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Será 2019 o ano dos Insetos?

Sim… talvez. Ao nível da alimentação animal espera-se que o uso de insetos seja aprovado para aves e porcos. Já na alimentação humana, são esperadas novidades para o final do ano. A Portugal Insect, associação do setor, está a trabalhar com congéneres para pressionar a União Europeia a uniformizar as regras, porque “neste momento temos uma Europa a duas velocidades”, refere o vice-presidente, “criando uma situação de concorrência desleal”.

Sabemos que Portugal e as restantes sociedades ocidentais não têm tradição de comer insetos, mas a necessidade de proteína alternativa e mais sustentável para alimentar uma população mundial crescente impõe-se. Por isso, prepare-se porque os insetos vêm aí e podem ser uma boa oportunidade de negócio.

Não é certo que seja este ano que vão chegar aos nossos ‘pratos’ mas vão certamente chegar às ‘manjedouras’ de porcos e aves, depois de já poderem ser incluídos nas rações dos animais de estimação e na aquicultura (esta última desde julho de 2017). E serão muito bem recebidos, assegura-nos o secretário-geral da Associação Portuguesa das Indústrias de Alimentos Compostos para Animais (IACA). Jaime Piçarra alerta, todavia, que “é importante que esta nova fonte de proteína seja competitiva, face às ofertas atuais, nomeadamente a farinha de peixe”.

Por isso, “o principal problema da produção de insetos para alimentação animal é a escala”, como nos refere Rui Nunes, sócio da EntoGreen e presidente da Portugal Insect, com o pelouro da alimentação animal. A empresa prevê começar a produzir “em 2020, em larga escala, porque dependemos da construção de uma fábrica que tem capacidade de converter 3.000 toneladas de subprodutos vegetais por mês e será capaz de produzir cerca de 220 toneladas de proteína de inseto por mês, em torno de 50 toneladas de óleo de inseto e 750 toneladas de fertilizante orgânico. Isto são os volumes que consideramos mínimos para sermos capazes de entrar no mercado de forma competitiva”, explica Daniel Murta, fundador da EntoGreen.

Europa a duas velocidades

Quanto à alimentação humana, “de momento não existe nenhuma espécie de inseto aprovada pela União Europeia para ser utilizada para alimentação humana”, afirma José Gonçalves, fundador da Nutrix e vice-presidente da Associação Portuguesa de Produtores e Transformadores de Insetos, com o pelouro da alimentação humana, área que está em maioria na Associação, com empresas como a Portugal Bugs que foi fundadora da Portugal Insect a par da EntoGreen e da Nutrix. Mas o responsável refere que há seis países – Bélgica, Holanda, Finlândia, Dinamarca, Áustria e Reino Unido – que conseguiram ter um período de transição, até 31 de dezembro de 2019, para que “as empresas que já operavam no mercado a 1 de janeiro de 2018 (quando entrou em vigor o novo Regulamento Europeu dos Novos Alimentos) pudessem continuar a fazê-lo, com a obrigatoriedade de apresentarem dossiers de pedido de autorização à Comissão Europeia (CE) até final de 2018”.

Será 2019 o ano dos Insetos? [1]

Daniel Murta, da EntoGreen

Assim, há dossiers submetidos envolvendo cinco espécies de insetos para alimentação humana: Acheta domesticus, Gryllodes sigillatus, Alphitobius diaperinus, Tenebrio molitor, Locusta migratoria”.

Em todos os outros países, inclusive Portugal, não se podem comercializar produtos com insetos para alimentação humana, “com algumas exceções em França e na Alemanha, devido a produtos específicos, por particularidades da legislação destes países”, diz José Gonçalves. De qualquer forma, este período de transição criou uma situação de desigualdade: “Neste momento temos uma Europa a duas velocidades”, refere o vice-presidente da Portugal Insect, “criando uma situação de concorrência desleal”.

Uma situação que a Associação está a tentar pressionar para ser alterada, em conjunto com outras congéneres e a International Platform of Insects for Food and Feed (IPIFF).

Uma produção sustentável

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de 2.000 milhões de pessoas consomem insetos regularmente mas na Europa não há histórico de consumo, por isso são considerados ‘Novos Alimentos’ e requerem parecer da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), antes da aprovação (ou não) da CE.

O fundador da Nutrix, que está a trabalhar na produção do grilo doméstico para transformação em farinha a ser introduzida como fonte proteica alternativa e sustentável em alimentos tradicionais como bolachas ou pão, frisa que “a sua produção provoca um menor impacto ao nível do consumo de água, utilização de solo arável e emissões para a atmosfera, quando comparada com a produção de outras proteínas animais, como a carne”.

A sustentabilidade e aumento da autossuficiência da Europa em termos de proteína são dois dos grandes argumentos para a produção de insetos para a alimentação animal e humana.

Aprovação em breve para porcos e aves

Tanto Jaime Piçarra, da IACA, como Rui Nunes, da Portugal Insect, explicaram-nos que o dossier de introdução dos insetos nas rações de porcos e aves deve ser analisado em conjunto com o das farinhas animais, retiradas aquando da crise da BSE, que, apesar de ainda gerar alguma polémica, deverá ser aprovado, talvez ainda durante o primeiro trimestre deste ano.

A ser assim, as empresas que estão a preparar a produção de insetos para este setor, como é o caso da EntoGreen em Portugal, podem avançar com as suas unidades de produção em escala que as torne competitivas, “nomeadamente face às farinhas de peixe, porque em relação à soja é mais difícil”, diz Rui Nunes, sócio da empresa.

Será 2019 o ano dos Insetos? [2]

A EntoGreen, em conjunto com a DGAV, criou um Manual de Boas Práticas para a Produção, Processamento e Utilização de Insetos em Alimentação Animal

Para esclarecer muitas dúvidas sobre a produção e comercialização de insetos para alimentação animal e humana a Portugal Insect criou uma página de questões frequentes muito completa, onde se explica também que a produção de insetos é uma atividade pecuária que se enquadra no Novo Regime do Exercício da Atividade Pecuária (NREAP). Por isso, a EntoGreen, em conjunto com a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) criou um Manual de Boas Práticas para a Produção, Processamento e Utilização de Insetos em Alimentação Animal, também acessível através da mesma página, ou diretamente no site da DGAV.

 

EntoValor: a economia circular a funcionar

A par da produção de Mosca Soldado Negro (BSF, em inglês), para transformar em farinha e óleo e posterior incorporação em rações para animais, a EntoGreen (uma das fundadoras da Portugal Insect) vai também produzir fertilizante orgânico que resulta da bioconversão que as larvas fazem dos subprodutos agroalimentares de que necessitam para se alimentarem e crescerem.

Para estudar e desenvolver esse processo lançou um projeto – o EntoValor – em parceria com o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), a AgroMais, a Rações Zêzere e a Consulai, que está a decorrer até ao final deste ano.

O projeto promove a economia circular, uma vez que utiliza subprodutos das agricultura e agroindústria para a produção das larvas, que depois de biodegradados por estas larvas serão posteriormente usados como fertilizantes orgânicos. As larvas de BSF são assim a peça chave necessária para fechar o ciclo produtivo dos produtos agroalimentares, permitindo devolver aos animais e aos solos os nutrientes, que de outra forma se perderiam.

O diretor-geral da AgroMais disse à VIDA RURAL que “este projeto tem todo o interesse para nós e, nos ensaios que fizemos, os resultados têm sido encorajadores”. Jorge Neves salienta que “tem relevância nas suas duas vertentes: tanto no aproveitamento dos resíduos agrícolas e da nossa central hortícola, que nesta altura temos de entregar no aterro para serem destruídos, como depois no composto orgânico para fertilização dos solos dos nossos produtores”.

O responsável salienta que “estamos a acompanhar esta fase de experimentação e estamos expectantes em relação à posterior fase de comercialização onde, além das características do produto, o preço vai ser um fator para a competitividade deste composto, uma vez que existem outras ofertas no mercado”.

Agricultura biológica será principal destino

Por seu lado, o fundador da EntoGreen explica-nos que “este fertilizante orgânico tem capacidade de melhorar a estrutura do solo e a retenção de água” e acrescenta que “os resultados em termos de produção também estão a ser muito positivos: num ensaio de batata que fizemos com a AgroTejo, a produção aumentou em 16%”. Daniel Murta salienta que “este composto poderá vir a representar cerca de 40% da nossa faturação, sendo por isso estratégico para a EntoGreen. Como é um produto que se destina, principalmente, para a agricultura biológica o preço será bastante competitivo, pois vamos apostar na venda a granel, em big bags de 500 e 1.000Kg”.

Importa salientar que a produção deste composto depende da produção de insetos em larga escala, para alimentação animal.