízo dos produtores foi enorme porque além da cortiça ainda estragavam as árvores. Foram presos, mas hoje já voltaram a haver roubos”. No entanto, louva a atuação da GNR da zona e, principalmente, a colaboração com os produtores que hoje estão muito mais atentos ‘a quem passa’ comunicando às autoridades o aparecimento de viaturas estranhas.

Soluções adaptadas

Na exploração António Manuel Rocha tem a ajuda de dois trabalhadores e a experiência de muitos anos levou-o a desenvolver algumas ‘invenções’, como uma caixa pequena “para o transporte dos borregos em segurança, para não serem pisados” e também “um kit de combate a incêndios”.

Este kit, “que já funcionou a sério este verão”, tem um depósito, uma motobomba, mangueiras e agulheta e pode ser montado numa 4×4 ou num trator e ligado à rede ou a poços. Tem ainda uma mala com equipamentos de proteção individuais, óculos e máscara para cinzas.

“Este verão aqui na zona só de uma vez arderam 2.300 hectares”, conta o agricultor, acrescentando que “o kit acompanha sempre a ceifeira, porque acontece por vezes arderem”.

Artigo publicado na edição de março de 2018 da revista VIDA RURAL