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Entrevista

Câmara Agrícola Lusófona: “ É preciso desconstruir mitos”

As oportunidades de negócio no espaço da lusofonia são enormes e as empresas nacionais estão distraídas em relação ao potencial na produção e transformação na área agro. A convicção é do presidente da CAL, Jorge Santos, que tem estado a apostar nos últimos meses em missões empresariais para dar a conhecer aos empresários portugueses a realidade ‘desconhecida’ destes países.

 

Estão a investir em missões empresariais no espaço da lusofonia. Olhando para este mapa onde é que estão as oportunidades de negócio?

Contrariamente áquilo que muitas vezes se fala e se especula nós temos a tendência de cair num discurso fácil de dizer que já conhecemos África por razões históricas e culturais. Mas aquilo que é a nossa experiência é de que ainda há um desconhecimento grande por parte dos empresários portugueses em relação a África. Ainda estão por descobrir as verdadeiras oportunidades de África. O continente africano, e se nos abstivermos do Brasil, que é uma situação à parte, tem um conjunto de oportunidades que as empresas portuguesas ainda não descobriram. E ainda não se tem consciência do que África tem para oferecer. 70% das empresas que levamos nas nossas missões não conheciam África e ficam surpreendidas com o que encontram.

Surpreendidos com o potencial?

O potencial é grande, o conhecimento é desvirtuado pela realidade. Por exemplo, a Guiné Bissau peca por aquilo que se pode chamar de ‘má fama’. É conhecida por aquilo que sai na imprensa e pela instabilidade política e isso faz com que tudo o resto fique para segundo plano. Se levarmos as empresas à Guiné Bissau as pessoas percebem que há um conjunto de oportunidades que neste momento existem ao nível dos produtos agroalimentares e da produção agrícola. Os principais investimentos da Guiné Bissau são espanhóis. E estou a falar de investimentos em produção e transformação na área hortofrutícola: mangas, papaias, uva de mesa… As pessoas esquecem-se que a Guiné está a quatro horas de avião de Portugal. Tem instabilidade política? Tem, mas o país não para e esta instabilidade política não cria insegurança. A verdade é que o país funciona, as oportunidades de negócio estão lá, o comércio funciona. E mais, a Guiné envolve uma geografia que é a da EMOA [União Económica e Monetária do Oeste Africano] e da EOL, estamos a falar de 350 milhões de habitantes e potenciais compradores. No caso da Guiné não tem risco cambial, a mesma moeda hoje valerá o mesmo daqui a cinco anos, não sofre desvalorização. Depois, estamos a falar de investimentos na ordem dos 20/30 milhões de euros no setor orizícola, os espanhóis estão a fazê-lo e as empresas portuguesas andam distraídas. A situação política não pode ser um entrave…

Mas é fácil abrir uma empresa lá?

É o país mais fácil. Abre-se uma empresa numa hora na Guiné, sei por experiência própria e essa facilidade não encontra em mais nenhum país. Tem um ‘guiché criação de empresa’, no mesmo guiché tem licenciamentos e alvarás e pode criar a empresa e aprovar o nome, o mesmo que faz um centro de formalidades de empresas cá. Têm dois tipos de estatutos, sociedades anónimas e limitadas, escolhe-se e faz-se a escritura na hora. Tem outra facilidade, abre uma empresa e fica com visto de residente por cinco anos.

“Se olharmos para uma commodity como o trigo, Angola não importa grão porque não tem uma única moageira. Importa farinha, deve importar cerca de 500 milhões de euros em farinha para produzir pão. Imagine só o que era desenvolver a fileira do trigo para evitar estas importações. E ninguém está a fazer isto.”

E questões de mão-de-obra? A questão da produtividade coloca-se?

Sim, acho que isso é algo que o empresário tem de ter consciente. A mão-de-obra em África tem de ser de alguma forma acompanhada e formada e a partir do momento em que é acompanhada as pessoas produzem. Não podemos dizer que é o mesmo rendimento que o nosso, é diferente, é menor, mas as pessoas estão disponíveis para aprender e têm interesse em aprender e desde que bem orientadas produzem. Temos é que estar preparados e desconstruir alguns mitos. Em primeiro lugar a ideia de que “eu faço isto cá com sucesso e por isso vou fazer isto lá igual”, este pensamento é 90% para bater com a cabeça na parede. A realidade de África é outra, as pessoas têm de ter consciência que a realidade é diferente e o rendimento das pessoas também. No caso da Guiné Bissau, é um país que importa hoje 290 milhões de produtos agroalimentares e, destes, exportamos 16 milhões.

Importam essencialmente o quê?

Os produtos são praticamente transversais a todos os países, muito frango congelado, depois o vinho, a cerveja, ovos, águas e óleo de soja. É o 53º país que mais importa do mundo. Os Holandeses tem uma quota superior a Portugal em termos de produtos agroalimentares. Tem uma vocação comercial tremenda e um peso fundamental…

Regressando às oportunidades de negócio, existem dois eixos: o primeiro é exportar produtos e a segunda é investir em produção e transformação agroalimentar…

Sim, se olharmos para países como Angola, em termos daquilo que é o potencial, é o país com a maior área de terra e maior rede hidrográfica de todos os países dos PALOP. De longe é o que mais água tem para produzir o ano inteiro. Não estou a dizer em termos de infraestruturas construídas. Não é o país mais avançado nesse capítulo mas tem água dos rios para produzir. Se olharmos para uma commoditie como o trigo, Angola não importa grão porque não tem uma única moageira em Angola. Importa farinha, deve importar cerca de 500 milhões de euros em farinha para produzir pão. Imagine só o que era desenvolver a fileira do trigo para evitar estas importações. E ninguém está a fazer isto.

Não há estrangeiros a investir nessas áreas?

Há portugueses, como a Agrolider, que estão a produzir desde leite a hortícolas e frutas, no Kuanza Sul, temos a indústria de carnes Primor, a Luís Vicente, há uma panóplia de empresas portuguesas. Mas se olharmos para a história, para aquilo que é hoje a lusofonia e aquilo que são hoje os PALOP, Portugal tem a mesma dificuldade que tinha na época colonial, ou seja, não tem capacidade para agarrar as oportunidades que tem, esse é o grande problema: a nossa massa crítica em termos de capacidade é limitada. Uma das estratégias que temos é que os empresários portugueses possam de alguma forma fazer parcerias e criar sinergias com empresários brasileiros, espanhóis, alemães que queiram investir em África e utilizem a nossa plataforma em Portugal para investir, porque em termos de investimento temos as nossas limitações, temos de reconhecer isso.

O problema é o financiamento?

Sim, não temos grandes meios financeiros. Só temos uma multilateral, é a única que existe em Portugal para financiar projetos.

O que é que chama exatamente de multilateral?

É uma entidade financeira, pode ser um banco, um fundo, uma private equity, que financia projetos em mercados emergentes, que não é um banco comercial de investimento, mas está vocacionado para isso. Neste caso existe apenas a SOFID [Sociedade Financeira para o Desenvolvimento] que é constituída pelos maiores bancos comerciais e pelo Estado, mas a grande dotação é para Moçambique através do Invest(Moç), que tem uma dotação de 100 milhões de euros para investir,  mas não há muitos projetos… Já se investiu em várias áreas de mercado sem ser na agricultura. Esta é a única multilateral que existe em Portugal, e se olharmos para os outros países há várias. Aquilo que defendemos na CPLP é a criação de um grande banco de desenvolvimento, em que todos os Estados fossem acionistas, e tivesse no mínimo uma dotação de 500 ou 600 milhões de euros, o ideal seria 1000 milhões, para poder investir a sério nestes mercados. Temos de olhar para estes mercados que são fundamentais porque se olharmos para a crise de 2008, se algumas empresas conseguiram não fechar portas isso deveu-se ao facto de grande parte da sua faturação estar a ser feita nestes mercados. Precisamos desses mercados, mas há um trabalho no setor agroalimentar que tem de ser feito. Temos um programa que se chama Programa de Internacionalização Agronegócios CPLP, que assenta em quatro vetores fundamentais: logística, conhecimento das empresas no local, a legislação é fundamental, por isso nas nossas visitas temos sempre uma reunião com um escritório de advogados e a parte do investimento estrangeiro. Até porque uma das coisas que queremos é que façam o contacto com as empresas locais.

Um empresário não pode olhar para estes mercados como olha para um mercado maduro como o brasileiro ou o europeu. Há negócios que se fazem com o Estado, a nível de concurso público, outros que se fazem a nível de concursos internacionais. É preciso formar os empresários. São economias que funcionam muito com doações, em alguns 90% dos orçamentos são doações internacionais, só a Guiné Bissau recebeu 1.5 biliões da comunidade internacional, isto é histórico no PALOP, e as pessoas têm de perceber que muitas vezes é preciso falar com ministros porque há concursos que dependem disso. A Guiné Bissau vai abrir agora um concurso público para 1200 tratores, mas existe uma obrigação, a empresa que vai a concurso tem de ter lá representação para fazer a manutenção das máquinas. Por isso não há nenhuma empresa portuguesa a envolver-se neste projeto e este é um trabalho que nós fazemos. E por isso entregamos um dossier completo com tudo o que as pessoas precisam de saber sobre o país. Nessas missões fazemos sempre um seminário onde juntamos a banca, os advogados, empresários e juntamos as pessoas para networking e para tirar dúvidas.

Jorge Santos CAL - Vida Rural

Falou-se muito de Moçambique e houve alguns investimentos nos últimos anos, mas parece que a instabilidade política fez arrefecer muito o cenário de investimento… continua a ser um mercado com muito potencial?

É um mercado muito interessante. Vivi muitos anos em Moçambique numa altura em que se vivia um período conturbado e não tem nada a ver com o ciclo que se vive hoje. Há uma situação política, é verdade, não vale a pena escamotear… mas o que se passa é algo que já vem de trás. Moçambique neste momento tem três variantes que não existiam. Eu vivi lá entre e 1997 e 2007 e nesse período nunca se ouviu falar nestas três commodities: carvão, gás natural, tem as terceiras maiores jazidas de gás natural do mundo e o petróleo. O que vai acontecer nos próximos anos vai ser revolucionário e vai exigir muito investimento. Com os investimentos que estão a ser feitos o potencial vai ser brutal. Por outro lado, as megas infraestruturas que não se desenvolviam no meu tempo estão feitas, o corredor da Beira e da Nampula, está a ser feito com outras linhas, o porto de Nâmpula borbulha com grande dinamismo. Há um potencial enorme em especial na região norte que e as empresas do setor agro vão ser fundamentais. Nós portugueses temos uma visão muito saudosista e ainda muito emocional com estes países e caímos no tal discurso fácil e o que se fala em Portugal não é bem o que se vive lá. Falta dinheiro, mas há muito desconhecimento.

Angola ainda é uma oportunidade?

Claro que é. Está a passar por algumas dificuldades essencialmente por problemas de divisas, não tem liquidez no mercado e a sua economia está dependente do petróleo… Não se investiu noutras áreas esta dependência reflete-se. Angola importa 3.21 biliões de produtos e nós somos responsáveis por 19%, cerca de 730 milhões, mas já foi 1.5 biliões. Baixou nos últimos anos. E aqui temos cervejas, vinhos, enchidos, óleo de soja, refrigerantes… São mercados muito importantes. Hoje para ter uma ideia, o PIB dos países da CPLP anda pelos 2.6 biliões. A percentagem de peso no PIB mundial não chega a 4%. Se olharmos para os números, 2% do comércio mundial está nesta comunidade. Não vejo uma estratégia política forte de apoio às empresas para a internacionalização a nível de financiamento. Se houvessem linhas de apoio podíamos investir muito mais. A nossa multilateral só tem 110 milhões, 100 são para Moçambique, devido aos acordos de Cahora Bassa, sobram 10 milhões para os outros países.

E Cabo Verde e S. Tomé, com o turismo a crescer?

Cabo Verde é um país interessante, importa tudo na área agrícola, mas há dois grandes parceiros concorrentes que são a Espanha e Itália, devido às cadeias hoteleiras que estão lá. As tradings que fornecem a hotelaria de Cabo Verde estão todas nas ilhas Canárias, que funciona como plataforma de fornecimento. Apesar disso, metade das importações deles têm como origem Portugal. Importam 120 milhões de agroalimentar e nós exportamos óleo de soja, cerveja, leite, vinhos, sumos e azeite.

São Tomé é um país pequeno, tem 68 milhões de importações no total, destes 36 milhões são produtos agroalimentares e nós fornecemos 30 milhões. Há uma relação comercial muito grande, quase dominante. Se olharmos para o setor agrícola como um todo e juntarmos fatores de produção como os fertilizantes, pesticidas e máquinas e equipamentos temos 50 milhões. Pouca gente sabe mas há uma linha de crédito que vai ser agora disponibilizada de 10 milhões de euros, gerida pela Caixa Geral de Depósitos e pelo Banco Internacional de S. Tomé, e esse montante servirá para ajudar as empresas portuguesas a exportar. E nós temos de olhar para isto.

“Vemos que há mais interesse a nível político de abrir relações com a Guiné Equatorial, até porque tem um potencial enorme para desbravar: é o terceiro produtor de petróleo e tem o maior PIB per capita de África.”

Uma coisa é exportar outra coisa é estar no mercado, ter presença, ter um armazém, uma pequena indústria, ganhar visibilidade, ter uma quota de mercado e estar na zona de conforto que é o chamado negócio de contentor. Esse é o grande desafio. Muitas vezes as pessoas dizem que há um mercado informal, mas o que é certo é que qualquer pessoa pode faturar 10 a 15 mil dólares por dia a vender arroz, óleo, os mais diversos produtos alimentares. Existe um outro país que é esquecido e está longe que é Timor. Importa 82 milhões de euros de produtos agroalimentares em mas aqui a dificuldade é a distância e há dois países concorrentes, a Austrália e a Indonésia. Mas exportamos 1 milhão, essencialmente de vinho, azeite e enchidos. Mas podemos exportar muito mais.

Vão apostar agora ainda na Guiné Equatorial…

Sim, é um país que importa quase 400 milhões de produtos agroalimentares. E nós não exportamos nem 2 milhões. Neste momento vemos que há mais interesse a nível político de abrir relações com a Guine Equatorial, até tem um potencial enorme para desbravar: é o terceiro produtor de petróleo e tem o maior PIB per capita de África. Tem procura de produtos já de 4ª gama, belíssimas infraestruturas, gente com dinheiro que quer comprar produtos diferenciadores. Eu diria que Portugal tem muitos produtos aliciantes para esta procura e que podemos e devemos reforçar nestas geografias. Em Moçambique por exemplo, penso que a indústria de rações tem um potencial enorme e devia olhar para estas oportunidades. Começa a haver classe média com dinheiro. Mas os empresários não se associam, as pessoas acomodam-se e somos muito individualistas.

Esse é um ponto crítico? Uma falta de organização que não permite ir com mais força e escala para estes países? 

Estamos a fazer um grande esforço nesse sentido e já falámos com todas as organizações de cúpula. Somos a maior plataforma de agronegócios dentro da CPLP. Não há outra como a nossa e nem com estas características. Na nossa génese enquanto organização estão todos os países representados. Aquilo que é a grande diferença é que temos as organizações e associações destes países como nossos parceiros.

Mas do lado dos empresários portugueses, a falta de investimento não tem a ver com a dimensão que não permite estar em força?

Acho que o setor agroalimentar não tem sido prioridade na lusofonia. Daí a nossa aposta, neste programa de internacionalização que tem uma dotação de 700.000 euros que iniciamos em 2015 e que acaba no final deste. Aquilo que verificamos nas empresas que levamos nas missões é que o setor tem de ser provido com missões multisetoriais para ganhar massa crítica. O empresário é por si só individualista. Uma das coisas que defendemos nestas missões é nas vendas em consórcio, as pessoas não podem ter a ambição…

Mas em concreto, já aconteceu depois das vossas missões, empresas associarem-se para fazer negócios lá?

Temos um caso desses, duas empresas que fizeram negócio durante a missão em conjunto. Nós promovemos a criação de uma agência de comércio agroalimentar que faz vendas em consórcio e faz a parte de contentorização, tem uma plataforma logística no Oeste para empresas que não estão vocacionadas para exportar mas para produzir. Estamos a ajudar empresas que não tem vocação para exportar mas que têm produtos que podem ser exportados. Vendas a granel qualquer cooperativa faz. Não se embala mais porque é um empate de capital brutal. Esse é outro desafio, conseguir auxiliar as empresas a estar nesses mercados. Penso que empresas de produtos diferentes, não concorrentes, deviam juntar-se para vender nestes mercados em conjunto. Vinho, azeite, charcutaria, frutas. Nada disto é concorrencial e há empresários que já estão a dar esse passo. O Portugal 2020 está a promover isso e esse deve ser o nosso caminho. Mas temos de dar capacidade financeira às empresas porque se queremos estar nestes mercados e se queremos reforçar a nossa presença temos de ter essa capacidade. Mas a massa financeira necessária só está disponível se as pessoas se associarem.

Há uma coisa que temos, e aí acho que somos únicos, as empresas portuguesas e os empresários portugueses tem a capacidade única de entrar nestes mercados como ninguém. O Brasil tem know how, tem capacidade financeira, tem tudo para ir para África mas tem uma dificuldade enorme em chegar lá, é muito difícil para eles, há algumas empresas na área agro em Angola e Moçambique mas ainda poucas, o Brasil podia ter um papel importante e determinante nesta motivação de trazer empresas para estes países, eles são gigantes na pecuária e nas oleaginosas, era importante que pudessem estar lá. Chegamos a estes países e sentimo-nos de alguma forma sem capacidade. As oportunidades são enormes mas por outro lado a nossa capacidade de resposta enquanto empresários é diminuta, há uma certa impotência em fazer face ao que é o potencial destes países.

Artigo publicado na edição de abril de 2016 da revista VIDA RURAL