Valorizar o interior

Sabia que durante a crise a região da Beira foi a que trouxe mais valor para a agricultura? Foi com ideia que Helena Freitas, professora na Universidade de Coimbra e ex-coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior abriu a conferência ‘Valorizar o interior’, organizada pela revista VIDA RURAL, no passado mês de novembro, no Fundão.A importância de valorizar e promover a atividade agrícola nos territórios rurais “com as gerações mais jovens e com aqueles que
procuram no conhecimento as soluções para uma agricultura competitiva, mas também as comunidades que persistem nos territórios”, foi o foco desta investigadora que referiu como áreas prioritárias a produção primária sustentável, a circularidade e gestão eficiente dos sistemas alimentares e abordagens ecológicas integradas, que contemplem a agricultura familiar e a paisagem e a promoção de ecossistemas baseados na biodiversidade.
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Os jovens agricultores

Fotógrafo há 17 anos, José Caria, de 44 anos, deixou o jornal Expresso em plena crise do mercado da comunicação social. Com raízes na região da beira Interior, decidiu voltar “à terra” e tornar-se agricultor. “Quero viver no campo nesta fase e ter uma mais-valia para a minha vida, para a minha família e a minha região.
E o país é pequeno, podemos andar de um lado para o outro em poucas horas, com exceção das portagens as deslocações não são problema”, explica José Caria que não se assusta com a interioridade, embora reconheça a falta de apoios a quem se quer instalar: “Idanha-a-Nova é o concelho mais desertificado do país, onde não há apoios para as pessoas se instalarem”. Com 2.000 cerejeiras, 200 ginjeiras e 40 oliveiras, José Caria quer agora diversificar para outras culturas no seu projeto e tentar passar para o modo biológico. Vai apostar em romã, ameixa, marmelo, olival semi-intensivo e até em limão, uma cultura onde deposita muita esperança: “posso estar enganado, mas penso que é uma cultura de futuro, o consumo está aumentar”. Também com raízes no Fundão, mas nascido e criado em Lisboa, Filipe Costa foi contagiado com o bichinho da agricultura pelo avô. Tirou agronomia no ISA e encontrou uma oportunidade de trabalho numa associação local, a Apizêzere, “uma organização com bastante valia na região. Foi aqui tive a componente prática da minha formação agrónoma. Tirei uma especialização em fruticultura e surgiu a oportunidade de colaborar na Cerfundão”, explica. O avô era proprietário de uma exploração com 12 hectares de cerejeira em Alcongosta, na vertente norte da Serra da Gardunha, o que o levou a mudar-se para a região em 2003. Mas só em 2010, em conjunto com o irmão, cria a empresa Cerejorange, um projeto que permitiu fazer a expansão para a vertente sul, aproveitando a vantagem climática de antecipação da produção. “Instalámos 7,5 hectares de cerejeiras na Póvoa da Atalaia, num projeto de jovem agricultor PRODER. E reformulámos o pomar em Alcongosta, com novas variedades, maximizando produtividades, ajustando calibres, tudo isto num período de 10/12 anos. Neste momento estamos com 26 hectares e estamos a apostar na diversificação, com a introdução da cultura do pêssego, e o objetivo é continuar este caminho”, refere este jovem agricultor. A ideia é ter uma alternativa à cereja e diversificar o risco, com benefícios colaterais evidentes: aumento do período de faturação da empresa e rentabilização da mão-de-obra permanente e das máquinas agrícolas da exploração, com óbvio impacto na amortização dos custos fixos.

Água é fator limitante

A sul da Gardunha, a água é um fator limitante para os fruticultores. A reivindicação é antiga, mas fundamental para o desenvolvimento da agricultura na região. Filipe Costa está fora do perímetro de rega da Cova da Beira e tem de investir fortemente em charcas para ter reservatórios que lhe permitam aproveitar águas pluviais mas, ainda assim, em anos secos a gestão da rega é complicada.
Quem não tem esta limitação é Ricardo Tojal, o arquiteto/agricultor que chegou da Beira Alta para investir em fruticultura e numa agricultura mais tecnológica. Ligado familiarmente à produção de maçãs, mas com jeito para o desenho, estudou e trabalhou em arquitetura mas a crise da construção civil acabou por lhe dar o impulso necessário para entrar na agricultura: “Já tinha em mente o regresso à terra e a instalação como jovem agricultor e a fruticultura foi uma opção natural. Numa fase inicial pensou em produzir maçãs e começou por ver terras na região de Alqueva. Mas acabou por descobriu a condições edafo-climáticas da Beira, onde ainda se conseguia encontrar áreas “excelentes”, beneficiando do regadio da Cova da Beira. “Tinha a possibilidade de fazer fruta de caroço numa região que ainda está muito escondida, mas vai ser rapidamente descoberta e vai ficar ocupada muito rapidamente”, alerta. Com o irmão engenheiro informático (que trabalha com drones e aeronaves) e a prima psicóloga, cria uma sociedade e compra a Quinta do Prado Vasco, no limite do concelho do Fundão. São 200 hectares, dos quais 96 já plantados com pêssego, nectarina, ameixa e pêssego paraguaio. A plantação começou em novembro de 2017, depois de um intenso trabalho de movimentação de terras e preparação: “Optámos por um porta enxerto diferente, muito resistente à água, porque o terreno era muito argiloso e suscetível ao encharcamento. E no primeiro ano já tínhamos pêssego nas árvores”, revela Ricardo Tojal.

O mundo é o nosso mercado

Gonçalo Andrade, presidente da Portugal Fresh, foi ao Fundão reforçar algumas ideias chave no setor das frutas, legumes e flores. E começou por apontar a nossa influência atlântica como fator diferenciador uma vez que Portugal é “a única latitude do sul da Europa que tem influência do Oceano Atlântico, comparável à latitude da Califórnia que tem influencia do Pacífico.
Andamos sempre a promover a dieta mediterrânica mas, na minha opinião, devemos ter algum cuidado porque na realidade estamos a promover Espanha, Itália e a Grécia e esquecemo-nos da grande diferenciação que temos que é a influência atlântica que nos permite ter muitas vezes mais cor, mais sabor e mais aroma”, frisou. Com as recentes aquisições e fusões entre grupos de retalho, a concentração da produção passou a assumir ainda mais importância. “Fico dececionado quando se diz que já existem organizações grandes e que é preciso apoiar os pequenos agricultores. Penso que os pequenos agricultores deviam juntar-se a estas organizações porque as nossas organizações são mínimas à escala europeia. A OP nacional que mais fatura, fatura uns ‘ridículos’ 50 milhões de euros. Se compararmos com uma OP concorrente na Bélgica, que é um país mais pequeno que o nosso, a Belorta fatura 500 milhões de euros e acha que é pequena e por isso juntou-se com outras estruturas”.

2.000 hectares de amendoal em marcha

A ideia começou com um brasileiro e um português que sempre tiverem o sonho de trabalhar em agricultura. E viram na amêndoa a oportunidade e em Portugal o país com possibilidade de fazer acontecer esse projeto. É nesta fase que entra Gustavo Ramos, engenheiro civil, convidado a fazer sair o sonho do papel e que é hoje diretor-geral da VeraCruz, a empresa que está a investir na plantação de 2.000 hectares de amêndoa em modo intensivo e super intensivo.
À data da conferência (16 de novembro) já estavam plantados 1200 hectares, dos quais 330 no Fundão. O projeto prevê 60% de amendoal super intensivo e 40% de intensivo. E ainda uma fábrica para descasque e processamento para produção de amêndoa natura, laminada e farinha com marca VeraCruz. Em estudo está o aproveitamento da casca, que pode ter potencial para biomassa. “Portugal tem o que precisamos: estabilidade para investir com segurança e conseguir fazer um negócio duradouro. E temos água, as nossas propriedades no Fundão e Idanha estão em perímetros de rega. Mas não se enganem, os espanhóis estão a chegar e procurar terras por aqui. Alqueva está lotado e estão a vir para cá. Vai-se ouvir espanhol, inglês e chinês porque há água”.

Organização e venda

Numa mesa redonda dedicada à organização, Francisco Pavão, da APPITAD, falou da região trasmontana que, do ponto de vista associativo, está muito bem organizada, com cerca de 80 associações.
A questão, apontou, “é a lacuna da comercialização de produtos que não temos. Há OP na amêndoa e no azeite, mas nada mais, o trabalho tem sido unir esforços de promoção conjunta de produtos para diluir custos”. A fugir um pouco a esta linha, Francisco Pavão deu o exemplo recente do projeto YEP-Young EVoo Producers [EVOO significa extra virgin oil] que reuniu seis produtores na promoção das suas marcas, com a particularidade de se juntarem na produção de um lote comum, conseguindo-se diluir significativamente os custos operacionais de cada um, apostando em compras conjuntas: “têm uma veia de exportação e estes seis produtores no último ano faturaram 60.000 euros, 85% dos quais de azeite para exportação. Numa região muito pequena é um caso de sucesso, mas ainda com muito pouca vida. Mas este é o paradigma, alterar práticas e conceitos individuais e passar para o coletivo, só assim conseguimos chegar mais longe”.
O diretor-geral da AJAP, Firmino Cordeiro fez um discurso inconformado ressalvando a necessidade de ter políticas e quadros de apoio constantes, que permitam fazer previsões. “As últimas aprovações [de projetos de jovens agricultores] que chegaram são uma desilusão, só a partir de 14,5 de VGO é que os projetos foram aprovados e as pessoas vão desistindo. Os jovens não querem estar muito tempo à espera disto. Neste momento estão implicar com processos encerrados e a pedir a devolução de prémios de jovens agricultores, recebemos telefonemas todos os dias”.
Quanto aos novos investidores que estão a chegar à região, Firmino Cordeiro tem uma visão crítica: “Tenhamos a coragem de dizer que quem quiser vir investir que o faça connosco, em parceria. Somos o elo mais fraco de uma cadeia, se tivermos agentes facilitadores então que invistam connosco”.

Interioridade?

José Luís Castello Branco, presidente da Cerfundão, foi mais longe. Mas isto da interioridade é problema? “Somos um país demasiado pequeno para falarmos em interior. Estamos a 260 kms de Lisboa e a 360 de Madrid. Interior é Madrid e não vejo os madrilenos a queixarem-se da interioridade.
Estamos sempre a queixarmo-nos da distância de Lisboa mas, economicamente, faz mais sentido irmos a Madrid porque é mais barata a deslocação, com gasóleo mais barato e sem portagens, do que ir até lisboa. Há aqui muito a trabalhar e temos de começar a pensar de uma maneira diferente”, apontou.
Ainda sobre o ‘complexo de pequenino’ o diretor da Cerfundão fez a analogia com o país produtor de referência mundial, o Chile, mas que não produz cereja para o seu mercado interno, apenas para exportação, nomeadamente para a China, “tendo para isso de atravessar o maior oceano que há neste planeta, que é o Pacífico, de uma ponta à outra com um fruto delicadíssimo como é a cereja. E conseguem fazer isto fruto de um trabalho enorme de mudança de paradigma de produção, e essa tem de ser a nossa referência”, frisou.

Sustentabilidade e bom produto

O caso da Soresa deu a conhecer um projeto de três jovens transmontanos, Edgar Morais, André Teixeira e Daniel Lopes, que apostam em sustentabilidade e design para dar vida aos bons produtos da região. No total gerem 50 hectares, cerca de 30 de castanha, 20 de olival e uma área residual de goji.
“Quisemos diferenciar-nos em alguns aspetos, aproximamo-nos de pessoas conhecedoras, apostamos na produção biológica, uma grande parte da nossa área é bio ou está em transição, desde o campo até ao cliente. Reduzimos o uso de plástico, a utilização de combustíveis, e iniciamos a entrega de barco à vela”, explicou André Lopes.
Transporte de produtos em barco à vela? Isso mesmo… O desafio foi lançado por clientes que apostavam na sustentabilidade e na redução de combustíveis fósseis. Os transportadores “são uma empresa de velejadores ingleses que fazem a viagem de Inglaterra, passando pela Holanda e Bélgica e angariam clientes nestes pontos todos. E muitos clientes querem fazer a viagem com eles e vem conhecer os campos e a produção”, revela. A viagem de Portugal a Inglaterra leva cerca de 10 dias e o transporte acaba por ficar mais barato de barco à vela do que de forma convencional, “embora com os riscos associado de uma viagem num barco do séc. XXVIII”.

Uma adega renascida

Há uma nova vida na Adega Cooperativa do Fundão. José Martins Carvalho, presidente desta entidade, falou de um processo de reconversão que parece seguir o caminho do sucesso.
Com um histórico de “altos e baixos”, esta adega passou de 5 milhões de quilos entregues pelos associados para 1 milhão. A causa desta’ debandada’ era óbvia, os preços pagos aos produtores não chegavam para cobrir os custos de produção. Com toda a estrutura montada para grandes volumes e sem matéria-prima para laborar, a adega teve de parar para pensar e readaptar-se. Uma oportunidade para trabalhar a qualidade e criar valor? “Sim”, defende José Martins Carvalho “Em 2017 iniciamos um trabalho de reforço de qualidade, com uma nova imagem na maior parte dos vinhos. Tivemos necessidade de aprofundar o mercado, pois tínhamos essencialmente vinho regional, em bag-in-box, que é o que gera menor margem. Nesta fase interessa-nos promover os vinhos DOC”, explica o presidente.

Quando uma autarquia investe na agricultura

O desenvolvimento da atividade agrícola na região do Fundão tem sido uma grande aposta da autarquia. Para o vereador Paulo Águas, a ligação ao agronegócio tem dado frutos: “Transformar um produto de elevadíssima qualidade numa marca fantástica foi um esforço realizado por todos, autarquia e organizações
O Fundão tem uma tradição de organização, tem o segundo mais antigo produtor engarrafador que é a adega cooperativa, tem organizações profissionais de referência caso da Apizêzere, tem estrutura técnica dentro das organizações que garante essa assistência técnica”, sublinha.
A autarquia está a investir em mercados de cadeia curta e a planear mais mercados com periodicidade sazonal. Isto para além de um projeto piloto com uma escola em Silvares onde está a ser contabilizada a quantidade de alimentos de agricultura biológica integrada na dieta da cantina escolar e, em simultâneo, uma sensibilização para o desperdício: “Em dois meses de projeto baixamos o desperdício de 200 para 78 gramas. O desperdício é pesado rigorosamente todos os dias e há um técnico do nosso gabinete com formação em técnico de cozinha que está a ajudar na apresentação dos pratos e a garantir que se cozinha a quantidade adaptada ao número de crianças. Infelizmente a contratação pública é o maior inimigo das cadeias curtas”, lamenta Paulo Águas.
A fechar a conferência, o presidente da Câmara Municipal do Fundão, Paulo Fernandes referiu a necessidade de continuar a atrair jovens, talento, criatividade, tecnologia, capital para o mundo rural. Sobre a necessidade de continuar a trabalhar a organização e a escala, Paulo Fernandes deu o exemplo da região espanhola de Velle del Jerte, em Cáceres, uma referência na produção de cerejas, que tem uma produção três vezes superior à produção nacional, mas cuja média da propriedade é inferior a dois hectares: “são milhares de pessoas a produzir com menos de dois hectares e têm uma marca super internacionalizada, nomeadamente no mercado inglês, com sistemas de proximidade e de partilha em termos de rede de cooperativas que conseguem resolver o problema. É um bom exemplo de nem sempre é preciso fazer muito para ter organização”.

 

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