Doenças e Pragas

Estenfiliose preocupa mais que Fogo Bacteriano

Ainda pouco estudada no nosso país, a Estenfiliose é uma das principais causas da quebra de produtividade em frutícolas como a pera Rocha. Domingos Santos, presidente da Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas (FNOP), em representação da Frutoeste – Cooperativa Agrícola de Hortofruticultores do Oeste, revela que apesar do Fogo Bacteriano ser a doença mais falada na região, “a Estenfiliose, ou a Traça da flor do Limoeiro, preocupa-nos muito mais, porque têm causado muitos prejuízos”.

Sobre a Estenfiliose, Domingos Santos refere que “tem tido um impacto muito grave na cultura da pera rocha nos últimos dois anos, cuja produção teve uma quebra de 40% a 50% este ano face à campanha passada, sendo que cerca de 20% se devem a esta doença”.

O Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional (COTHN) afirma, no seu site, que “a presença de Estenfiliose da pereira tem sido posta em evidência nos últimos anos, como resultado de condições climáticas favoráveis ao seu desenvolvimento, bem como do aumento do inóculo presente nos pomares, em virtude de não se efetuarem tratamentos dirigidos para o seu combate”.

Maria do Carmo Martins, do COHTN explica-nos que a doença “tem estado atualmente a causar problemas na região Oeste de dimensão que não era expectável” e adianta: “desconfiamos que várias estirpes que não eram patogénicas para a pereira, com alterações climáticas e outros fatores, agora começaram a atacar”.

A Estenfiliose é um fungo de difícil combate, pois não se conhecem perfeitamente as condições ótimas para o seu desenvolvimento e não existem fungicidas com ação curativa, refere o COTHN no site. “Os meios de luta cultural preconizados para esta doença são de diversas ordens, nomeadamente: corrigir as cloroses e melhorar a nutrição das árvores; evitar solos húmidos e mal drenados; recolher e eliminar todos os frutos atacados e caídos no solo; enterrar as folhas das árvores atacadas e aplicar produtos que favoreçam a decomposição das folhas, no outono (pex. ureia)”, diz a entidade, acrescentando que “em termos de luta química, recomendam-se aplicações preventivas de tirame, desde a queda das pétalas até à colheita complementando a proteção para o pedrado sempre que as condições climáticas sejam favoráveis ao desenvolvimento da doença. O período de maior suscetibilidade verifica-se de maio a julho, principalmente no caso de ocorrerem precipitações frequentes. O cresoximemetilo também apresenta alguma ação sobre esta doença”.

A técnica diz-nos ainda que “o COTHN em conjunto com o Instituto Superior de Agronomia, a Escola Superior Agrária de Castelo Branco e várias Organizações de Produtores está a estudar a Estenfiliose, as suas estirpes, a resistência aos fungicidas, e a verificar se as alterações climáticas levaram a uma mudança do ciclo da doença”. Maria do Carmo Martins salienta que “temos de validar os modelos que já tínhamos para esta doença e ajustá-los às mudanças: temperaturas mais altas e mais períodos de seca, mas com humidade elevada, como aconteceu este ano. Precisamos de saber para posicionarmos os meios de luta”.

Fogo Bacteriano (quase) controlado

Sobre a doença que em 2010 e 2011 teve uma grande incidência na região Oeste, afetando principalmente a pera rocha, Maria do Carmo Martins diz que “continua a ser preocupante porque não há tratamento totalmente eficaz, pelo que a prevenção é muito importante, nomeadamente várias práticas que têm de ser implementadas”, mas “a pera rocha tem algum grau de resistência, pelo que o Fogo Bacteriano acaba por não ter uma progressão tão rápida como noutras variedades de pera”.

Já Domingos Santos refere que “há cinco anos foi feito um trabalho muito interessante pelo COTHN, as OP, e várias entidades oficiais, como Juntas de Freguesia, de forma a transmitir informação aos produtores e neste momento temos ferramentas e produtos para prevenção”.

O Fogo Bacteriano é uma doença causada pela bactéria Erwinia amylovora e é considerada um organismo nocivo de quarentena a nível comunitário, afetando várias espécies vegetais, entre as quais macieiras, pereiras, marmeleiros e nespereiras, assim como algumas espécies de plantas ornamentais muito comuns no nosso país, como sejam os pirliteiros, piracanta, cotoneaster, entre outras, refere o Plano de Ação Nacional para o Controlo do Fogo Bacteriano, lançado em 2012.

Fogo Bacteriano - Pera Rocha

Segundo informação enviada por Catarina Rosário da Associação Nacional de Produtores de Pera Rocha (ANP) e por Maria do Carmo Martins, a doença tem tido incidência em Alcobaça, Cadaval (Painho e Alguber), Óbidos/Caldas da Rainha (A-dos-Francos e Landal), Torres Vedras (Runa) e Lourinhã (Moita dos Ferreiros). Catarina Rosário salienta que as “principais ações a tomar pelos agricultores é observar, limpar imediatamente e queimar. O enfoque deve ser na limpeza e não na luta química, pois esta tem resultados muito limitados face ao custo. O sucesso do controlo depende da rapidez de ação!” e a responsável adianta que deve ser feita “aplicação de hipoclorito para desinfeção do equipamento e dos cortes efetuados e nas árvores onde a infeção chegou ao tronco, deve-se cortar um palmo acima do pé, evita-se desta forma a propagação da doença e no próximo ano a árvore pode regenerar-se. Substâncias ativas como Oxicloreto de cobre, Hidróxido de cobre e Fosetil-aluminio são utilizadas em tratamentos preventivos”.

Confirmando o que o presidente da FNOP já nos tinha dito, Maria do Carmo Martins, do COTHN, não deixa também de referir que tanto a Traça da flor do Limoeiro, como a Drosophila Susukii (Mosca da Fruta), no caso dos pequenos e da cereja, têm feito alguns prejuízos.

“A Traça da flor do Limoeiro tem causado problemas no Oeste e, embora não seja uma praga nova, não há soluções para o seu controlo” e Domingos Santos acrescenta: “e a luta biológica não funciona”. Já sobre a Mosca da Fruta, a técnica do COTHN salienta que “é muito prolífica, tendo também começado recentemente a atacar os pequenos frutos, enquanto na cereja causou prejuízos nesta última campanha, e não temos igualmente produtos homologados”.