Novas Culturas

O comportamento da cultura da figueira-da-índia no Baixo Alentejo

A Opuntia ficus-indica (L.) Mill, com a denominação de figueira-da-índia em Portugal, que até algum tempo atrás era conhecida como uma planta espontânea, invasora e marginal, começa agora a ser vista de outra forma. É considerada pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), como uma planta introduzida (Dec.-lei n.º 565/99). Atualmente começa a integrar a fileira económica da fruticultura no nosso país, principalmente a sul do Tejo, onde já aparece como planta cultivada.

A Opuntia ficus-indica (L.) Mill (OFI) apresenta um elevado potencial biológico, possuindo (Sapata et al. s/d):

  • as raízes – propriedades antioxidantes e antiulcerogénicas;
  • os cladódios – um efeito cicatrizante, anti-inflamatório, hepatoprotetor, antiulcerose, hipoglicemiante e diurético;
  • os frutos – ação antioxidante, anti-inflamatória, diurética e antiúrica, antiulcerogénica, anticancerígena, protetora cardiovascular, hepatocolesterémica, hipoprotombinémica;
  • as sementes – ação anticolesterémica e hipoglicemiante;
  • as flores – um efeito diurético e antiúrico.

O fruto possui um grande valor nutricional, sendo rico em fibras, hidratos de carbono solúveis, cálcio, ferro, magnésio, fósforo e potássio e em vitaminas, principalmente A, C e B3. É também uma fonte de compostos bioativos, como as betalaínas e os polifenóis (Sapata et al. s/d).

Devido a estes aspetos, começa a haver um grande interesse no cultivo da figueira-da-índia no nosso país, nomeadamente no Alentejo, mas muito pouco se sabe acerca do seu comportamento nas nossas condições edafoclimáticas.

Desta forma, instalaram-se dois ensaios, um no Centro Hortofrutícola da Escola Superior Agrária de Beja (ensaio 1) e outro numa exploração de um agricultor (ensaio 2), no sentido de estudar o comportamento da figueira-da-índia no Baixo Alentejo, na região de Beja.

Os resultados existentes ainda são muito pouco significativos, mas dada a importância crescente da cultura e o interesse demonstrado por muitos agricultores na sua plantação, considera-se que a publicação destes dados poderá, de alguma forma, ajudar alguns dos interessados na figueira-da-índia.

ENSAIO 1

Material e métodos

O ensaio 1 foi instalado em janeiro de 2013 e teve como objetivo o estudo do comportamento da cultura da figueira-da-índia com dois compassos: 4 m x 3 m (830 plantas/ha) e 4 m x 1,5 m (1660 plantas/ha).

O ensaio foi instalado em sequeiro, numa área de 540 m2 em blocos causalizados com três repetições.

Cerca de um mês antes da plantação, procedeu-se à recolha dos cladódios de plantas produtoras de frutos de polpa e epiderme verde, num talude situado na região de Estremoz. De seguida foram guardados num local com pouca luminosidade, com boas condições de arejamento e temperatura de modo a perderem alguma humidade (turgescência) e cicatrizarem nas zonas do corte, de forma a enraizarem com maior facilidade e evitarem-se problemas provocados por fungos.

Comprimento longitudinal médio do fruto

Figura 1 – Comprimento longitudinal médio do fruto

Efetuou-se a preparação do solo, através de uma lavoura seguida de uma gradagem e posteriormente a abertura das covas com uma broca acoplada ao trator. Realizou-se a plantação manual, enterrando metade do cladódio, com a parte plana virada para a entrelinha. De seguida, procedeu-se a uma rega manual, de forma a provocar um maior contacto do cladódio com o solo.

Como já foi referido, estas operações ocorreram em janeiro, não sendo esta a altura mais indicada para a plantação, a qual deve ser feita na primavera. O solo apresentava excesso de água, o que conduziu à perda de alguns cladódios, que tiveram que ser retanchados.

No decorrer do ensaio realizou-se o controlo de infestantes com um destroçador de martelos na entrelinha e com um roçador manual na linha.

Efetuou-se o acompanhamento do ensaio, registando:

–  as diferentes fases do desenvolvimento vegetativo da planta;

–  número, comprimento longitudinal e comprimento transversal dos cladódios;

–  número, comprimento longitudinal, comprimento transversal, cor da epiderme e da polpa, presença de sementes, peso, teor de sólidos solúveis totais e dureza dos frutos.

Apresentação e discussão dos resultados

De seguida apresentam-se os resultados obtidos no ensaio.

Diferentes fases do desenvolvimento vegetativo da planta

A taxa de pegamento das plantas, determinada no mês de abril, foi de 63,8%.

Em maio ocorreu um grande desenvolvimento das aréolas. Verificou-se a diferenciação floral de algumas aréolas (gomos florais), que deram origem a uma flor e posteriormente a um fruto. Outras aréolas (gomos foliares) originaram um novo cladódio.

No mês de junho, alguns cladódios apresentavam sinais de desidratação, estavam enrugados e dobrados. Os cladódios que tinham sido plantados nas zonas antes encharcadas apresentavam um aspeto mais vigoroso.

Em julho notou-se um grande desenvolvimento dos cladódios novos. Os poucos frutos que vingaram apresentaram também um desenvolvimento mais acentuado neste período. Em agosto começou a notar-se a queda dos frutos, que se acentuou em setembro.

Cladódios

De acordo com a análise de variância, o compasso teve um efeito estatisticamente não significativo (p ≥ 0,05), sobre o número, comprimento transversal, e comprimento longitudinal dos cladódios.

Fruto

De acordo com a análise de variância, o compasso teve um efeito não significativo (p ≥ 0,05), sobre o número de frutos obtidos por planta e sobre o comprimento transversal do fruto. Teve, no entanto, um efeito estatisticamente significativo (p ≤ 0,05) sobre o comprimento longitudinal do fruto (fig. 1).

De acordo com a figura 1, obtiveram-se frutos com o comprimento longitudinal médio superior no compasso 4 m x 3 m, com um valor de 5,7 cm comparativamente ao do compasso 4 m x 1,5 m, cujo comprimento longitudinal foi de 4,9 cm, valores médios inferiores aos obtidos por Alves (2011), que foram de 6,28 cm.

Dos frutos provenientes de plantas do ensaio, obtiveram-se os resultados apresentados no quadro 1.

O teor de Sólidos Solúveis Totais (SST) de 14,5% obtido nos frutos colhidos tardiamente no ensaio estudado situa-se entre os valores referidos por Inglese (2014) para este parâmetro que foram: 14,9% em plantas até 1 m; 15,0% para plantas até 2 m; e valores de 15,7% para plantas entre 2 e 3 m de altura.

Em relação à dureza do fruto (resistência do fruto ao transporte), o valor apresentado foi de 2,53 kg/0,5 cm2, superior ao registado por (Alves, 2011), que obteve o valor máximo de 2,20 kg/0,5 cm2, no estudo comparativo de vários frutos.

Como se obtiveram poucos frutos no ensaio, optou-se por analisar os frutos das plantas-mãe, colhidos no início de fevereiro de 2014.

Desta amostragem, retiraram-se os valores médios, de algumas características qualitativas do fruto (quadro 2).

Observações em 13/10/12 (1.ª data)

Figura 2 – Observações em 13/10/12 (1.ª data)

Verificaram-se algumas diferenças, relativamente aos parâmetros estudados, entre os frutos do ensaio e os das plantas-mãe, o que se pode dever ao facto de estes terem sido produzidos em condições edafoclimáticas diferentes (Estremoz). A época de colheita não foi a mais indicada em ambos os casos.

A época de colheita decorrerá principalmente entre agosto e novembro, dependendo do estado de maturação do fruto.

Conclusões

As conclusões a retirar são as seguintes:

No compasso 4 m x 3 m, o comprimento longitudinal do fruto foi superior, o que poderá indicar que haverá vantagem em optar por compassos mais espaçados para obter frutos com maior calibre.

Podemos referir que os frutos de Opuntia ficus-indica (L.) Mill produzidas nas condições edafoclimáticas da região de Beja apresentaram valores considerados bons de Sólidos Solúveis Totais, embora não tenham sido colhidos na melhor época de colheita, que será entre agosto e novembro. Também apresentaram bons resultados no que se refere à dureza, ou seja, resistência ao transporte e manipulação.

Estes resultados são provenientes de uma cultura de sequeiro. No entanto, é importante realizar a rega durante o desenvolvimento do fruto. Pretende-se colocar o sistema de rega gota a gota neste ensaio, no futuro.

Deve-se referir que para a obtenção de resultados mais conclusivos, deve-se continuar a acompanhar o ensaio durante os próximos anos.

ENSAIO 2

Material e métodos

No ensaio 2 foram realizadas três datas de plantação (1.ª – 12/5/12; 2.ª – 3/6/12; 3.ª – 30/6/12), nas primeiras duas instalaram-se plantas produtoras de figos de polpa e epiderme verde e na última, plantaram-se os dois tipos de plantas (figos de polpa e epiderme verde e figos de polpa e epiderme laranja). O compasso utilizado foi de 5 m x 3 m.

Os cladódios foram adquiridos numa plantação espontânea, que constitui uma sebe junto a um caminho de terra batida, na região de Beja. Ficaram durante três semanas após a colheita, num local escuro e posteriormente foram plantados, quando já estavam desidratados e a zona do corte apresentava uma cor escura.

Observações em 13/10/12 (1.ª data)

Figura 3 – Observações em 13/10/12 (1.ª data)

A preparação do terreno consistiu numa lavoura, seguida de gradagem. Abriram-se regos e instalaram-se as plantas de acordo com o compasso, utilizando apenas um cladódio, com a parte plana virada para a entrelinha e enterrado até 2/3 da sua altura.

A partir de 30 de junho de 2012, iniciou-se a rega gota a gota. O período de rega foi de 2 h/dia até ao final do mês de agosto.

No decorrer do ensaio realizou-se o controlo de infestantes com um destroçador de martelos, na entrelinha e com um roçador manual na linha.

Efetuou-se o acompanhamento do ensaio, registando o desenvolvimento vegetativo das plantas, a qualidade do fruto e a secagem dos cladódios.

Apresentação e discussão dos resultados

Apresentam-se de seguida os resultados obtidos neste ensaio.

Desenvolvimento vegetativo da planta

As observações foram realizadas em 9 plantas de cada data de plantação, considerando 3 plantas por repetição.

Em outubro de 2012, fizeram-se as primeiras observações, passados 5-6 meses após a plantação, e verificou-se que o número médio de cladódios por planta variava entre os 5,6 e os 11,6, apresentando a 3.ª data de plantação, o valor mais alto para os frutos verdes.

As plantas produtoras de figos de epiderme e polpa laranja só foram plantadas na 3.ª data (30/6/12) e verificou-se que apresentavam uma tendência para terem um menor número de cladódios por planta, comparativamente com as plantas produtoras de figos de epiderme e polpa verdes plantadas na mesma data (fig. 2).

Verificou-se que a altura das plantas se situava entre os 61,0 e 78,6 cm, o comprimento dos cladódios entre os 24,6 cm e os 30,1 cm e a largura dos cladódios entre os 9,5 e os 17,7 cm (fig. 3).

As plantas mais altas foram as da 1.ª data de plantação (78,6 cm), produtoras de figos verdes.

Comparando as plantas produtoras de figos verdes e as produtoras de figos laranja plantadas na mesma data, verificou-se que estas últimas apresentavam uma menor altura.

Figura 4 - Observações em 19/5/13 (2.ª data)

Figura 4 – Observações em 19/5/13 (2.ª data)

Relativamente às plantas produtoras de figos verdes, os cladódios que apresentaram as maiores dimensões foram os da 1.ª data de plantação (comprimento – 28 cm; largura – 10,1 cm) (fig. 3).

Comparando os cladódios das plantas produtoras de figos verdes com os das plantas produtoras de figos laranja, plantadas na mesma data (30/6/12), verificou-se que os cladódios destas últimas têm um comprimento (30,1 cm) e uma largura (17,7 cm), muito superiores aos das produtoras de figos verdes (fig. 3).

Passados 7 meses (19/5/13), fizeram-se novamente observações para verificar o desenvolvimento vegetativo das plantas. O número de cladódios por planta aumentou. Relativamente, às plantas produtoras de figos de epiderme e polpa verde, esse aumento foi de 4,2 para a 1.ª data de plantação, 6,1 para a 2.ª data de plantação e de 14,8 para a 3.ª data de plantação. O maior aumento médio do número de cladódios (16,8) verificou-se nas plantas produtoras de figos de epiderme e polpa laranja plantadas em junho de 2012 (3.ª data de plantação).

Nas observações de 19/5/13, os resultados referentes ao comprimento e à largura dos cladódios são referentes aos cladódios novos.

Nestas observações, verificou-se que tinha havido um aumento de altura das plantas, tendo sido esse aumento muito superior para as plantas plantadas em junho (3.ª data), tanto no caso das produtoras de figos de epiderme e polpa verde (17,5 cm), como no caso das produtoras de figos de epiderme e polpa laranja (13,4 cm).

Podemos concluir que a data de plantação de 30/6/12, permitiu um maior desenvolvimento das plantas.

Qualidade do Fruto

Analisaram-se os frutos colhidos na primeira semana de setembro de 2014.

De acordo com o quadro 9, verifica-se que os frutos laranja apresentavam maior peso médio, maior diâmetro transversal e menor diâmetro longitudinal, maior percentagem de sólidos solúveis totais e menor acidez, comparativamente com os frutos de polpa verde.

Conclusões

Pode-se concluir que na primeira data de observações (13/10/12), as plantas produtoras de figos de epiderme e polpa laranja tinham uma altura menor, apresentavam um menor número de cladódios por planta, mas estes tinham maiores dimensões.

Verificou-se um aumento da altura das plantas e um aumento do número de cladódios da 1.ª data para a 2.ª data de observações. As plantas que apresentaram o maior aumento médio do número de cladódios (16,8) foram as produtoras de frutos laranja.

O maior aumento da altura das plantas verificou-se nas plantadas em junho, tanto no caso das produtoras de figos verdes como nas produtoras de figos laranja, podendo concluir-se que aquela será a melhor data de plantação.

Os frutos laranja apresentaram maior peso e maior percentagem de sólidos solúveis totais.

ENSAIO 3

Secagem dos cladódios

Fizeram-se ensaios de secagem dos cladódios para posterior moenda e obtenção de farinha.

Estes ensaios foram solicitados à ESAB no âmbito do Projeto: Opuntia ficus-indica, integrado no prémio Fundação Ilídio Pinho: Ciência na Escola – Ciência e Tecnologia para Rentabilização dos Recursos Naturais, dinamizado pelo Agrupamento de Escolas N.º 1 de Beja – Escola Básica Integrada de Santa Maria.

O principal objetivo destes ensaios foi o de determinar a temperatura ideal de secagem dos cladódios para obter uma farinha de qualidade. Estes valores seriam posteriormente utilizados na conceção de um secador.

Material e Métodos

Utilizaram-se cladódios provenientes de plantações antigas (mais de 50 anos) e cladódios, oriundos das plantas do 2.º ensaio (2 anos).

Os cladódios foram cortados, utilizando-se diversos tipos de cortes, nomeadamente: tiras com espessura de 0,8 cm e 2 cm; tiras com diferentes comprimentos e tiras com a epiderme e sem a epiderme.

Estas tiras foram colocadas numa estufa de secagem e sujeitas às temperaturas de 60 °C e 103 °C.

Para a moenda, utilizou-se um moinho de facas e a seguir um peneiro com a malha de 0,450 mm para a obtenção de uma granulometria mais uniforme.

Apresentação e discussão dos resultados

Os cladódios das plantas novas com a epiderme apresentavam 94% de humidade e aqueles aos quais foi retirada a epiderme continham 95% de humidade. Em relação aos cladódios das plantas velhas, verificou-se que os que mantiveram a epiderme tinham 93% de humidade e aqueles em que a epiderme foi retirada apresentaram 95% de humidade.

Destaca-se que as tiras mais finas apresentaram um maior rendimento na moenda o que pode ser importante ao definir a forma de preparar o material para a secagem.

A farinha obtida dos cladódios da plantação nova apresentou uma cor mais escura relativamente à dos cladódios da plantação mais antiga.

Figura 5 - Observações em 19/5/13 (2.ª data)

Figura 5 – Observações em 19/5/13 (2.ª data)

As tiras colocadas à temperatura de 103 °C ficaram secas e em boas condições para a moenda ao fim de 24 horas.

As tiras colocadas a 60 °C, ao fim de 72 horas estavam secas e em boas condições para a moenda.

A farinha obtida com secagem a 60 °C apresentou uma coloração mais clara (esverdeada) relativamente à secagem a 103 °C, em ambos os tipos de cladódios (plantação nova e antiga).

Finalmente, realizou-se mais um ensaio, com os mesmos procedimentos, mas utilizando a temperatura de 80 °C, intermédia relativamente às anteriores.

Ao fim de 17 horas os cladódios estavam secos e em boas condições para a moenda.

Neste caso, a farinha também apresentou uma coloração mais clara (esverdeada) relativamente à secagem a 103 °C.

Pode-se concluir que a temperatura de 80 °C era a mais adequada, tendo em conta que a secagem decorreu ao fim de 17 horas e obteve-se uma farinha de boa qualidade.

Referências

Alves, J.C.R. 2011. Perspetivas de utilização da figueira-da-índia no Alentejo: caracterização de Opuntia sp. no Litoral Alentejano e na Tapada da Ajuda e estudo da instalação de um pomar. Dissertação para a obtenção do grau de Mestre em Engenharia Agronómica. Instituto Superior de Agronomia. Lisboa.

Inglese, P. (2014). Post harvest fruit management. Actas do 1.º Encontro Nacional do Figo-da-índia. ÉvoraHotel. Évora.

Sapata, M.; Ferreira, A.; Ferreira, M.E.; Passarinho, J.A.; Coelho, I.S.; Andrada, L.; Roldão, M. s/d. Figueira-da-índia: uma alternativa com futuro. INIA. Oeiras.

Operação Financiada no âmbito do Sistema Regional de Transferência de Tecnologia – SRTT

Operação: ALENT-07-0262-FEDER-001870

Artigo publicado na edição de junho de 2015 da revista VIDA RURAL