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Chegar lá!

Já aqui falamos que a recente entrada da Jerónimo Martins na produção representa mais um desafio para os produtores nacionais. A relação desequilibrada entre agricultores e distribuição entra agora num novo capítulo que aparentemente agrava ainda mais esta equação. As queixas já começaram. Daqui para a frente vai ser interessante acompanhar dois aspetos: a reação da produção a esta nova concorrência e a reação dos retalhistas concorrentes.

Numa primeira análise, a única cadeia teoricamente com capacidade para acompanhar a Jerónimo Martins e investir em agricultura é a Sonae. Mas terá interesse em entrar nesta guerra ou vai apostar as suas cartas no reforço das parcerias com os produtores do seu Clube de Produtores? Veremos…

Do lado da produção, o círculo está cada vez mais apertado. O que nos leva à eterna questão de encontrar soluções que permitam diminuir a dependência da grande distribuição. Acredito que esta pressão vai acabar por empurrar os produtores para níveis mais altos de organização. Será um processo moroso, difícil (porque entendimentos não são fáceis quando há interesses distintos em causa) mas inevitável. Se foi possível, na década de 90, que três cooperativas leiteiras se unissem para criar a gigante Lactogal e dar o passo da afirmação agroindustrial e de criação de marcas (com o que isso implicou de arrojo, investimento e até muita controvérsia) não me parece impossível que organizações produtivas se possam unir para criar estruturas de distribuição que possam estar no mercado a competir com os grandes. Já sei que muitas vozes se levantarão a dizer que os agricultores não têm de ser comerciantes e que essa não é a sua vocação. Nada mais errado. Perguntem aos produtores de vinho e de azeite qual é a sua vocação. E como tiveram de aprender a vender para dar o salto nas suas explorações. Para além disso, não estamos a falar em transformar os agricultores em merceeiros. Estamos a falar em criar estruturas profissionais, geridas por profissionais experientes em retalho, contratados por produtores, com a finalidade de reduzir elos na cadeia e deixar mais valor no bolso do lado da produção. Tenho a certeza que os retalhistas também não queriam ser agricultores, mas perceberam que se controlassem a produção poderiam ganhar mais. E foram buscar quem sabe.

Queremos chegar lá?