Agricultura

A nova vida da Herdade do Monte da Ribeira

A nova vida da Herdade do Monte da Ribeira

A Herdade do Monte da Ribeira está a apostar fortemente no reforço da qualidade dos seus vinhos e azeites. A diretora agrícola e o diretor de vinhos receberam-nos em altura de colheita da azeitona Galega e revelam a estratégia da empresa para o futuro.

O vinho e o azeite são as estrelas da Casa Agrícola Herdade do Monte da Ribeira (HMR), embora ocupem ‘apenas’ cerca de 300 hectares dos 1.100 das Herdades do Monte da Ribeira e do Farrobo, sendo que os restantes, na encosta sul da Serra do Mendro, são de floresta mediterrânica – azinheira, sobreiro, zambujeiro e medronheiro. Mariana Carmona e Costa, sobrinha-neta do industrial Victor Carmona e Costa, fundador da Casa Agrícola em 1986 – então Companhia Agrícola de Desenvolvimento (CADE) – conta-nos que a palavra de ordem é ‘qualidade’.

A reconversão da HMR começou em 2011 quando a nova direção agrícola e de vinhos – Mariana e António Nora, respetivamente – entrou para a empresa, pela mão da nova administração da Fundação Carmona e Costa, que gere a empresa, liderada por Maria da Graça Carmona e Costa, José Carmona e Costa (pai de Mariana) e Álvaro Portela.

A nova vida da Herdade Monte da Ribeira

A HMR fica no concelho da Vidigueira, junto à aldeia de Marmelar, bem perto de Alqueva mas a água da barragem só vai chegar em 2022, por isso logo quando comprou a herdade Victor Carmona e Costa construiu três barragens e instalou rega nas vinhas plantadas em 1989. Também no olival foi inovador ao escolher o modo superintensivo da variedade Arbequina para uma grande área (que hoje totaliza 24 hectares).

Nos últimos sete anos, sob a direção de Mariana Carmona e Costa e António Nora, as vinhas e o olival foram reconvertidos para cumprir a aposta na qualidade.

Qualidade, imagem e design

Qualidade é a linha orientadora de toda a produção, mas a imagem e o design moderno são também caraterística dos vinhos e azeites Pousio. Assim, em abril, a empresa decidiu substituir a gama Pousio Colheita pelo Pousio Selection, colocando os seus vinhos num segmento de mercado acima. António Nora diz à VIDA RURAL que “o objetivo é começar logo num patamar de qualidade muito elevado” e acrescenta: “Queremos fazer vinhos atuais e que agradem ao gosto moderno, vinhos que estejam prontos a ser bebidos no momento, porque o consumidor já não quer ter de esperar anos e anos para beber um bom vinho”. O diretor de vinhos salienta, todavia, que “isto não quer dizer que alguns dos nossos vinhos não tenham potencial de guarda”.

Quanto ao azeite – a ‘menina dos olhos’ de Mariana Carmona e Costa –, a qualidade é também a marca, sendo que este ano, depois dos galheteiros do Pousio para o HoReCa, foi lançado um Bag in Box de 2 litros igualmente de Pousio e também para o mesmo canal ou para cozinhar no lar, sempre com uma imagem cuidada e inovadora: a embalagem de cartão é redonda, como se tratasse de uma caixa de uma garrafa de vinho. A diretora agrícola explica que este azeite é feito com azeitona mais madura, porque com a cozedura perde-se frescura, pelo que o azeite mais fresco e ‘verde’, de início de campanha e indicado para usar a cru, é selecionado para o Pousio Premium.

Área e produção de vinho branco têm crescido

A HMR tem uma área de cerca de 47 hectares de vinha, “sendo que algumas vinhas de Syrah e Cabernet Sauvignon são quase vinhas velhas porque têm perto de 30 anos”, explica-nos António Nora. Além destas duas variedades tintas, a Herdade tem também Alicante Bouschet, Aragonez, Baga, Petit Syrah, Petit Verdot, Touriga Nacional e Trincadeira. Já nas brancas as castas escolhidas foram: Antão Vaz, Arinto, Roupeiro, Alvarinho e Verdelho.

A área de castas brancas começou por ser muito inferior à de variedades tintas mas tem vindo a aumentar, seguindo o cada vez maior interesse do mercado nos vinhos brancos nacionais. Mesmo assim, o diretor de vinhos revela que em 2018 a produção do Pousio Tinto será o dobro da do Branco: cerca de 250.000 garrafas de Tinto (150.000 de Selection, 25.000 de Escolha e 15.000 a 20.000 de Reserva, mais o Alicante Bouschet e o Marmelar – marca topo de gama –, se decidirem lançá-los), enquanto as cerca de 125.000 garrafas de Branco serão distribuídas por 80.000 de Selection, 15.000 de Escolha, 10.000 de Reserva e 5.000 de Espumante. Há ainda que somar cerca de 50.000 garrafas do Rosé Selection. A empresa engarrafa toda a sua produção de uva e mantém igualmente a marca Quatro Caminhos, agora em exclusivo para as lojas da cadeia Pingo Doce.

Este ano foi recheado de novidades na área do vinho com o reposicionamento da marca com o Selection e os lançamentos do Espumante Bruto de Antão Vaz e Arinto, bem como do primeiro monovarietal da HMR – o Alicante Bouschet – “proveniente de uvas de várias parcelas que temos na Herdade”, conta Mariana Carmona e Costa salientando que “a ideia é fazermos monovarietais, desta ou de outra casta, em anos em que houver algo que sobressaia, num patamar de qualidade fora de série”.

Tudo é feito na herdade, uma vez que, quando plantou as vinhas, Victor Carmona e Costa construiu também a adega, que, já na altura, era inovadora porque funcionava por gravidade, por conselho do enólogo consultor João Portugal Ramos, que trabalhava em conjunto com Rui Reguinga.

Desde 2011, na nova fase dos vinhos da HMR, a adega foi renovada e modernizada e os vinhos são elaborados pela mão do enólogo consultor é Luís Duarte, em parceria com Nuno Elias, o enólogo residente.

A aposta no azeite Pousio

Mariana Carmona e Costa teve um papel fundamental no nascimento do azeite Pousio: é engenheira agrícola, pela Universidade de Évora, e fez a primeira pós-graduação em Olivicultura, Azeite e Azeitona no Instituto Superior de Agronomia (ISA), sob a orientação do Prof. José Gouveia. Assim, quando entra para a empresa dedica-se à reconversão e reestruturação dos olivais em termos produtivos e fitossanitários.

Pela sua mão, a HMR começa a produzir o próprio azeite – no lagar da então Cooperativa Agrícola da Vidigueira, hoje Vidcavea – e a vender a granel para Itália e Espanha. Quando o potencial do produto já era um aspeto claro, a diretora agrícola sugere passar a engarrafar o azeite. À imagem dos vinhos da Herdade, nasce o azeite Pousio.

O primeiro lote de 1.000 litros sai em 2013 e no ano seguinte a empresa começa a bater recordes de produção. Em 2016, a Herdade aposta em aumentar a produção, melhorar a imagem e colocar o azeite à venda em hipermercados, o que leva à criação de dois lotes: o Pousio e o Pousio Premium.

Exportação já representa 35%

A produção de azeite embalado tem vindo sempre a aumentar, chegando em 2017 a cerca de 40.000 litros, mas isso representa apenas 30% da produção, o resto continua a ser exportado a granel.

O azeite aproveita os canais já abertos pela área comercial do vinho, sendo o mercado nacional o principal, com o HoReCa a pesar cerca de 85% nas vendas, tanto do vinho como do azeite. Na grande distribuição o Pousio está no Continente e no El Corte Inglés e pode-se encontrar ainda em garrafeiras e lojas da especialidade.

António Nora adianta-nos que “as exportações têm vindo a aumentar de forma consistente, representando agora cerca de 35% da faturação”, sendo Canadá, Estados Unidos, Brasil, Bélgica, Suíça e México os principais destinos.

A HMR tem também uma loja online no seu site, “onde o cliente pode fazer um mix de vinhos ou de vinhos e azeites e em compras de 30€ oferecemos os portes de envio”, revela Mariana Carmona e Costa.

Colher a Galega ainda ‘verde’ e fresca

Como tudo atrasou algumas semanas este ano, quando visitámos a Herdade, a campanha da apanha da azeitona estava no início. “Começámos pela Galega nos nossos olivais tradicionais de sequeiro, porque queremos manter o seu caráter mais fresco e ‘verde’”, explica a diretora agrícola, adiantando que “no olival superintensivo a colheita é mecânica, mas nestes olivais, e também nos intensivos, é feita com o vibrador, o trator e com os trabalhadores com algumas varas a ajudar e a segurar nos panos para recolher a azeitona”. Mariana Carmona e Costa frisa que “na vindima ou na campanha da azeitona preferimos sempre dar primazia às pessoas da região, pelo que muitas são familiares, vizinhos ou amigos dos nossos 12 colaboradores que estão connosco há 20 ou mais anos”, por isso, muitos deles ainda a tratam por Marianita, uma vez que a viram crescer na herdade dos tios-avós. “Pagamos acima da média do mercado mas temos trabalhadores em quem confiamos a 100%”, diz Mariana, sublinhando que “o meu braço direito já está reformado mas continua a ajudar-me”.

A nova vida da Herdade Monte da Ribeira

A HMR tem 210 hectares de olival, sendo 24 de superintensivo regado, da cultivar Albequina; 86 de olival intensivo, também regado, de Cobrançosa, com um pouco de Picual e Cordovil e nos cerca de 100 hectares de olival tradicional de sequeiro reina a Galega, com alguns apontamentos de Verdeal e Bico de Corvo.

Água limita aumento da produção

A diretora agrícola da Herdade do Monte da Ribeira conta-nos que, “não estamos, por agora, a pensar aumentar a área de vinha, mas a de olival irá certamente crescer a partir de 2022, quando tivermos acesso à água de Alqueva porque nos últimos anos já tivemos de gerir muito bem a rega para não nos faltar a água”.

A responsável adianta que “temos um camião próprio que carrega a azeitona e a leva para o lagar, na Vidigueira, sendo laborada no próprio dia”.

A sustentabilidade começa a ser uma preocupação da diretora agrícola, “principalmente porque temos solos pobres em matéria orgânica, assim, em conjunto com a Fertiprado semeámos há dois anos na entrelinha da vinha uma consociação preparada para ser depois cortada e incorporada no solo e agora temos vindo sempre a manter a vegetação da entrelinha no inverno, só a cortando quando começa a concorrer com a vinha”.

No olival, principalmente no superintensivo mas também na restante área, “a seguir à colheita tratamos com cobre ou calda bordalesa para sarar as feridas que as máquinas e vibradores possam ter feito e todo o material das podas fica também no terreno para ser depois incorporado”.

Na área de floresta, Mariana lamenta não poder fazer muito porque os investimentos são muito elevados e não há fundos disponíveis. “Tiramos a cortiça e tento sempre todos os anos manter os aceiros limpos, bem como outras faixas de terreno, recorrendo a projetos para zonas desfavorecidas, mas gastar cerca de 5.000€/ano numa área de mais de 700 hectares é uma gota de água”. A diretora agrícola da HMR adianta que “vamos conseguindo com que nos façam vários trabalhos em troca da madeira de pinho, ou das podas, e ainda da apanha da bolota”, e lamenta que “a REN continua a não vir limpar as áreas debaixo das linhas de alta tensão, apesar de já os ter contactado diversas vezes”.