Floresta

Uma frente nacional em defesa do Sobreiro e da Cortiça

Uma frente nacional em defesa do Sobreiro e da Cortiça

O futuro do Montado depende de um conjunto de medidas, que passam por juntar todos os agentes: produtores, indústria, investigadores e o Estado, num compromisso que permita travar o declínio, aumentar a produtividade das áreas existentes, adensá-las e plantar novas, também em regiões não tradicionais. É preciso estudar e perceber melhor este ecossistema único, apostar em práticas menos lesivas, como a proteção do solo, e em novas soluções, como a rega.

O declínio do montado tem-se agravado por diversos fatores, com destaque para as alterações climáticas. Uma das alternativas apontadas é a sua deslocação para norte e em altitude, em consequência dos devastadores e trágicos incêndios que afetaram a zona centro do País e em vez das opções mais comuns: eucalipto e pinheiro bravo. Mas os produtores das zonas atuais – Alentejo e Ribatejo – reclamam outras soluções e apoios.

O sobreiro é a ‘Árvore Nacional’ e Portugal é o maior produtor mundial de cortiça, com o montado a ocupar uma área de pouco mais de 736 mil hectares, mas o ‘conhecimento’ que se tem deste ecossistema remonta, principalmente, a meados do século XX. Desde aí, só na última década se voltaram a fazer alguns projetos de investigação, pelo que ainda há poucas ou nenhumas conclusões.

Em resposta a algumas questões da VIDA RURAL, o secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, Miguel Freitas, deixa bem claro que o anúncio de apoios à plantação de sobreiros em todo o território nacional, não implica ‘esquecer’ as atuais zonas produtoras de cortiça, afirmando que “embora o foco esteja atualmente na floresta que arde temos a convicção da necessidade de continuar a apoiar o montado e a fileira da cortiça, numa perspetiva multifuncional” e sublinha: “Sabemos que há uma degradação que é preciso suster na produção de cortiça, tanto do ponto de vista da quantidade como da qualidade. É preciso reforçar a beneficiação e adensamento na área existente e apostar em novas áreas, quer em regiões tradicionais, quer em territórios emergentes à procura de alternativas”.

O governante adianta que “estamos neste momento a fazer a avaliação de um grande número de candidaturas para aproveitamento de regeneração natural e adensamento em áreas de quercíneas num valor global de nove milhões de euros (…). Refira-se que a maioria dos sucessivos avisos referentes às operações florestais do PDR 2020 tem vindo a apoiar áreas de montado. Segundo dados da AG PDR 2020, cerca de 50% do apoio atribuído às candidaturas, já com termo de aceitação assinado, está centrado em algumas zonas do Alentejo, o que nos leva a crer que parte considerável deste montante estará a ser, ou será aplicado em áreas de montado”.

Sobreiro é ‘Árvore nacional’ mas não é prioridade

Todavia, o presidente da União da Floresta Mediterrânica (UNAC) considera que o País “não aposta neste setor. Este Governo tomou posse no fim de 2015: alguém se recorda de uma medida que seja para os montados?” e António Gonçalves Ferreira acrescenta que “a fileira está a trabalhar para melhorar a rentabilidade numa situação de produção em cruzeiro, mas são necessárias políticas públicas que suavizem os custos do elevado período de retorno do investimento nesta espécie. A fileira tem feito seu papel identificando que medidas de política necessitamos. O Estado tem que fazer o seu papel e atualmente há uma postura dentro do Estado, dentro do Ministério da Agricultura e dentro do ICNF que não tem o sobreiro e a cortiça como prioritários”.

Falando da fileira, no final do ano passado o maior operador do setor – a Corticeira Amorim – veio mostrar a sua disponibilidade para fazer parcerias com a produção no sentido de aumentar em cerca de 50 mil hectares a área de montado, para sustentar o previsto aumento de exportações a longo prazo.

Em representação da indústria, o presidente da Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR) confirma à VIDA RURAL que “juntamente com os produtores florestais, nomeadamente através da sua rede associativa, pretendemos reforçar o plano florestal em curso em prol de mais montado de sobro e, consequentemente, mais capacidade de produção de cortiça”. João Rui Ferreira afirma ainda que “com mais 50.000ha, que podem conjugar novos povoamentos de sobreiro e adensamentos das áreas existentes, utilizando novas técnicas de produção e gestão suberícola, podem aumentar a produção de cortiça em 30% face ao cenário atual” e adianta: “Este incremento de produção é importante para responder a uma expetativa do crescimento das exportações, mas não são diretamente correlacionáveis os ritmos de crescimento, pois as exportações decorrem de uma maior variedade de fatores”.

Parcerias precisam-se

Também o secretário de Estado das Florestas e Desenvolvimento Rural apela à colaboração entre toda a fileira: “São muitos os desafios que temos pela frente e só com um forte compromisso entre todos os agentes da fileira será possível enfrentá-los com sucesso. É preciso que a indústria se envolva mais com a produção. Temos na mão um produto extraordinário e um sistema agrário absolutamente fantástico. Temos todos de fazer a parte que cabe a cada um, em torno de uma visão partilhada e uma estratégia de longo prazo”.

João Rui Ferreira, Presidente da Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR)

João Rui Ferreira, Presidente da Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR)

Um apelo que parece ir precisamente ao encontro das intenções da indústria, de acordo com o presidente da APCOR: “A estratégia inclui diferentes frentes de atuação, mas que visam sobretudo aproximar a indústria da produção florestal, aumentar o conhecimento e a disseminação das novas técnicas suberícolas que visem aumentar a produção em áreas de montado atuais, mas também alargar a presença de povoamentos noutras regiões do País”.

Também o presidente da UNAC afirma que “todas as parcerias são bem-vindas e quando são claras e com um objetivo concreto como esta mais devem ser apoiadas”, adiantando que “a preocupação da indústria é também uma preocupação da produção, temos que ser produtivos se queremos que os nossos montados sejam rentáveis, não podemos culpar exclusivamente o preço pela baixa rentabilidade, temos que garantir um padrão de produção adequado”.

A estratégia inclui diferentes frentes de atuação, mas que visam, sobretudo, aproximar a indústria da produção florestal, aumentar o conhecimento e a disseminação das novas técnicas suberícolas que visem aumentar a produção em áreas de montado atuais, mas também alargar a presença de povoamentos noutras regiões do país.”

António Gonçalves Ferreira diz ainda que “as novas áreas, com modelos de produção mais intensivos são importantes e pretendem responder a um hiato que é real numa curva de produção global que se quer com uma tendência de inclinação positiva”.

Um declínio que já não é novo

Enquanto isso, no terreno, os montados de sobro sofreram de novo no verão do ano passado, devido às condições climáticas extremas que tivemos, tendo secado centenas de árvores adultas, principalmente na zona da Serra de Grândola.

Luís Dias, um dos maiores produtores de cortiça na região (com cerca de 500ha de montado, entre a serra e a charneca) salienta que “apesar de fazer um esforço muito grande de maneio, principalmente ao nível da gestão do subcoberto, também fui afetado, porque o problema teve uma dimensão gigantesca”. E as práticas de maneio têm vindo a melhorar cada vez mais: “Tenho o montado dividido por áreas e fazermos o controlo da vegetação espontânea no mínimo de cinco em cinco anos, apenas com corta-matos para sermos menos lesivos ao solo e ao sistema radicular das árvores”.

O produtor explica à VIDA RURAL que este fenómeno já não é de agora, mas que se tem vindo a agravar: “Desde o início da década de 90 que foram identificados um conjunto de problemas no montado nesta zona, que foram definidos como o ‘declínio do montado’. Ao longo do tempo, já houve vários estudos – inclusive um onde o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) era o parceiro técnico, que ficou a menos de metade por falta de meios… – mas ainda não se conseguiu encontrar nada que pudesse minorar o problema e o Estado português nunca levou verdadeiramente a sério este problema. Assim, acabamos por ter aqui uma espécie de incêndio que não se vê, um fogo que vai ardendo e tem consequências enormes”.

Estratégia de longo prazo

Resultante desses estudos há apenas algumas recomendações para uma boa gestão, ao nível da gestão do solo (analisar o solo e equilibrar os componentes, principalmente o fósforo, o potássio e o azoto, aumentar os teores de matéria-orgânica e controlar o subcoberto com corta-matos e não grades de disco), dos descortiçamentos (baixando a sua altura) e das podas. Mas, o produtor frisa que “em floresta não se podem fazer estudos de dois ou três anos, têm de ser de dez ou 20 para haver conclusões”.

Uma boa gestão do montado também é o que recomenda a UNAC. António Gonçalves Ferreira salienta que “o declínio é uma realidade que afeta todos os ciclos biológicos e as quercíneas não são exceção. A sua intensidade pode ser maior ou menor de acordo com os parâmetros que o influenciam e as condições extremas em termos climáticos do ano de 2017 levaram a que nas zonas mais sensíveis, zonas de solos mais delgados ou com sistema de gestão mais agressivos (recorrente controlo de mato por gradagem), a expressão da mortalidade fosse mais evidente”.

Assim, refere que “não há medidas curativas para esta situação” pelo que “o que a UNAC recomenda aos produtores suberícolas é uma estratégia de longo prazo que passa por três pilares fundamentais: conservar o solo, controlar e atuar sobre os parâmetros de fertilidade do solo e proteger a regeneração natural. A micro-heterogenidade local dos montados que carateriza as áreas de aptidão para o sobreiro não permite receitas chave na mão. Com base nesta matriz os técnicos das nossas associações podem fazer esse aconselhamento caso a caso. Esperamos ainda em 2018 reforçar o serviço de aconselhamento aos nossos associados… fazemos parte de uma candidatura conjunta ao PDR apresentada há 16 meses e que teima em não ser aprovada, mas já decidimos que com ou sem aprovação este vai ser um dos nossos projetos de 2018”.

António Gonçalves Ferreira diz ainda que “para além disso, estamos a reforçar muito a transferência de conhecimento para os produtores, de que é exemplo o ciclo de workshops que estamos a organizar e que designamos ‘+conhecimento/ha’, e que visa transferir para os produtores florestais conhecimento técnico e científico”.

Elevados prejuízos

O declínio tem vindo a afetar cada vez mais as zonas de serra, face à charneca, o que causa ainda mais prejuízo aos proprietários porque, como avança Luís Dias, “são duas zonas até na mesma freguesia mas com caraterísticas muito diferentes, uma é bastante montanhosa e com solos à base de xisto, mais pobres e menos profundos e a outra é plana e com solos principalmente arenosos e, por norma, os montados das zonas de serra dão cortiça mais fina, com menos espessura, menos calibre, mas com mais qualidade, menos porosa, mais fechada e indicada para a produção de rolhas de qualidade, de cortiça natural”.

O produtor adianta que sabemos que “este é um problema muitíssimo complexo, com muitas variáveis e por isso não há uma solução simples”, mas não se pode pura e simplesmente ‘fazer de conta’ que o problema não existe e, até agora, o Estado não o tem encarado com seriedade. Um problema que tem sido agravado pelos verões cada vez mais longos, quentes e secos “que temos tido, uma vez que as árvores entram em stress hídrico muito mais cedo, vão desfolhando para reduzir a necessidade de consumo de água, mas ficam muito mais vulneráveis a doenças que possam surgir, seja por fungos ou insetos”.

Rega de sobreiros gera entusiasmo

Miguel Freitas assegura que o Governo está atento: “A situação de declínio dos montados existentes constitui uma enorme preocupação. Há situações em que a densidade dos mesmos tem vindo a reduzir-se de forma considerável, o que tem profundos impactos sobre os serviços ecossistémicos prestados, sobre a disponibilidade de matéria-prima e, sobretudo, sobre a rentabilidade para o produtor florestal”. Por isso, o secretário de Estado garante que “estão a ser testadas novas formas de gestão de povoamentos de sobreiro com rega de instalação melhorada até aos dez anos de idade. Com esta nova forma de gestão, pretende-se atingir um aumento da taxa de sucesso e vitalidade dos povoamentos, uma aceleração da entrada em produção, a melhoria do rendimento dos produtores florestais e a sustentabilidade, a prazo, da fileira industrial de cortiça” e informa que “na recente reprogramação do PDR 2020, no âmbito da Operação 8.1.1 ‘Florestação de terras agrícolas e não agrícolas’, abriu-se a possibilidade de atribuir uma majoração no prémio de manutenção de 120€/ha/ano, durante um período de dez anos, para cobrir despesas inerentes à instalação de rega nos povoamentos florestais”.

Mas Luís Dias, referindo-se ao projeto de rega do sobreiro que o produtor Francisco Almeida Garrett desenvolveu (Ver reportagem na próxima semana) e a possibilidade de o replicar noutras zonas, “considera que pensar que isso se pode aplicar a muitas zonas do País é uma completa utopia. Nestas zonas mais montanhosas pode ser possível em algumas áreas muito particulares e também ainda está por perceber alguns efeitos dessa rega na árvore” e lembra que “a floresta funciona sempre a muito longo prazo. Além de que temos também de analisar os custos e a viabilidade económica”.

CORTIÇA

Por seu lado, o presidente da APCOR, salienta que “o foco da Associação passa por aumentar a produção de matéria-prima. Existem várias vias e eixos de atuação que concorrem para este objetivo e não vamos nesta fase excluir nenhum deles”, adianta todavia: “É verdade que a microirrigação, novo modelo suberícola que utiliza um sistema rega de instalação melhorada para apoio aos primeiros anos de vida dos povoamentos, pelos resultados conhecidos é um dos que nos gera mais entusiasmo. Esta rega será depois retirada de forma equilibrada e o sobreiro entrará no seu ciclo de produção natural. De acordo com os resultados que conhecemos, este modelo vai permitir acelerar de forma significativa o primeiro ciclo de produção, aquilo que vulgarmente se designa por ‘desbóia’ e ainda um aumento significativo da taxa de sobrevivência das árvores, o que vai permitir uma densidade e por conseguinte produção de cortiça muito mais interessante e rentável para o produtor”.

Falta mais conhecimento

Sobre resultados da investigação a decorrer no projeto da Herdade do Conqueiro (Francisco Almeida Garrett), o professor Nuno de Almeida Ribeiro do Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas (ICAAM), da Universidade de Évora, diz-nos que “não temos resultados consolidados que estejamos em condições de partilhar. As nossas parcerias de investigação são de 15 anos para que possamos produzir conhecimento ao ritmo das árvores e sistemas florestais” e acrescenta: “Temos a obrigação contratual de divulgar os resultados consolidados, por isso, quando for oportuno, iremos promover ações de divulgação (primeiro na forma escrita e depois oral)”.

Já o presidente da UNAC defende que “o serviço que o Francisco Almeida Garrett tem prestado ao setor da cortiça é ímpar, a sua dedicação é de décadas. (…) Neste caso concreto da rega, inovou, correu o risco sozinho, e com esta sua iniciativa abriu a porta a que outros se interessassem e dessem o passo em frente. Se há opinion makers na cortiça ele é sem dúvida um deles”. António Gonçalves Ferreira adianta que “há muita gente interessada, alguns que já avançaram, mas é muito importante que se tenha mais conhecimento científico sobre o tema. Estamos a falar de rega de sobreiros ou de sobreiros de regadio… e aqui penso que a grande maioria dos produtores tem ainda essa dúvida por esclarecer”.

Vários estudos e projetos sobre o montado

Tanto o secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural como o presidente da UNAC asseguram à VIDA RURAL que há muitos mais projetos em curso sobre o montado.

“Mais do que estudos, há trabalho em curso. Neste momento, através da Medida 1.0.1 ‘Grupos Operacionais’ do PDR 2020, foram constituídas oito parcerias formadas por entidades públicas e privadas dos setores da investigação e desenvolvimento, da produção florestal, da agropecuária e da transformação, tendo por objetivo estudar os problemas que afetam a produção de cortiça, que é o driver e o garante da sustentabilidade deste precioso sistema agro-silvo-pastoril”, afirma Miguel Freitas. (Ver Caixa)

O governante salienta que “o INIAV tem um inestimável saber acumulado nesta área, estando presente em seis destas oito parcerias, sendo entidade líder em duas delas. Este é o resultado do investimento do Governo na inovação e no conhecimento, envolvendo diretamente os organismos do Estado na pesquisa de soluções que vão ao encontro das necessidades do setor”.

António Gonçalves Ferreira frisa que “a UNAC está muito envolvida e esta é uma das nossas prioridades, ao ponto de em 2018 termos criado uma área específica na nossa estrutura com uma pessoa dedicada em exclusivo” e conta que “damos acompanhamento a vários grupos operacionais ao nível da UNAC e das nossas associadas, pretendemos funcionar como um motivador, o ‘carregador do piano’ que trabalha para que os processos avancem com consistência, ao seu ritmo próprio, conscientes das dificuldades de investigar nesta nossa realidade de ciclos muito longos, mas sempre com foco nos resultados”.

O dirigente diz ainda que “foi este o método que temos utilizado na nossa participação no Centro de Competências do Sobreiro e da Cortiça, tem funcionado muito bem e a maioria dos projetos em curso são ‘filhos’ da Agenda de Investigação que o setor construiu, discutiu e aprovou no fim de 2015. Estamos a falar de um investimento de cerca de 1,5 milhões de euros, que inclui o Nutrisuber, Geosuber, Regasuber, Undercork e Platisor. (Ver Caixa)

Migrar para norte sem esquecer o sul

As alterações climáticas têm levado alguns especialistas – como o professor Filipe Duarte Santos, na recente conferência da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) sobre este tema – a falarem na necessidade de deslocação do montado para norte e em altitude, principalmente depois dos devastadores e trágicos incêndios do ano passado.

Foram constituídas oito parcerias formadas por entidades públicas e privadas dos setores da investigação e desenvolvimento, da produção florestal, da agropecuária e da transformação, tendo por objetivo estudar os problemas que afetam a produção de cortiça, que é o driver e o garante da sustentabilidade deste precioso sistema agrossilvopastoril.”

Sobre esta proposta, o presidente da UNAC refere que “as alterações climáticas são uma realidade, com cenários futuros desenvolvidos que têm um conjunto de pressupostos e de acordo com eles e com o seu impacto, um modelo de resultados e mitigação de consequências” e defende: “Não deixando de olhar para este assunto de forma séria, preocupa-nos muito mais como criar condições de maior resiliência para as atuais localizações do sobreiro, que em termos edáficos são as mais aptas para a espécie. Efetivamente, consideramos que existe ainda muita margem para promover uma gestão suberícola para adaptação às alterações climáticas”, adiantando que “o sobreiro é uma espécie com muita capacidade de resistência e de adaptação à variabilidade climática, aquela que com todos os anos somos confrontados. Quer dois anos mais diferentes que 2017 e 2018? A nossa principal preocupação é aumentar essa resiliência e garantir que os atuais 736.000 ha de sobreiro são uma barreira efetiva à desertificação deste nosso território”.

Também alguns municípios das regiões onde reina o montado, em conjunto com Organizações de Produtores Florestais (OPF), indústria e instituições académicas assinaram recentemente um protocolo para a defesa do montado, cujos contornos ainda não são públicos, mas serão divulgados em breve.

António Gonçalves Ferreira anuncia também que “a UNAC está atualmente envolvida num projeto inovador, que revelo aqui em primeira mão, o ‘Montados ABC’. É uma parceria com o Instituto Superior Técnico (IST), o INIAV e a Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM) que pretende dar a conhecer ainda melhor o contributo ambiental dos montados na (Á)gua, na (B)iodiversidade e no (C)lima” e explica: “Estamos a trabalhar para que os modelos de gestão que asseguram viabilidade económica e social e geram mais-valias ambientais sejam adotados em larga escala”.

A UNAC é igualmente parceira do projeto LIFE ‘Montado & Climate: A need to Adapt’ – em que participa também a equipa do professor Nuno Ribeiro de Almeida do ICAAM – “que pretende apoiar os agricultores por forma a desenvolverem mecanismos de adaptação aos efeitos que as alterações climáticas têm provocado no sul da Península Ibérica, sobretudo nas áreas do montado”, entre outros estudos, projetos e grupos internacionais.

Grupos Operacionais do PDR 2020 na área do Montado

  • Declínio do Montado no Alentejo: Pretende desenvolver medidas inovadoras para a mitigação do declínio do montado no Alentejo, nomeadamente para o controlo de Phytophthora, através da melhoria da fertilidade do solo, da conservação da paisagem e da sustentabilidade da fileira do Porco Alentejano.
  • Oak®eGeneration: Pretende promover a regeneração natural de sobreiro e de azinheira na condução/gestão dos montados, através da implementação de esquemas de set-aside perfeitamente enquadrados na gestão agroflorestal do montado, uma vez que se constata que a ausência de áreas de regeneração natural é a principal ameaça à persistência e à sustentabilidade económica e ecológica dos montados de sobro e de azinho no sul de Portugal.
  • NUTRISUBER – Nutrição e Fertilização do Montado de Sobro: Pretende promover as ações de experimentação, demonstração e disseminação do conhecimento gerado necessárias ao estabelecimento de recomendações de fertilização racional para o montado de sobro, tendo em consideração o estado de fertilidade dos solos e de nutrição das árvores.
  • GEO SUBER – Monitorização do Montado: Pretende desenvolver uma plataforma para monitorização da vitalidade do montado de sobro disponibilizando informação em tempo útil para uma intervenção preventiva, incorporando vertentes de apoio à operacionalização da gestão florestal.
  • UnderCork – Gestão Integrada da Cobrilha da Cortiça: Pretende desenvolver estratégias de gestão integrada da cobrilha da cortiça, agente biótico que afeta a produção de cortiça, visando a implementação de metodologias e tecnologias inovadoras de diagnóstico, monitorização e controlo.
  • Rega de Precisão de Sobreiros em Modo de Produção Intensiva de Cortiça -Pretende avaliar as respostas dos sobreiros jovens (entre os três e os dez anos, nunca descortiçados e entre os 13 e 17 anos em situação de pré e pós desbóia) e adultos (30 e 50 anos de idades, descortiçados) a diferentes tratamentos de rega (de superfície e em profundidade) com base na medição suas taxas de crescimento e na produção (calibre) e qualidade da cortiça produzida.
  • PLATISOR – Métodos para a Gestão do Montado de Sobro com Ataques de Plátipo da Região do Sor: Pretende transpor os constrangimentos causados pelos ataques do plátipo diminuindo o seu impacte e a sua expansão nos montados de sobro da região do Sor, conjugando novas formas de gestão dos povoamentos com novos meios de luta e aperfeiçoamento dos existentes.
  • ECOMONTADO XXI – A Agroecologia aplicada ao design do Montado Novo –Pretende implementar um novo processo ou prática de gestão florestal, com vista à recuperação do ecossistema montado aplicando conceitos da Permacultura e da Agroecologia, conceitos que surgem como uma solução para o problema generalizado de perca de solo e ineficiente aproveitamento da água verificado nas áreas de montado.

 

Exportações de cortiça com níveis recorde em 2017

O setor da cortiça voltou a bater todos os recordes em 2017, com 986,3 milhões de euros em exportações, o que representa um crescimento de 5,4% face ao ano anterior, que já tinha sido de valores recorde, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Em relação ao volume de exportações, 2017 registou também uma subida na ordem dos 7%, atingindo 197 mil toneladas. O saldo da balança comercial é assim extremamente positivo, sendo que a diferença é de 815,6 milhões euros, com as importações a registarem valores de 170 milhões de euros (mais 2,1%). Estes dados fazem com que a taxa de cobertura seja de 578%.

A indústria da cortiça exporta mais de 90% do que produz, para 138 países, sendo que a rolha se mantém como produto premium, com um peso de 72% no total das exportações, face aos materiais de construção (25%) e outros produtos (3%). As rolhas representaram, em valor, 710,7 milhões de euros, sendo que os materiais de construção corresponderam a 246,7 milhões de euros. (Ver Gráfico)

De realçar que a exportação de rolhas de cortiça cresceu 5,29% face a 2016, enquanto os materiais de construção e decoração registaram um aumento na ordem dos 4,34%.

Dentro do segmento das rolhas de cortiça, as rolhas naturais cresceram 8,3%, as rolhas de espumante 3,6% e o outro tipo de rolhas 21%.

Relativamente aos países importadores de produtos de cortiça, a França continua em primeiro lugar ao assumir 18,9% do total exportado, equivalente a 186,3 milhões de euros. Os EUA ocupam o segundo lugar com 17,1% e 168,6 milhões de euros.

Ao nível das importações, Portugal continua a importar sobretudo cortiça natural, em bruto ou simplesmente preparada, representando 62,7% e atingindo 107 milhões de euros, com Espanha a manter a liderança (78% e 132 milhões de euros).