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Porque não queremos vinhas em Marte

Cheguei de comboio. Do hotel para a Alfândega o Uber que me transportou era um carro elétrico. Na conferência tomei notas no computador e não usei papel. Uma garrafa de vidro reutilizável, cortesia da organização, permitiu-me beber água sem recorrer a plástico. Em consciência, hoje já dei o meu singelo contributo para a reduzir as emissões de carbono. Agora, só falta o resto do mundo. E é por isso que estou a assistir à Cimeira mundial das Alterações Climáticas, Climate Change Leadership- Solutions for the Wine Industry, que decorre hoje e amanhã (6 e 7 de março) no Porto.

O organizador, Adrian Bridge, CEO da Taylor’s Port, foi muito claro na sessão da abertura: “Nem toda a gente parece acreditar nas alterações climáticas mas elas estão aí. A indústria vitivinícola tem feito um trabalho pioneiro e está a liderar este processo, mas toda a investigação e tecnologia desenvolvida não pode ficar em domínio privado, é tempo de partilharmos informação e aprender uns com os outros”. Partilhemos então.

O empresário catalão Miguel Torres, da gigante Bodegas Torres, abriu a manhã com o seu testemunho. Em 2006, assistiu com a mulher ao filme “Uma verdade inconveniente”, promovido pelo antigo vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore. Quando chegou a casa sabia que algo tinha de ser feito e tomou uma decisão: a partir dessa data 10% dos lucros da Torres iriam para investimento em investigação e desenvolvimento para mitigar as alterações climáticas.

Porque não queremos vinhas em Marte [1]

A empresa enveredou gradualmente por uma estratégia de sustentabilidade que implicou a construção de reservatórios para reter as águas do degelo das montanhas, a minimização de emissões de CO2 e de tratamentos com pesticidas (com uma transição para a viticultura biológica) e a recuperação de variedades autóctones catalãs mais adaptadas às alterações climáticas. Mas também a redução do consumo de eletricidade e a introdução de energias renováveis, como a solar e a biomassa, a utilização de veículos elétricos e a reciclagem de garrafas. A meta é conseguir que 20% da energia utilizada seja renovável dentro de 10 anos.

Miguel Torres deixou um número interessante: 80% das emissões do negócio vitivinícola estão na logística. Ou seja, é depois do vinho feito que a pegada ecológica começa a pesar.  Por isso reuniu com os parceiros da cadeia de abastecimento para tentar encontrar soluções.

Muito está a ser feito, e outro tanto está por fazer, mas uma coisa é certa: “Este é o caminho porque não quero plantar vinhas em Marte!”.

We can fix it

Kimberly Nicholas, professora de Ciências da Sustentabilidade (sim, a disciplina existe) na Universidade sueca de Lund, trouxe-nos a visão de alguém que acredita que estamos a tempo de mudar e consertar o mal feito. E mais, conseguiremos reduzir em 1,5 graus o aumento da temperatura. Nicholas mostrou uma fotografia de uma manifestação de cientistas onde um cartaz ostentava a seguinte mensagem: “Its warming, It’s us, We are sure, It’s bad, We can fix it”. Mas como? Olhar para os recursos autóctones pode ser um bom ponto de partida. E atirou com mais um número para dar que pensar: 80% das vinhas a nível mundial usam apenas 1% da diversidade. E é a diversidade que promove a resiliência.

O plano é este: investir em investigação científica na indústria vitivinícola para conseguir reduzir 1,5 graus, ambicionar trabalhar com zero emissões de carbono e, em 2030, eliminar os combustíveis fósseis. E, mais uma vez, a logística pode fazer a diferença, com embalagens mais leves e alternativas, a utilização de transporte ferroviário e carros elétricos e estratégias de eficiência energética e utilização de energias renováveis. Simples? Não. Possível? Sim.

Not so carbon

Com perto de 10.000 hectares de vinha no Chile, mais de 1100 na Argentina e perto de 500 nos Estados Unidos, a chilena Concha Y Toro tem um ambicioso plano de sustentabilidade em prática. Gerard Casaubon, responsável I&D da empresa, revela que são várias as medidas tomadas para mitigar os efeitos de um clima que não dá tréguas aos vitivinicultores. A eficiência na utilização da água já não tem segredos para esta adega, tão pouco as energias renováveis.

Gerard Casaubon, [2]

A pegada de carbono é claramente o alvo a abater, com uma redução de 30% nos últimos seis anos, muito à custa do engarrafamento: 99% do portefólio utiliza garrafas mais leves.

A seleção clonal (mais uma vez a importância da diversidade), é outra das grandes apostas para preparar o futuro com vinhas mais resistentes. Ainda na vinha, a Concha Y Toro aposta numa estratégia otimizada de poda e desfolha que permite proteger as plantas das radiações solares. Gerard Casaubon revelou que é essencial trabalhar com micrometeorologia avançada para prever o clima com minúcia, e insistiu na existência de mais parcerias entre empresas privadas e instituições públicas para enfrentar os desafios climáticos. A terminar, uma referência à importância da rolha: “É preciso trabalhar com biodiversidade mas também com projetos de conservação e cooperação com a indústria da cortiça que representa uma clara oportunidade de capturar CO2”.