Opinião

“Vinho de Portugal”: um conceito que exige cultivares com características morfofuncionais dirigidas para a qualidade

mosto - Vida Rural

Portugal possui um polo genético de castas de videira autóctones únicas no mundo. Com as grandes alterações verificadas na viticultura Portuguesa nos anos 80 e 90, entre as quais se incluiu o processo de seleção de castas, a imagem do vinho português melhorou significativamente, chamando a atenção a nível internacional, ao ser capaz de competir em qualidade com os vinhos de outros novos países produtores, que tinham como base as castas Francesas. Por se tratar de um país com produção limitada e ainda muito fragmentado em regiões, tipos de vinho e castas, o nosso vinho de mesa passou a ser um produto de nicho, no setor de mercado especializado na qualidade (apoiado pelo “irmão forte”: o vinho do Porto). Para além disso, as castas portuguesas são cada vez mais reconhecidas como as de melhor aptidão ao clima quente.

O início deste sucesso, que remonta como referido à década de 80, resultou do empenho de pessoas que, na altura, foram capazes de compreender que os grandes objetivos de um programa de seleção deveriam ser; o aumento da produtividade, a manutenção da tipicidade e a garantia de qualidade do material vegetativo. Com a produção média da vinha a rondar então os 1.500Kg/ha, o objetivo principal da seleção tinha de ser a obtenção de clones capazes de tornar mais produtivas, as castas nobres autóctones, dando-lhes condições para substituírem as castas até então utilizadas para rentabilizar a destilação. Foi este trabalho que a Viveiros Plansel desenvolveu, em colaboração com a Universidade de Évora e o INIA (dep. Fitipatologia). Paralelamente, iniciou-se também aquele que é talvez o mais complexo sistema de seleção clonal da Europa, baseado em sistemas genética quantitativa e de populações, onde se procura obter o máximo proveito genético associado a uma estratégia de conservação da variabilidade intravarietal. Este sistema começou a ser desenvolvido por entidades públicas, EAN e ISA.

Por um, ou por outro sistema, com grande sucesso, todas as castas de referência e muitas castas regionais, foram admitidas à certificação. Com a disponibilização de materiais de propagação certificados, melhorou significativamente o estado sanitário do material vegetativo e aumentou drasticamente a produtividade das castas nacionais de referência.

No entanto, desde 2014, em especial no Sul do país, tem-se verificado um aumento da utilização de castas francesas em novas plantações, em algumas regiões, estas castas representam 50%, ou mesmo mais, das novas plantações realizadas nos últimos anos.

A que se deveu esta alteração de paradigma? As castas nacionais deixaram de ter interesse?

Por um lado a vinha começou a poder ser regada e deste modo o vigor e a produtividade das plantas aumento significativamente, em algumas castas mesmo além do potencial enológico das mesmas. Por outro lado, acabou a garantia de escoamento por destilação (hoje a procura de castas muito produtivas mas sem qualidade enológica é quase inexistente). Por fim, o decréscimo do consumo nacional de vinho e a consequente viragem para a exportação implicou uma cada vez maior procura de vinho de qualidade.

Acresce ainda que, tudo isto de passa numa altura em que foram cortadas as linhas de financiamento ao melhoramento da videira. Os apoios à viticultura no início do novo século limitaram-se à ‘manutenção da biodiversidade e à ‘proteção integrada’. Por falta de um sistema que permitisse aos obtentores privados tirar proveito económico do trabalho desenvolvido (royalties), não houve continuidade no trabalho de seleção iniciado na década de 80, que pudesse agora dar resposta à mudança do mercado.

A seleção tendo como objetivo a maximização da produção passou os seus limites, o novo desafio vitícola é ter clones adaptados às exigências do mercado e este aposta cada vez mais na qualidade e menos na quantidade.

O desafio do futuro será o de conseguir selecionar dentro da biodiversidade preservada, os biótipos de maior valor enológico. O interesse agronómico de alguns biótipos resulta de mutações ocorridas aleatoriamente ao longo dos anos e, a sua seleção, não segue regras de genética de populações nem de genética quantitativa. Sendo a videira propagada vegetativamente o importante é reconhecer o interesse de uma mutação, verificar a sua estabilidade e clonar a planta que a possui. Este é o novo objetivo da seleção clonal, conseguir clones com características morfofuncionais específicas, capazes de responder aos critérios enológicos desejados. Já não se trata, como aconteceu nos anos 80 e 90 de selecionar os melhores entre iguais, trata-se se selecionar os diferentes entre iguais, e é aqui que o objetivo de base se afasta definitivamente da conservação da biodiversidade.

Estas atividades são agora opostas, no sentido dialético de tese e antítese, a síntese, resultará do reconhecimento público da necessidade de promoção de ambas, como igualmente importantes e da troca permanente de informação entre si.

O viticultor espera uma resposta concreta aos problemas existentes:

A seleção de castas não poder ser estável nem fixamente orientada para o passado. O mercado exige uma perpétua melhoria qualitativa e económica do vinho e, para responder a essa exigência, é fundamental manter continuamente uma atividade de seleção dirigida, recorrendo à prospeção em vinhas velhas (onde a probabilidade de aparecimento é mutações é maior), que permita encontrar a variabilidade desejadas em cada momento. Para isso as coleções de preservação da variabilidade intravarietal, também podem dar um forte contributo. Trata-se de um processo contínuo que não pode ser condicionado por agendas políticas nem vicissitudes económicas. Processos de seleção visando identificar características especificas de interesse, como os que já se fizeram na Alemanha, com as castas ‘Riesling’ ou ‘Spätburgunder’ (‘Pinot noir’), demoraram décadas até obter resultados.

Consciente desta problemática e compreendendo o descontentamento dos viticultores relativamente às características do material de propagação disponível em algumas castas, algumas que num passado recente foram altamente reconhecidas pela sua qualidade, a Viveiros Plansel Lda. procura encontrar parceiros e financiamento que lhe permitam retomar o seu trabalho de seleção da videira, agora virado para a seleção de fenótipos mais adaptados à viticultura mecanizada, que se generalizou, e focada em critérios de seleção dirigidos à qualidade do produto final, o vinho.

Neste sentido a PLANSEL promoveu o “Simpósio sustentabilidade da vinha” 2015 (na Academia das Ciências de Lisboa). Com esse objetivo, em sequência, foi proposta a criação de um Grupo Operacional, no sentido de dar continuidade às ideias iniciais do PDR2020 e que tem como objetivo resolver em conjunto, os problemas com a seleção das castas de referência. Propõem-se integrar esse Grupo Operacional a Viveiros PLANSEL, as associações Viticert, Ateva, Viticartaxo, AVA, a CVR Algarve, assim como o INIAV e a Universidade de Évora.

Simpósio sustentabilidade da vinha 2015    .

(PLANSEL/ Academia das Ciências de Lisboa)

Mesmo sem que até ao momento o Grupo tenha obtido aprovação e consequente financiamento, as instituições referidas empenharam-se por autofinanciamento das atividades e por isso já foi iniciada a prospeção e seleção, na espectativa de encontrar as variações desejadas.

A PLANSEL instalou nos últimos 3 anos (autofinanciamento):

3 Campos m. inicial/ para m. base, in situ e ex situ, (45 clones homologados);

2 Campos de coleções (Trincadeira, Fernão Pires, Alicante Bouschet 200 cultivares, Aragonês 50 candidatos Espanha);

12 Campos de estudo do valor cultural (regras DL 194/2006 VAU).

Os principais problemas estavam identificados e o trabalho entretanto desenvolvido já apresenta os primeiros resultados:

Aragonez: Tem problemas de cor e excesso de produção devido à seleção dos anos 80 orientada para o máximo proveito quantitativo. (Ver tabela I)

A casta, mundialmente mais plantada, tem o seu centro de origem em Espanha, onde é conhecida por vários nomes, ‘Tempranillo’, ‘Sensibel’, entre outros. Em colaboração com o instituto de investigação vitivinícola em Logronho ICVV (Rioja), onde existe uma coleção com 700 entradas oriunda de plantas velhas e onde tivemos livre acesso ao material e às tabelas de 3 anos de prospeção, foram selecionados, multiplicados e instalados em Montemor-o-Novo, mais de 50 fenótipos, com cacho aberto mas mais curto, bago mais pequeno e em alguns casos apenas com uma grainha. Em Espanha, para além do ICVV, também o ITALCYL de Valladolid (Castilla Leon) já avançou com a seleção morfofuncional e a admissão de clones de caraterísticas distintas e a respetiva documentação e o IMIDRA de Madrid (Castilla La Mancha), selecionou e conserva ex situ uma centena de candidatos a clones.

Trincadeira: Tem excesso de produção, grande número de bagos rebentados (película sensível) e consequente degradação volátil e aromática do vinho.

Até ao momento a seleção foi feita na região do Ribatejo (Cartaxo até Almeirim). Devido a mistura varietal, tratou-se de um trabalho extremamente complexo. No Alentejo, devido a problemas técnicos a seleção está atrasada um ano. Os fenótipos selecionados apresentam forte infeção com o Vírus GVLR III, pelo que, o material está em quarentena e, no caso de se encontrarem candidatos com características morfofuncionais de interesse, os mesmos serão submetidos a limpeza sanitária por cultura de meristemas.

Fernão Pires: É a casta branca mais plantada em Portugal. Vigorosa com um porte retumbante o que dificulta a mecanização.

Num campo do Presidente da Cooperativa de Benfica do Ribatejo foi encontrado um grande volume de plantas do fenótipo “do Beco”, de porte ereto e vigor médio, juntamente com plantas do fenótipo tradicional. Foi possível selecionar alguns destes fenótipos de porte ereto isentos de vírus.

Alicante Bouschet. Casta obtida há 150 anos em França, comprovou grande uma aptidão enológica, de tal forma que já representa uma parte importante da tipicidade do vinho do Alentejo. Em França é conhecida como uma casta sem potencial enológico, mas na Península Ibérica consegue atingir valores de maturação polifenólica excecionais. Não existem clones desta casta em Portugal; os clones de França não correspondem ao vinho do Alentejo.

Foram selecionados no alto Alentejo centenas de fenótipos desta casta em vinhas plantadas antes da existência de seleção clonal em França. Os candidatos isentos de vírus foram plantados num campo de seleção e os infetados foram plantados em quarentena e todos se encontram em observação.

Os antigos vinhos da casta (introduzidas com a migração inglesa no início do último século) sempre tiveram alta qualidade; esperamos que a nova seleção focada em características morfofuncionais destas plantas, algumas mesmas centenárias, permita recuperar essa qualidade.

Para além destas castas, foram iniciadas, fora do grupo operacional, novas seleções JBP com outras castas como ‘Códega de Larinho’, ‘Rabigato’, ‘Tinto Cão’, ‘Baga’, ‘Vinhão’, ‘Loureiro’, ‘Avesso’, ‘Azal’, ‘Encruzado’.

Pelo estudo de variações morfo- funcionais no fenotypo de castas existam diferentes typos de modelos de robots. Esquerda: Julius Kühn grapevine Institute Alemanha), direita: Wall-Ye V.I.N. robot (Christophe Millot and Guy Julien, França) e ainda um projeto Luso-Espanhol.

Resta-nos finalmente esperar que no futuro se verifique mais consenso nacional, desde da administração competente até os viticultores, a favor da colaboração com o sector da seleção, tal como encontramos na Espanha.