Pecuária

O ‘Barão’ da pecuária

António Barão é produtor de bovinos e caprinos de leite há mais de 35 anos e a sua exploração em Benavente é uma das maiores nacionais e das mais produtivas da Europa. “Com os investimentos que estamos a fazer, queremos melhorar a todos os níveis: produção, bem-estar e genética”, garante.

A Barão & Barão tem cerca de 1000 vacas Holstein (500 adultas e 500 em recria) e 2500 cabras Saanen e Alpinas, sendo a maior exploração de caprinos estabulados do País, e aposta na eficiência e bem-estar animal para conseguir produções bem acima da média europeia. E António Barão quer melhorar ainda mais.

Para isso está a investir cerca de um milhão de euros este ano numa nova sala de ordenha e em várias alterações que irão contribuir para um melhor bem-estar dos animais e, consequentemente, mais produção e animais de topo. Tudo para ter ainda mais rentabilidade na exploração que vende leite, mas também genética.

António Barão explica-nos que a média de produção por vaca neste ano leiteiro (305 dias – terminado a 31 de março) foi de 11 780 litros, ou seja cerca de 40 litros diários no efetivo global, mas tem médias de 57 litros/dia nas 72 vacas do grupo de mais alta produção, claramente superior à média europeia que ronda os 28 litros. Para o ano leiteiro em curso o objetivo é ultrapassar os 12 000 litros. “É um objetivo ousado mas atingível”, considera o produtor, “uma vez que no primeiro trimestre de 2014 tivemos uma média de 17 000 litros, o que dará mais de sete milhões de litros de leite por ano”. E acrescenta: “a médio prazo, com o nosso plano de investimentos pronto e a funcionar, nomeadamente a nova sala de ordenha, queremos atingir os 20 000 litros”.

A média é de 40L/dia de leite por vaca

A média é de 40L/dia de leite por vaca

O leite é entregue pelo produtor à Cooperativa VivaLeite (de que António Barão também é dirigente), que depois o comercializa em cisternas em Portugal e Espanha. Vende também os machos até aos oito meses para abate e as fêmeas só comercializa o excedente gestante entre os cinco e os sete meses.

A exploração tem 20 colaboradores, que ordenham as vacas três vezes por dia (e duas vezes as cabras) e fazem também trabalho na parte agrícola da Barão & Barão nas alturas de sementeira e colheita (cerca de 200 hectares de regadio e 100 de sequeiro, em terrenos próprios e arrendados), trabalhando por turnos durante 22 h por dia.

Equipamentos topo de gama

A nova sala tem capacidade de ordenha de 2 × 20 animais, enquanto a atual tem 2 × 12, e “irá permitir aumentar em cerca de 50% a ordenha, porque também funciona em espinha e tem saída rápida”, explica o agricultor. A sala deverá entrar em pleno funcionamento em outubro e inclui também várias novas tecnologias topo de gama, como reserva de vácuo, balança para pesar os animais e entradas mais céleres na ordenha, “que possibilitam grande economia de tempo, permitindo assim que as vacas descansem mais e também se alimentem mais”.

Pensando ainda na economia de tempo, mas principalmente na prevenção da mastite – subclínica e clínica, é a doença infeciosa mais comum em bovinos de leite e como afeta a qualidade do produto, “é uma preocupação constante” –, António Barão adquiriu um novo sistema automático de desinfeção dos tetos na ordenha, que faz a desinfeção de vaca para vaca, minimizando a transmissão das infeções, e que permite também a automatização do pós-dipping, da aplicação do selador. “Fizemos testes ao sistema manual e verificámos que mais de 70% dos tetos que estão mais longe do operador não tinham produto, por isso decidimos investir neste sistema”, revela o agricultor.

Para prevenção da mastite, vários produtores, cooperativas e agrupamentos têm vindo a adotar programas de qualidade do leite. A Barão & Barão é uma delas, aplicando várias medidas “e os resultados têm sido positivos”, adianta o produtor, salientando: “consigo ter neste momento uma incidência de apenas 0,5% de mamites no efetivo em ordenha [cerca de 500 animais], e o máximo que tenho tido, em termos constantes, é de cerca de 1%, ficando assim abaixo dos 2% máximos constantes ‘recomendados’ para bovinos de leite”.

As vacas desta exploração serão também equipadas com os novos microchips (pedómetros) nas ‘mãos’, cuja informação é registada por antenas instaladas à entrada da sala de ordenha e enviada para o computador central da exploração. “Toda a informação de cada animal da exploração está no computador, que está programado para enviar alertas quando há algo fora do comum, para que todas as situações sejam tratadas a tempo”, explica o produtor.

Outro dos investimentos é na conservação e refrigeração do leite, aumentando a capacidade para 40 mil litros, pelo que “só teremos de fazer entrega do leite, para o que temos camiões próprios, de dois em dois dias, recebendo assim um pouco mais pelo produto”, conta António Barão.

Bem-estar e meio ambiente

O agricultor tem vindo a investir igualmente nas mais variadas formas de melhorar o bem-estar animal, prevenir doenças (principalmente as mastites) e aumentar a produção e qualidade do leite. “Começámos por mudar o material das camas, para o melhor material inerte que encontrámos: areia, e os animais têm-se dado muito bem. E as camas são limpas duas vezes por dia e o chão tem um sistema de limpeza automática de quatro em quatro horas”.

Todas as melhorias “têm como preocupação o bem-estar da vaca: melhor limpeza, menos stress e melhor ventilação”, assegura António Barão, adiantando que “por isso, investimos também num sistema de climatização completo, com ventoinhas e nebulizadores, e fizemos estábulos mais altos e mais inclinados e com uma saída central para ar quente. Tudo para manter mais fresca a temperatura dos estábulos onde estão os animais, porque o calor é o grande inimigo”.

A disponibilidade de comida e de água sempre limpa foi também incluída nos melhoramentos, com a compra de novos comedouros e de bebedouros em inox, com lavagem automática em 15 segundos, “para que a água esteja sempre limpa e fresca, maximizando assim a sua ingestão pelos animais”.

A componente ambiental é outra das preocupações deste produtor, já que a nova sala de ordenha irá ter um sistema de lavagem por onda e em que as águas residuais serão aproveitadas para outras lavagens.

Na Barão & Barão, como um dos produtos de venda é a genética de reprodutores da raça Holstein, há um grande cuidado com o maneio dos vitelos. A exploração compra colostro congelado que é descongelado em equipamentos próprios para ser dado aos vitelos nas primeiras horas de vida. “As nossas vacas são inseminadas artificialmente com sémen testado, das melhores proveniências do mundo”, adianta.

As camas são limpas duas vezes por dia e o chão tem um sistema de limpeza automática de 4 em 4 horas

As camas são limpas duas vezes por dia e o chão tem um sistema de limpeza automática de 4 em 4 horas

Alimentação é fundamental

A parte nutricional também é uma das áreas onde há maior cuidado na exploração de António Barão, ou não fosse fundamental para a produção, além de representar cerca de 50% dos custos na produção de bovinos de leite. Assim, a empresa produz forragens e “o nutricionista aconselha qual a altura ideal de corte, para tirar a maior disponibilidade e valor da alimentação” e o técnico aconselha também a melhor forma de conservação: silagem, feno ou fenossilagem.

António Barão diz-nos ainda que uma vez por mês o nutricionista analisa a forragem e acerta a alimentação de forma mais económica e racional, desenhando assim o concentrado ideal para conjugar com as forragens existentes. “Se tudo funcionar bem, se o nutricionista trabalhar bem, o veterinário quase não é necessário”, defende o produtor.

A exploração está equipada com câmaras que tiram fotos às manjedouras (inclusive durante a noite) para saberem como é que os animais comem e se a forma de os alimentar (vezes em que a alimentação é colocada, duas, e encostada, seis) são suficientes. Tudo para evitar desperdícios ou falta de alimento.

“Temos cerca de 300 ha, 200 de regadio e 100 de sequeiro, com duas culturas por ano: azevém no outono/inverno e milho ou erva do sudão na primavera/verão e no sequeiro luzerna. Por isso, somos quase autossuficientes em forragem”, explica.

cabras barão e barão 2 - VR

CABRITOS TODO O ANO

Quanto à área da caprinicultura, é um negócio que António Barão também leva muito a sério. Sendo esta a maior exploração de caprinos estabulados do País, o produtor salienta que “o objetivo é ter produção o ano todo, principalmente em contraciclo, embora também tenhamos sempre cabritos nas alturas habituais: Natal, Páscoa e Santos”.

A exploração vende o leite de cabra para a JD Santiago (queijos) e António Barão salienta que há défice de leite de cabra, “há muito maior procura do que oferta, tanto cá como em Espanha e França” e salienta: “cá não se usa muito, mas o leite de cabra é mais doce e tem muito maior digestibilidade, sendo até recomendado para crianças e idosos”.

O produtor também investiu na melhoria das condições e maneio das cabras, que hoje são todas alimentadas através de tapetes automáticos. As camas são de palha e feitas uma vez por semana e estes animais são ordenhados duas vezes por dia, numa sala de 2 × 20, não fazem pós-dipping, mas as manjedouras são limpas todos os dias.

A cobrição pode ser natural, com bodes adquiridos no exterior (num centro de inseminação em França), com sémen de bodes  testados nesse centro ou “com bodes nossos que já deixaram filhas boas. Colhemos sémen e inseminamos em fresco”, conta o produtor.

As cabras da Barão & Barão produzem cerca de 900 litros de leite por cabra/ano, o que representa uma produção diária média de cerca de três litros/cabra.