Entrevista

“Utilizar OGM é uma decisão política”

Professor e investigador na Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, Wayne Parrott considera que não há justificações científicas para a Europa estar tão atrasada na utilização da tecnologia OGM (Organismos Geneticamente Modificados) na agricultura. Numa apresentação no Instituto de Tecnologia Química e Biológica, em Oeiras, Parrott criticou o sistema regulador europeu e lembra que já vivemos num mundo OGM.

 

Esta apresentação chamava-se “Viver num Mundo de OGM”. É uma utopia ou poderá vir a ser possível um dia?

Já vivemos num mundo OGM porque é um fenómeno muito natural. Estamos a aprender que muitas plantas são OGM naturais. A indústria alimentar também é um mundo de OGM, uma vez que estes são bastante utilizados para fazer muitos dos ingredientes dos alimentos.

Qual é o objetivo desta sua viagem à Europa, apresentando este tema?

O objetivo é dialogar um pouco sobre esta matéria porque a perspetiva que temos nos Estados Unidos é muito diferente da que se tem aqui. Sinceramente, há muitas pessoas no mundo que poderiam mesmo beneficiar desta tecnologia e não estão autorizadas a usá-la.

Porque é que a perspetiva americana e a europeia são tão diferentes?

Gostava de poder dizer. A razão que leva a Europa e os Estados Unidos a seguirem caminhos tão diferentes é um dos grandes mistérios. Os Estados Unidos têm um sistema regulador implementado há mais tempo que a Europa, por isso há mais confiança no sistema. Outra razão é que os Estados Unidos não tiveram algumas das crises alimentares que os europeus tiveram, como a doença das vacas loucas. Por isso, temos menos razões para não confiar no governo. E os Estados Unidos não têm a Greenpeace, que ganha dinheiro a assustar as pessoas.

Sobre a regulamentação, a Europa é muito restritiva, ou nos Estados Unidos e em países que usam mais a tecnologia OGM pode estar a ser muito permissiva?

A regulamentação atual reflete o estado de conhecimento que atingimos há 30 anos. A ciência anda muito mais depressa que as regulamentações. Então, temos uma ciência moderna e regulamentações muito antigas. A avaliação de segurança nos Estados Unidos é muito semelhante à da Europa. A diferença é que as nossas agências reguladoras podem, elas próprias, dar aprovações, enquanto na Europa só servem para recomendar. A decisão é política, não é uma decisão científica.

Se há muitas provas de que a tecnologia OGM funciona sem riscos, porque é que as pessoas não sabem ou continuam com dúvidas?

Essa é uma pergunta que precisa de fazer aos europeus. À imprensa europeia e aos políticos europeus.

Mas, na sua perspetiva, qual é a justificação?

Se olharmos para os conselhos e orientações que a EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar) dá, são excelentes. Excelentes cientistas e excelentes conselhos, mas ninguém os quer ouvir.

Essa informação, muitas vezes, não é passada com clareza para o cidadão comum e a generalidade das pessoas não está informada. O que podem os especialistas fazer para comunicar melhor nesta área?

Para começar, só três países na Europa cultivam plantas geneticamente modificadas e fazem-no de uma forma muito limitada. Isso significa que os restantes quatrocentos milhões de europeus nunca viram um alimento OGM. A única coisa que veem são os gráficos disponíveis na internet que, além de outras coisas, têm agulhas e pontos. Há uma falta de plantas que as pessoas possam ver, tocar e aprender sobre elas. Esta é uma grande barreira. É assim que se consegue que mais pessoas tenham familiaridade com os OGM.

Na apresentação mostrou que o dinheiro investido, até se colocar um produto OGM no mercado, é cerca de 27 milhões de euros. O elevado custo pode também ser uma justificação para evitar utilizar este tipo de tecnologia na Europa?

O custo que mostrei é por causa das regulamentações excessivas. Estou convencido que se pode ter o mesmo nível de segurança por cerca de dois milhões de euros. Tudo o resto é acentuado sem justificação. Os custos podem baixar e podem-nos ajudar a resolver uma série de problemas, mas seria necessário que o sistema regulador fosse baseado na ciência atual e não na ciência de há trinta anos.

Os OGM podem ser uma solução para alimentar nove mil milhões de pessoas em 2050?

Podem ser parte de uma solução. Mas também são precisas boas estradas, instalações para armazenamento e boas práticas agronómicas. É uma parte muito, muito importante haver plantas que resistam a insetos, que usem a água e os fertilizantes mais eficientemente e que não apodreçam no período de armazenamento.

“A avaliação de segurança nos Estados Unidos é muito semelhante à da Europa. A diferença é que as nossas agências reguladoras podem, elas próprias, dar aprovações, enquanto na Europa só servem para recomendar. A decisão é política, não é uma decisão científica.”

Um dos argumentos contra os OGM é a ligação ao setor privado, o que leva à desconfiança de ser uma tecnologia relacionada com benefícios e interesses que algumas empresas têm. É uma desconfiança verdadeira?

Começa a não ser verdade. Esta tecnologia está, sobretudo, no setor privado porque uma das consequências da regulamentação europeia é o elevado custo envolvido na autorização de OGM e, por isso, apenas o setor privado o consegue pagar. Outra questão sobre o setor privado é que tudo o que fazem é patenteado e as patentes só duram vinte anos. Depois disso, é público. Então, de várias formas, o setor público usa tecnologia privada que se torna pública quando as patentes expiram. E não pagam o custo do seu desenvolvimento. Ganham a este nível. Neste momento, as primeiras sementes estão metade patenteadas e estamos todos à espera para ver como será quando tivermos sementes públicas e sementes privadas nos mercados.

Na Europa, estamos muito longe da realidade americana?

Muito. Em primeiro lugar, as culturas OGM são como qualquer aplicação, como um aparelho de televisão, em que todos os anos aparece um novo modelo. E os novos modelos têm muito mais para oferecer. O milho que se planta na Europa é de primeira geração, ou seja, o equivalente a uma televisão a preto e branco. A Europa não beneficiou dos progressos que houve desde então.

O cenário fica mais difícil com a lei aprovada, pelo Parlamento Europeu, em janeiro de 2015, que diz que cada país-membro pode proibir o cultivo de produtos que contêm OGM?

Não estou convencido que fique assim, mas acho que torna tudo mais difícil porque vai interferir ao nível do transporte. Não a vejo como uma medida que vá ajudar em alguma coisa.

Wayne Parrot - OGM - Vida Rural

Pode garantir que não se correm riscos ao utilizar OGM?

Posso dizer que não tem mais riscos do que qualquer outro alimento.

Outro dos argumentos contra os OGM é que, da sua aplicação, podem resultar riscos agora desconhecidos e imprevisíveis, mas, ainda assim, possíveis de surgir e potencialmente perigosos.

Também é possível com os alimentos convencionais. Deve-se ver o que a mãe natureza faz com a comida. E se há algo que temos vindo a aprender é que não inventámos nada que a natureza não tenha inventado primeiro.

Continua a haver lugar para a academia na tecnologia OGM?

Claro que sim! Neste momento, temos tantas variedades nas quais ainda não tocámos e tantas espécies com as quais ainda não lidámos. Um bom papel para a academia é fornecer mercados de nicho. Algo que seja preciso numa determinada região, que possa não ser preciso em todo o lado. A acrescentar a isso, apenas pensamos na qualidade da comida, mas também temos de ver que as plantas podem substituir as nossas fontes de plástico e de combustível. Há tanto para ser feito.

Os jovens europeus a trabalhar nesta área podem-se sentir desmotivados com este cenário?

Teria de lhes perguntar. Essa é a minha impressão, mas tem de lhes perguntar. Para mim, é uma carreira muito entusiasmante e recompensadora, mas não há assim tantos empregos.

“O milho que se planta na Europa é de primeira geração, ou seja, o equivalente a uma televisão a preto e branco. A Europa não beneficiou dos progressos que houve desde então.”

Uma das possibilidades é trabalhar nos Estados Unidos?

Infelizmente também está a ficar mau nos Estados Unidos porque estamos a ficar cada vez mais europeus. A Europa limita o mercado. Podemos desenvolver produtos para os Estados Unidos, mas até sabermos que eles podem ir para a Europa não são comercializados. Imaginemos que temos o milho ou a soja nos Estados Unidos, que todos os nossos agricultores querem, mas não é aprovado na Europa. Se uma única semente vai no barco e é encontrada na Europa, mandam o navio inteiro para trás.

Na apresentação, disse que uma forma de se comunicar esta área é “torná-la humana”. As pessoas importam-se com o que afeta as suas vidas. Estarão já preparadas para um mundo OGM?

Eu penso que sim. Temos sido culpados em pensar demasiado e perguntar demasiado sobre benefícios e riscos. Se apenas extrapolamos pelos tipos de mudanças que temos vindo a fazer em dez mil anos, podemos usá-las para prever como mais mudanças vão ser. É preciso um equilíbrio na pesquisa, no desenvolvimento e na avaliação de como as coisas evoluem.

Artigo publicado na edição de outubro de 2015 da revista VIDA RURAL