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Entrevista

“Fez-se mais por estes setores em quatro anos do que nos últimos 40”

suinicultura

A Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores quer traçar um caminho para a autossuficiência da suinicultura em Portugal até 2020. Este foi o tema do último congresso, que decorreu recentemente. Mas como é isso possível? Vítor Menino, presidente da FPAS, responde à pergunta numa entrevista onde fala ainda do que falta no setor no nosso país.

‘2020: O caminho para a autossuficiência’ foi o tema escolhido para o congresso da FPAS deste ano. Porquê este tema?

Porque entendemos ser legítimo o nosso crescimento, pretendendo que tal se atinja neste espaço de tempo, devolvendo ao país a autossuficiência que perdemos há cerca de três décadas. Entendemos como legítima esta nossa pretensão, porque sabemos fazer, porque tecnologicamente estamos ao nível dos melhores produtores mundiais, porque temos clima, temos terra, temos água e temos empresários determinados em atingir este objetivo.

Quais são estes caminhos? Na sua opinião Portugal está no bom caminho?

Os caminhos passam pela implementação da Segmentação de Ciclo que permitirá o redimensionamento e modernização das explorações existentes, transferindo-as, ou uma parte delas, de locais onde constituem problemas de território e de ambiente, para regiões onde podem ser uma oportunidade para a potenciação da produção agrícola. Os caminhos passam também pela renovação geracional, com os jovens a acreditar que esta é uma atividade moderna e com futuro, dispostos a dar continuidade aos negócios da família e a fundar novas empresas. Devolver o investimento jovem na atividade é um dos nossos objetivos. Acredito estarmos no bom caminho porque finalmente, e após décadas em que a Suinicultura foi desprezada pela Administração em geral, verificamos uma mudança total na forma como politicamente se vê a atividade em Portugal. Começamos a ver legislar em prol de quem produz, quando no passado recente se legislava procurando punir as atividades produtivas.

O que é que destaca do Congresso deste ano?

Devolver ao setor o orgulho de produzir proteínas que ajudam a alimentar o mundo de forma segura. Que somos um setor moderno, dinâmico e competitivo. Que produzimos alimentos saudáveis, respeitando o ambiente e a sociedade onde estamos inseridos e que disso nos orgulhamos.

“Os produtores nacionais não só estão preparados, como muitos deles já estão na vanguarda destas tecnologias que nos chegam através da genética, de melhor maneio, melhor controlo sanitário dos efetivos, alimentações mais precisas e direcionadas às classes animais etárias e melhor ambiente e bem-estar animal.”

Um dos temas abordado foi a ‘Zootecnia de Precisão. O futuro hoje’. Os produtores nacionais estão preparados para a chegada das novas tecnologias? Do que estamos a falar?

Estamos a falar na evolução genética e tecnológica que nos permite produzir mais utilizando menos recursos. São índices de conversão alimentares e velocidades de crescimento impensáveis há meia dúzia de anos. É produzir 50% de leitões a mais por porca do que se fazia há uma ou duas décadas. É produzir qualidade de carne direcionada para a vontade e segurança do consumidor. Os produtores nacionais não só estão preparados, como muitos deles já estão na vanguarda destas tecnologias que nos chegam através da genética, de melhor maneio, melhor controlo sanitário dos efetivos, alimentações mais precisas e direcionadas às classes animais etárias e melhor ambiente e bem-estar animal.

Na sua opinião, o que falta no setor da suinicultura em Portugal?

Falta desburocratizar, largar dogmas e preconceitos, especialmente no que diz respeito à Administração intermédia. Falta que o Estado, a administração em geral e os empresários se direcionem para objetivos comuns, que proporcionem e permitam condições para o investimento responsável, com respeito pela cidadania e pelo ambiente, numa simbiose de conjugação de esforços única. A ser assim não temos dúvidas em afirmar que este setor, com forte tradição e enraizamento cultural na nossa sociedade e vital para a economia e a ocupação do espaço rural do país, atingirá os objetivos que nos propomos: “Autossuficiência em 2020”. Falta abrir mercados alternativos para podermos aumentar a exportação, única forma de fazer frente à concentração da procura existente em Portugal, dominada pela GDO (Grande Distribuição Organizada). Falta um Centro de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico, que simultaneamente possa ser uma Escola de Formação para técnicos intermédios e tratadores, que permita ao setor a investigação científica aplicada, em todas as vertentes ligadas à produção.

Faltam apoios ao investimento na área da suinicultura?

Não. O PDR (Programa de Desenvolvimento Rural) contempla todos os investimentos na modernização e no redimensionamento das explorações legalizadas ou legalizáveis, bem como nos novos investimentos, com comparticipação a fundo perdido nos mesmos, que variam entre 30 e 50% do valor investido.

Politicamente, a suinicultura tem sido acarinhada?

A Ministra da Agricultura e toda a sua equipa têm estado empenhados no desenvolvimento e relançamento de toda a atividade agropecuária em Portugal. Muito há para fazer, alguns ainda teimam em remar contra a maré, mas atrevemo-nos a dizer que por estes setores se fez mais em quatro anos do que nos últimos 40. Deste direcionamento político, o resultado está à vista: aumento contínuo da produção nacional, com redução das importações e aumento das exportações. Muito há para fazer, destacando a necessidade premente de abertura de novos mercados, que nos permitam o escoamento da nossa produção sem depender da GDO, que continua numa política de esmagamento dos fornecedores.

Quais as possibilidades de investimento?

Todo o setor, como referi, se pode candidatar a projetos de investimento visando a modernização, o redimensionamento ou a criação de novas explorações, no quadro do PDR 2020, desde que as mesmas estejam legalizadas ou possam ser legalizáveis, o que não acontecia no passado. Como é sabido, muitas explorações suinícolas e da restante pecuária, exercendo uma atividade produtiva devidamente legalizada, não o estavam do ponto de vista do ordenamento do território, por condicionalismos do PDM (Planos Diretores Municipais), impedindo o acesso aos fundos comunitários e a projetos de investimento comparticipados, impedindo ainda a execução de obras necessárias para a modernização e redimensionamento das mesmas, limitando totalmente os investimentos legais nas últimas décadas nestas atividades. O Dec.-Lei 165/2014 veio proporcionar meios para a regularização das explorações nestas circunstâncias, permitindo a sua regularização legal, desde que aludido o interesse público municipal. Também a banca finalmente aposta na suinicultura, tomando consciência das potencialidades deste setor, das condições ímpares existentes em Portugal para a produção e da capacidade e do saber dos empresários suinícolas.

Artigo publicado na edição de junho de 2015 da revista VIDA RURAL em colaboração com a revista VETERINÁRIA ATUAL