Vinha e Vinho

O último bastardinho antes da ressurreição

O último bastardinho antes da ressurreição

A firma José Maria da Fonseca lançou o Bastardinho de Azeitão 40 Anos, o “canto do cisne”. Outrora famoso em Lisboa, o chamado Vinho do Lavradio está a conhecer algum interesse por parte de vitivinicultores da Península de Setúbal.

A casta trousseau, depois de extinta na Península de Setúbal, está a conhecer novo interesse. A produção obriga a estágio prolongado em madeira e é um vinho de nicho e de preço elevado. Há novas vinhas, mas delas ainda só surgiu um vinho. Ao mercado chegou agora um com 40 anos, da firma José Maria da Fonseca.

Até recentemente, a casta bastardo contava apenas com meio hectare na Península de Setúbal, plantada em 2005 pela José Maria da Fonseca, cuja primeira vindima foi a de 2008. Esta empresa foi a última casa a produzir este licoroso, sendo abastecida com uvas compradas numa propriedade que não lhe pertencia.

A última vindima foi a de 1983. O arranque dessa vinha deu lugar a empreendimentos imobiliários urbanos e ditou o fim de um ciclo. Todavia, o sucesso comercial registado pelas garrafas, com 30 anos, colocadas à venda despertou o interesse em recuperar este vinho.

Atualmente há sete produtores com vinhas de casta trousseau, que totalizam seis hectares. A única firma a comercializar vinho, das uvas destas novas plantações, é a Casa Agrícola Horácio Simões, com a colheita de 2010.

Domingos Soares Franco, enólogo e vice-presidente da José Maria da Fonseca, revela que a trousseau é uma casta de produtividade baixa e que, em termos de trabalho agrícola, não obriga a nenhum requerimento específico. Quanto ao despertar do interesse doutros produtores, o enólogo mostra-se confiante e interessado: “venham eles”!

Henrique Soares, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), referiu à Vida Rural que as vinhas de trousseau, actualmente plantadas, estão localizadas dentro dos limites das duas denominações de origem controlada (DOC) – Setúbal e Palmela, estabelecidas nos Concelhos de Montijo, Palmela, Setúbal e da Freguesia do Castelo, em Sesimbra.

O dirigente da CVRPS explica que a possibilidade de certificação existe desde há 15 anos. Questionado, Henrique Soares adiantou que não está prevista uma nova DOC, visto existir um número diminuto de produtores, com área reduzida e sem que tenha havido ainda qualquer manifestação de vontade em que seja estabelecida. “Não vale a pena pôr a carroça à frente dos bois. Sempre que se põe acaba por dar mau resultado”.

As vinhas do antigo Vinho do Lavradio situavam-se em toda a Península de Setúbal, indo até à Costa da Caparica. Assim, todos os vinhos, que venham a surgir, serão classificados como Licoroso Palmela ou Licoroso Península de Setúbal, caso venha a surgir algum proveniente de vinhas exteriores ao território exterior a estas duas DOC. O presidente da CVRPS coloca o ressurgimento deste vinho histórico ligado ao rendimento que os produtores possam vir a colher. Adianta que alcançar o padrão dos néctares que fizeram história só será possível dentro de 20 ou 30 anos.

Domingos Soares Franco refere os bastardinhos começaram com 20 anos de estágio em madeira, depois 25 e, mais tarde, com o envelhecimento das bases, para os 30 anos. Uma vez que não foi possível manter o perfil, esta empresa optou por engarrafar com 40 anos.

Embora ostente quatro décadas no rótulo, este vinho da José Maria da Fonseca é um lote, em que o vinho mais recente tem 40 anos e o mais antigo 80 anos.

A produção do Bastardinho de Azeitão 40 anos limita-se a 2.300 litros, engarrafados em garrafas de meio litro. O preço de venda ao público recomendado é de 250 euros. O enólogo salienta que se trata do “canto do cisne”.

De acordo com Domingos Soares Franco, a fermentação, dos bastardinhos da casa, era parada com a adição de aguardente vínica e tinha uma maceração pelicular de cinco meses, passando a estagiar em cascos de madeira usada. Ou seja, um processo idêntico ao Moscatel de Setúbal (moscatel de Alexandria).

Domingos Soares Franco salienta que a decisão de plantar a bastardo – diferente da homónima do Douro, que é autóctone – se deveu à preocupação em preservar a casta em Portugal. Contudo, não está previsto nenhum aumento de área.

Quanto a uma data para os novos bastardos da José Maria da Fonseca, Domingos Soares Franco adianta que é assunto que não o preocupa e que já não deverá ser ele a ter de tratar da questão, mas alguém da geração seguinte. O horizonte da empresa são os 30 anos. “As vinhas ainda têm de envelhecer um bocadinho e o vinho também tem de envelhecer”.

Todavia, foi enviado um casco, de 600 litros, referente ao ano de 2011, no Navio Escola Sagres, da Marinha, que zarpou de Lisboa a 27 de Abril, rumo a África e ao Brasil. Continuando uma parceria com a Armada, esta empresa de Azeitão pretende avaliar a evolução do vinho após duas passagens pelo Paralelo do Equador.

A nova vinha da José Maria da Fonseca é regada e encontra-se nos solos arenosos da Herdade das Faias, no Montijo, a cerca de 55 quilómetros da Costa da Caparica. Apesar de a vinha que, até 1983 abastecia a empresa, estar em solo argiloso, o enólogo refere que as plantas se estão a dar boas indicações. “A casta está a portar-se bem. As características do velho Bastardinho (tirando o envelhecimento) estão bem marcadas no vinho proveniente desta vinha nova”.