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Sustentabilidade

Solo: “Precisamos de mais capacitação para construir itinerários técnicos”

Solo: “Precisamos de mais capacitação para construir itinerários técnicos"
Maria do Céu Godinho, professora e investigadora na Escola Superior Agrária de Santarém, explicou à VIDA RURAL a importância de saber mais sobre os micro-organismos do solo de forma a potenciar a sua ação benéfica sobre as culturas. Uma entrevista no âmbito do seminário ‘Benefícios Associados ao uso de Micorrizas e Tricodermas’, organizado pela Atens/Crimolara.
Porque é que de repente começámos a falar tanto de micro-organismos do solo?

Estamos a falar de micróbios que vivem naturalmente no solo.  Neste momento sabemos que é oportuno aumentar a quantidade destes micro-organismos porque são benéficos, não só do ponto de vista da nutrição, mas também na facilitação da absorção de nutrientes. E uma planta bem nutrida está mais capaz de resistir ao stress biótico e abiótico e de combater os inimigos das culturas, particularmente de fungos do solo, que são parasitas das plantas.  O solo está colonizado por vida, não é só um suporte das plantas, e hoje sabe-se bastante mais do que no passado, daí esta valorização dos micro-organismos.

Qual a diferença entre micorrizas e tricodermas?

Micorrizas e tricodermas são fungos com papéis distintos. A micorriza faz uma associação mutualista simbiótica, faz uma simbiose com as plantas, não consegue viver sem elas. Já o tricorderma tem uma ação benéfica no sentido do antagonismo contra os inimigos das culturas.

Maria do Ceu Godinho 01

Professora Maria do Céu Godinho Fotografia de Rodrigo Cabrita

Quais os desafios que a produção enfrenta face ao conhecimento que temos destes micro-organismos e às soluções que começam a aparecer no mercado [micorrizas inoculadas]?

O maior dos desafios, na minha perspetiva, é não fazer a substituição de alguns fatores de produção por outros. Estes micro-organismos não vão ser integrados num itinerário técnico com as mesmas formas de atuação de um produto químico de síntese básico. Há que contextualizar estes no

vos produtos neste itinerário técnico e alterar alguns dos procedimentos. Porque associados a estes produtos existem processos, e esse é o testemunho pessoal que gostaria de deixar, de que é preciso entender que os agricultores têm de ser capacitados e munidos de informação para enquadrar estes produtos em processos que naturalmente vão ter de ser diferentes.  Porque não faz sentido estar a aumentar o inóculo do organismo por um lado e destruí-lo por outro, porque o nosso procedimento habitual, ou prática comum, é fazer um herbicida, fungicida ou inseticida, ou dois ou três, de acordo com as práticas mais tradicionais ou convencionais.

Aliados a estes novos produtos temos novos processos e esse é o maior desafio. Se é complicado? Sim, não é simples, mas também não é nada que não se consiga sem a devida capacitação. O maior estrangulamento ou obstáculo ainda é falta de conhecimento. Precisamos de saber mais e a tendência vai ser desenvolver produtos e processos mais orientados para ecologias distintas.  Não vamos ter soluções únicas, serão mais à medida. Quando consultamos a literatura e verificamos os efeitos secundários de alguns dos produtos que os agricultores precisam de utilizar para combater os inimigos das culturas percebemos que o padrão não é igual. Os efeitos tóxicos dependem do tipo de solo, da forma de aplicação, da dose utilizada, da própria cultura que está micorrizada, dos antecedentes culturais. Há um conjunto de variáveis que fazem com que precisemos de ser capacitados para tomar decisões e poder contruir novos itinerários técnicos e novas formas de produzir e construir os sistemas culturais.

O que é que pode ser mais interessante, nesta fase, ao nível de processos?

É claramente saber: se já temos produtos novos e podemos inoculá-los e eles têm efeitos muito interessantes ao nível da nutrição e da proteção das plantas, o que é que temos de fazer no procedimento da cultura desde que ela é instalada até que é colhida? O que é que temos de fazer no sistema cultural, na rotação, na sequência cultural para potenciarmos estes micro-organismos? Estes são organismos que já existem no solo, por isso o que faz sentido é inocularmos quando eles estão em menor quantidade, ou quando precisamos de enriquecer o solo… Mas, sobretudo, o que precisamos é de conservar os que lá estão, porque na luta biológica há de facto um padrão de funcionamento que é base: os organismos são sempre muito mais funcionais, eficazes e capazes de resistir às adversidades se forem organismos autóctones, se potenciarmos os que lá vivem, a ecologia já nos demonstrou isso. A melhor das práticas é conservar o que já temos. Isto não anula a possibilidade ou necessidade de enriquecermos o solo em determinados momentos, ou locais, porque temos necessidade ou porque perdemos alguma biodiversidade. O que quero dizer é que estamos a falar de procedimentos integrados desde o início de um sistema cultural. E não pode ser pensado à cultura. Quando, por exemplo, apostamos em cover crops [culturas de cobertura] o que estamos a fazer é uma melhoria do sistema, não é só pensar na cultura seguinte.

Para isso é preciso um novo mind set

Sobretudo isso. Colocar outro chip…