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Brasil lança sistema biológico de produção de mangas

Investigadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveram o primeiro sistema biológico para a produção de manga [1]. Elaborado com base em testes realizados na localidade de Lençóis, na Chapada Diamantina (Bahia), estes ensaios tiveram em consideração estudos já existentes realizados por outras instituições e unidades da Embrapa. De acordo com esta entidade, o impacto na produtividade foi pouco maior do que obtido pelo sistema convencional, mas o foco foi colocado nos benefícios para a saúde e o meio ambiente.

“A média de produtividade mostrou-se pouco superior aos valores registrados no sistema convencional no estado da Bahia: 20 toneladas por hectare (t/ha), com a previsão de chegar a 25 t/ha no próximo ciclo, contra 15,6 t/ha em média — a diferença poderia ser maior, caso tivesse sido utilizado um espaçamento mais adensado (mais plantas por hectare) nos testes. Mesmo assim, o resultado foi comemorado pela equipa de investigação porque é mais um incentivo ao cultivo orgânico e à sustentabilidade da agricultura brasileira”, informa a Embrapa.

Existe ainda um fator que pode ser ponderado quando se compara o cultivo biológico com o convencional, que é a não utilização de produtos químicos – o que torna mais financeiramente mais atrativa a produção. Por enquanto, o sistema está restrito a esta região, mas a proposta é que sirva de modelo e possa ser ajustado para outros polos produtivos do Brasil, já que contempla os princípios básicos da produção biológica.

Além da manga, o projeto “Desenvolvimento de sistemas orgânicos de produção para fruteiras de clima tropical” [2], conduzido em parceria entre a Embrapa e a empresa Bioenergia Orgânicos desde 2011, já produziu sistemas orgânicos de produção para abacaxi e maracujá. A publicação reúne recomendações técnicas relacionadas a aspectos socioeconómicos, exigências climáticas, preparo e manejo do solo, calagem e adubação, variedades, produção de mudas, implantação do pomar, irrigação, práticas culturais, manejo de pragas (doenças e insetos), colheita e pós-colheita, mercado e comercialização, e coeficientes técnicos e rentabilidade.

Controlo de pragas é desafio

O controle de insetos-praga é o grande desafio em qualquer cultivo biológico, dada a impossibilidade da utilização de produtos químicos sintéticos. Sendo assim, é preciso investir no manejo da vegetação natural do pomar, na nutrição e na monitorização populacional das pragas e dos inimigos naturais. “No sistema orgânico, é necessário usar muitos métodos preventivos. São necessárias vistorias frequentes na área, para que o inseto possa ser retirado assim que apareça. É o manejo integrado, que envolve prevenção, monitorização e intervenção”, explica o fitopatologista Aristoteles Matos, investigador da Embrapa Mandioca e Fruticultura.

“Para evitar a entrada de pragas e doenças no pomar, o nosso primeiro passo foi a produção de plantas sãs. A Bioenergia tem um viveiro, no padrão estabelecido pelo Mapa para a produção das plantas das variedades de mangueira que foram trabalhadas e que hoje já são certificadas. Transportamos as plantas desse viveiro para a fazenda onde foi instalado o pomar”, avança este investigador.

O especialista explica que a maior dor de cabeça no controlo de pragas ao longo destes anos nos ensaios experimentais em Lençóis foram as formigas cortadeiras, apontadas também por Osvaldo Araújo como o maior desafio fitossanitário no plantio da manga biológica: “Na realidade, a manga é uma cultura interessante e de fácil manejo para o sistema orgânico. A grande dificuldade foi no combate às formigas. Mas encontramos um produto orgânico disponível no mercado e obtivemos excelentes resultados”, informa o sócio da Bioenergia.

Um dos pontos principais para que prejuízos não sejam contabilizados é ter bastante cuidado na escolha das variedades que serão utilizadas no pomar. A Embrapa levou 23 variedades para serem avaliadas, sendo que, parte delas é oriunda do programa de melhoramento genético de manga da Embrapa Cerrados (DF).

Para que seja possível, observaram-se principalmente as características necessárias para processamento, já que o objetivo da Bioenergia Orgânicos é utilizar a maior parte da produção para a indústria de processamento de polpa integral, ainda a ser instalada. “As variedades Ubá e Palmer adaptaram-se bem à região, com produção de frutos de alta qualidade no sistema orgânico e estão a ser recomendadas”, conta o investigador da Embrapa Mandioca e Fruticultura Nelson Fonseca.

A manga Ubá é originária da cidade mineira de Ubá, sendo uma planta vigorosa, de copa arredondada e densa. Em Lençóis, apresentou produção regular, acima de 18 t/ha no quinto ano de cultivo, com espaçamento de 8 m x 8 m (156 plantas por ha). Já a manga Palmer originou-se na Flórida (EUA), tendo sido introduzida no Brasil em 1960.

“O interessante é que uma das variedades recomendadas é mais precoce e a outra mais tardia, o que dá uma maior amplitude de colheita. Para se ter uma ideia, na manga Ubá, da abertura das flores até à colheita do fruto maduro, leva cerca de 120, 125 dias. Já a Palmer leva cerca de 150 dias, são cerca de 30 dias a mais. Vamos supor que a Ubá tenha um pico de produção entre dezembro e janeiro, e a manga Palmer tenha um pico de produção de fevereiro até março. Aumenta a amplitude da colheita com essas duas variedades”, pontua Fonseca.

O segredo do sucesso

De acordo com a Embrapa, a base do sucesso da produção em sistema biológico é a preparação do solo, que deve ser revolvido o mínimo possível.

“Iniciamos a implantação do sistema em 2011 com o preparação do solo, que levou cerca de um ano. Em Lençóis, o solo é extremamente pobre. O chamado Latossolo Vermelho Amarelo distrófico apresenta alto teor de alumínio e baixos teores de cálcio, magnésio e outros nutrientes. A nossa primeira prática após as análises químicas e granulométricas foi a aplicação de calcário dolomítico e gesso mineral [gipsita] para neutralizar o alumínio e fornecer cálcio e magnésio. Depois disso, entramos com as plantas melhoradoras”, explica a pesquisadora da Embrapa Mandioca e Fruticultura (BA) Ana Lúcia Borges.

Uma das formas de garantir a cobertura vegetal do solo é utilizar o cultivo de plantas melhoradoras que tem por finalidade aumentar a eficiência do uso da água, diminuir a erosão e a salinização, promover o ciclo de nutrientes, adicionar nitrogénio, aumentar o carbono armazenado no sistema e, consequentemente, a qualidade do solo no que se refere aos atributos físicos, químicos e biológicos. “Nos ensaios utilizamos um cocktail vegetal, misturando sementes de leguminosas e gramíneas. De leguminosas, usamos feijão-de-porco e mucuna-preta e, de gramínea, sorgo e milheto. E é muito interessante o uso destas misturas porque assim temos espécies com composição de nutrientes e taxa de decomposição diferentes”, diz Ana Lúcia.

“As leguminosas têm mais nitrogénio, mas decompõem-se mais rápido. E as gramíneas têm menos nitrogénio, porém decompõem-se mais lentamente. Isto levando em consideração a parte aérea, mas não podemos desconsiderar a parte vegetal das raízes, que tem uma quantidade também de nutrientes e acumulam carbono no solo, além de as leguminosas ciclarem principalmente potássio, cálcio, magnésio e fósforo para as camadas superficiais do solo, e as gramíneas contribuírem para a agregação do solo”, exemplifica.