Azeite

Qualidade melhorou de forma inegável mas “falta organização na venda”

olival Trás-os-Montes - Vida Rural

Nas últimas duas décadas os azeites de Trás-os-Montes e Alto Douro sofreram uma revolução que se focou principalmente na antecipação da colheita e na extração a frio e no próprio dia. Estas e outras novas práticas levaram a uma melhoria clara da qualidade e a região começou a ganhar prémios e a ser conhecida em Portugal e lá fora. Mas dirigentes e produtores reconhecem que há ainda muito trabalho a fazer ao nível da comercialização e promoção.

Em Trás-os-Montes e Alto Douro (TOAD) sempre houve casas que apostaram na qualidade, como a Quinta do Romeu, mas a mudança no sentido de produzir azeites de qualidade na região começou em meados da década de 90 do século passado, com alguns pequenos produtores, de que é ex-libris a CARM, mas com maior incidência no início deste século, com a Cooperativa de Olivicultores de Valpaços (COV) a desempenhar um importante papel.

Hoje, a qualidade dos azeites de TOAD é inegável e tanto dirigentes de associações como produtores são unânimes em destacar as razões principais para esta melhoria: a antecipação da colheita e a modernização dos lagares, que permitiu a extração do azeite no próprio dia da apanha e a baixas temperaturas.

Francisco Pavão, presidente da Associação dos Produtores em Proteção Integrada de Trás-os-Montes e Alto Douro (APPITAD), considera que a mudança nos azeites da região se deveu “a uma conjugação de várias práticas, nomeadamente a antecipação da colheita, fortemente motivada pelos pagamentos diferenciados, e alteração dos lagares nos anos 90, com equipamentos de ponta, o que, aliás, aconteceu em todo o País. O também consultor e produtor de azeite salienta que, ao contrário de outras regiões, a mudança teve lugar mas “mantivemos as nossas variedades tradicionais de azeitona: Verdeal Transmontana, Cobrançosa e Madural”.

Sobre esta revolução, António Branco, presidente da Associação dos Olivicultores de Trás-os-Montes e Alto Douro (AOTAD), salienta que “temos de separar a produção, transformação e comercialização”, adiantando que “no olival registaram-se grandes mudanças, com práticas culturais que melhoraram a produtividade média por hectare e a qualidade da azeitona, mas na transformação, as alterações foram drásticas, com a modernização dos lagares, levando a uma melhoria considerável do azeite e da capa cidade instalada”.

“No olival registaram-se grandes mudanças […], mas na transformação as alterações foram drásticas, levando a uma melhoria considerável do azeite e da capacidade instalada”, António Branco, AOTAD

O igualmente presidente da Câmara Municipal de Mirandela frisa, todavia, que ao nível da comercialização a evolução foi muito mais reduzida: “há mais produtores embaladores, mas a região ainda ‘exporta’ muito azeite a granel para o resto do País e para o estrangeiro, com muito pouca valorização. O azeite embalado deverá representar apenas cerca de 10% da produção” e só a Cooperativa de Olivicultores de Valpaços representa cerca de 15% da produção da região. Do azeite embalado o que tem Denominação de Origem Protegida Trás-os-Montes é ainda pouco significativo, cerca de 30 a 40%, lamenta o presidente da AOTAD, que é a entidade gestora da DOP.

Numa região que tem cerca de 37 mil olivicultores a COV tem 2.000 associados e produz cerca de 1,7 milhões de litros de azeite, tudo extra virgem. Mas nem sempre foi assim.

COV levou muitos produtores a mudar

Manuel Paulo Ribeiro, presidente da Cooperativa, conta à OLEAVITIS que “a mudança não foi fácil, até início do século XX as pessoas estavam habituadas a começar a apanhar a azeitona mais ou menos uma semana antes do Natal, a azeitona estava madura demais e às vezes até podre, ficava dias seguidos à espera para ser entregue e depois moída e o azeite ficava a saber a tulha e, por vezes a podre. E não eram só os nossos associados, era assim um pouco por toda a região. Com a entrada na CEE as exigências mudaram, o mercado era livre e começou a ser difícil vender o azeite, por isso no final da década de 90 começámos a pensar que as coisas tinham de mudar”.

Pensaram e fizeram: viajaram para Itália e Espanha para ver as melhores práticas e equipamentos e em 2001 inauguravam-se as novas instalações da cooperativa, com os equipamentos que vinham a ser instalados desde 1999. “Muitos pensaram que éramos loucos porque o equipamento tinha capacidade moer 200.000kg de azeitona/dia, hoje a capacidade é de 600.000kg/azeitona/dia”, diz Manuel Paulo Ribeiro.

Mas as mudanças não se ficaram por aí, “era preciso convencer as pessoas que tinham de começar a apanhar a azeitona muito mais cedo para que a qualidade do azeite fosse melhor, para isso, decidimos começar a pagar a azeitona em três escalões premiando quem apanhasse mais cedo, depois ao preço normal para os do meio e penalizando os que deixassem para o fim”, explica o presidente da COV, “mais uma vez, houve quem nos chamasse loucos porque estávamos a apanhar a azeitona verde. Mas o resultado provou que tínhamos razão porque a qualidade do azeite é incomparavelmente melhor e hoje todos apanham a azeitona cedo”.

A COV embala azeite com as marcas Rosmaninho e Vila Nova (exclusivo Sonae).

Produtores têm de se associar

Especificamente sobre a produção de azeite no Douro, o presidente da AOTAD lembra que “o Douro Superior sempre teve tradição, e em todo o Douro, como complemento do vinho. Mas também aí se modernizaram as práticas e hoje o azeite é encarado como um produto à parte”. A região considera que o seu azeite tem especificidades próprias que até quer agora ter uma Denominação de Origem Protegida para o seu azeite. (Ver Caixa no final)

“O azeite precisa de ganhar notoriedade junto dos consumidores nacionais, para quem hoje é apenas ‘um condimento’, precisamos de percorrer o caminho que o vinho fez”, Francisco Pavão, APPITAD

Voltando à questão do embalamento e comercialização do azeite da região, embora reconhecendo que “temos muito mais marcas e há novos atores no terreno, principalmente jovens produtores, com conceitos que incluem desde logo um bom marketing”, António Branco defende que “ainda não é o ideal porque falta organização na venda. A comercialização devia estar alavancada na colaboração, pois temos muito pequenos produtores que não podem ir para os grandes mercados internacionais sozinhos, é preciso escala. E este é o grande desafio da fileira a nível regional”.

Por seu lado, Francisco Pavão informa que já está em desenvolvimento um projeto nesta área, que será apresentado em breve e vai mais longe ao afirmar que, ao nível da promoção “o problema não é só da região mas de todo o setor nacional do azeite”. O presidente da APPITAD adianta à OLEAVITIS que “já existe uma Associação Interprofissional da Fileira Oleícola, mas que ainda está em fase inicial”, onde está representada a Casa do Azeite, a CAP e a Confagri. Mas enquanto no caso do vinho a taxa para fiscal veio ajudar em muito a sua promoção, no azeite “ainda precisamos de encontrar mecanismos de financiamento”.

Indo ao encontro do que alguns produtores também referiram, Francisco Pavão admite que “o azeite precisa de ganhar notoriedade junto dos consumidores nacionais para quem hoje é apenas ‘um condimento’, precisamos de percorrer o caminho que o vinho fez” e lembra: “a proibição dos galheteiros nos restaurantes foi em 2005 e ainda não se conseguiu aplicar. É importante que o consumidor perceba que uma garrafa de azeite de determinada marca na mesa é uma garantia de qualidade”. O consultor refere ainda neste âmbito o projeto de uma carta de azeites para os restaurantes, que está em desenvolvimento. “Uma carta que não pode ser só uma lista tem de ser também didática, ter algumas notas sensoriais e recomendações de harmonização – este azeite é bom para uma salada ou uma sobremesa – reforçando no consumidor o conceito de que o azeite é um produto diferenciado”.

Romeu e CARM foram pioneiros

Além das associações, especialistas e da maior cooperativa não podíamos deixar também de falar com alguns produtores que, de uma forma ou de outra, ajudaram a mudar a qualidade e imagem dos azeites da região.

Em Trás-os-Montes, a Quinta do Romeu é incontornável mas também a Casa de Santo Amaro tem ajudado à mudança, principalmente com a consultoria e prestação de serviços a outros produtores da região e do Douro, como é o caso de dois com quem também falámos: a Quinta do Crasto e a Symington. E falar em azeite de qualidade na região é impossível sem referir a CARM.

O gerente da Quinta do Romeu, explica que “nós temos lagar desde o tempo do meu trisavô e sempre tivemos um grau de exigência muito elevado, apanhando cedo e extraindo logo a seguir, mas a tradição na região não era assim”. João Pedro Menéres assegura que “a qualidade média dos azeites da região hoje é incomparável face ao que havia há 20, 15 ou mesmo dez anos atrás” e, para isso, “contribuiu muito a existência de lagares modernos e que prestam serviços a outros, como o da Casa de Santo Amaro”.

O responsável diz ainda que “a marca de azeite Quinta do Romeu está entre as cinco mais antigas do País. O nosso azeite é proveniente de 125 hectares de olival tradicional biológico de sequeiro de variedades típicas transmontanas: Cobrançosa, Verdeal Transmontana e Madural”. João Pedro Menéres conta que a maioria do azeite é vendido em Portugal “a clientes já muito antigos” mas também exporta para o centro e norte da Europa, o Japão, Hong Kong e para o Brasil.

Já sobre a Casa de Santo Amaro falámos também com o consultor Francisco Pavão, sócio da empresa a meias com o irmão, que não deixa de frisar que o irmão é que gere a empresa, referindo que, pelo seu lado, está mais dedicado à prestação de serviços aos outros produtores. Mesmo assim, explica-nos que “temos três áreas de trabalho: a produção, extração e embalamento dos azeites da família, provenientes de 140 hectares de olival, a assistência técnica a um conjunto de produtores a quem fazemos depois também a extração e embalamento e o embalamento de private label para algumas marcas”. A Casa de Santo Amaro exporta já para alguns países mas “estamos a tentar criar sinergias com outros produtores para aumentar escala e reduzir custos de promoção e comercialização”.

“Estamos a tentar criar sinergias com outros produtores para aumentar a escala e reduzir custos de promoção e comercialização”, Francisco Pavão, Casa de Santo Amaro

Falando agora da Casa Agrícola Roboredo Madeira (CARM), o administrador Filipe Roboredo Madeira explica à OLEAVITIS que “toda a produção é biológica, desde 1994, porque temos um ‘biológico natural’ na região, o Vale de Almendra, que é muito seco e com tendência a muito poucas doenças”. Conta-nos que o pai se retirou da profissão e decidiu dedicar-se à quinta, sendo que até aí vendiam as uvas à Taylor’s e as azeitonas à cooperativa, “e quisemos fazer logo tudo bem”. O lagar foi equipado com os mais modernos equipamentos, de tal forma “que ninguém sabia trabalhar com aquilo, fui eu que o pus a trabalhar a primeira vez, recebendo indicações pelo telefone da empresa dos equipamentos”, diz Filipe Madeira sorrindo. Mas a verdade é que acabou por se apaixonar pelo mundo do azeite e “hoje os nossos lotes ainda são todos feitos por mim e dois amigos italianos, procurando sempre o equilíbrio entre a fruta, o amargo e o picante”.

O administrador da CARM reconhece que “o mundo dos azeites mudou muito, agora temos azeites bons em Portugal e em Trás-os-Montes temos de conseguir uma diferenciação pela qualidade”. A CARM vendia 99% do seu azeite lá fora mas em 2016 o mercado nacional aumentou para cerca de 30%, vendendo para o El Corte Inglés (ECI) e o Continente. “O primeiro mercado é o Japão, depois o Canadá e os Estados Unidos”. Os azeites da CARM são provenientes de cerca de 220 hectares de olival tradicional, exceto 30 hectares de semi-intensivo plantado recentemente, todos de variedades locais: Negrinha de Freixo, Verdeal Transmontana e Cobrançosa.

Azeite já é produto à parte no Douro

No Douro, falámos com o administrador da Quinta do Crasto que nos explicou que “tradicionalmente as nossas azeitonas eram colhidas para fazer azeite para consumo próprio” mas, conta Tomás Roquette, mas “quando comecei na empresa, em 1995, o olival não era tratado e estava com infestantes e quase inacessível. Assim, no final da década de 90 tomámos a decisão de que estas mais de 2.500 árvores faziam parte do património da quinta e tinham de ser recuperadas” e adianta: “pedimos a ajuda do Francisco Pavão e seguindo as suas indicações começámos a tratar as oliveiras, a apanhar a azeitona muito mais cedo e a varejar com os devidos cuidados. Temos menor rendimento mas muito melhor qualidade”.

Hoje o Crasto já tem dois azeites provenientes de perto de 8.000 árvores (Quinta do Crasto e Quinta da Cabreira) de variedades regionais e Tomás Roquette assegura que “o projeto dos azeites tem corrido muito bem porque a procura tem sido sempre maior do que a oferta”. A empresa produz cerca de 50.000 garrafas de 0,50lt, que vende em Portugal, incluindo ECI e Continente, e exporta para 12 dos 50 países onde vende o seu vinho, sendo o Brasil o maior mercado lá fora.

Outro produtor de vinho que se rendeu também ao azeite foi a Symington Family Estates. O grupo tem cerca de 80 hectares de olival tradicional nas Quintas do Ataíde e Carrascal (contíguas), sendo 73 hectares de agricultura biológica e mais 30 na Quinta dos Malvedos, da Graham’s, “sendo grande parte também biológico”, afirma o administrador José Álvares Ribeiro, adiantando que “a base da nossa produção é o vinho mas o azeite também tem potencial. Quisemos aproveitar o que há aqui e estamos muito satisfeitos com o resultado”.

A Syminton produz azeite com as marcas Quinta do Ataíde (cerca de 6.000 garrafas em 2016, já com Carrascal) e Quinta dos Malvedos (o primeiro lançamento de 2.500 garrafas em 2015) em garrafas de 0,50lt. As cultivares são todas regionais: Cobrançosa, Verdeal Transmontana, Negrinha de Freixo e Redondal (Ataíde e Carrascal) e Cobrançosa e Verdeal Transmontana (Malvedos).

José Álvares Ribeiro conta que “inicialmente começámos só pelo mercado nacional e a quantidade é pouca, bem como o rendimento, uma árvore dá para quatro ou cinco garrafas”.

Autarquias, olivicultores e associações do setor já deram o primeiro passo para a criação de uma Denominação de Origem Protegida (DOP) ou Indicação Geográfica Protegida (IGP) para o azeite produzido na região do Douro, numa reunião a 20 de fevereiro, em Tabuaço.

O presidente da autarquia, mentor do encontro, explica à OLEAVITIS que “há muito que se vinha a falar desta ambição que consideramos ser um passo fundamental para a promoção e valorização dos produtos endógenos do Douro, neste caso do azeite”. Carlos Gonçalves adianta que “a realidade é que conseguimos agora juntar à mesma mesa autarquias, associações, cooperativas e instituições de ensino”.

Da reunião saiu uma comissão instaladora “com representantes de todos os setores para perceber qual o modelo legal que teremos de criar, bem como preparar o caderno de encargos com as caraterísticas específicas dos nossos azeites e o que precisa de ser feito no sistema produtivo para esta certificação, para que depois possa ser apresentado às autoridades competentes”.