Floresta

Vem aí a floresta regada

O tema está na ordem do dia e os ensaios estão no terreno. A Amorim está a testar montado de regadio, a Floresta Atlântica vai avançar com produção de madeiras nobres com recurso a rega e a Portucel está a fazer testes com eucaliptal.

Ao defender a plantação de eucaliptos em Alqueva o presidente da EDIA lançou a polémica. As federações de associações de proprietários florestais com quem falámos não ficam chocados com a ideia, mas também não a defendem.

“O grande desafio é aumentar a produtividade das áreas onde já temos floresta”, alerta a diretora executiva da Forestis.

Em maio, o presidente do conselho de administração da EDIA, José Pedro da Costa Salema, disse ser favorável à plantação de eucaliptos em Alqueva, defendendo que desta forma seria possível garantir a sustentabilidade das pequenas explorações agrícolas, o chamado ‘regadio social’. De acordo com um inquérito da empresa, realizado em 2013, só 14% dos proprietários destas explorações aceitavam arrendar as suas terras, 20% preferiam optar por parcerias e 57% não queriam disponibilizar as suas explorações para as culturas regadas.

José Pedro Salema considerou “não fazer qualquer sentido distribuir o mal pelas aldeias”, isto é, disseminar pelo território nacional a plantação de eucaliptos, espécie que já cobre uma área de 812 mil hectares, superando o sobreiro, com 737 mil hectares, e o pinheiro-bravo, com 714 mil hectares.

O setor florestal “é muito dinâmico e, se utilizarmos as pequenas parcelas de terreno em Alqueva, podemos atenuar a falta de matéria-prima e reduzir a vinda de barcos carregados de madeira da América do Sul”, adiantou. O presidente da EDIA encara como “natural regar eucaliptos”, e considera “um erro” que a legislação em vigor o proíba.

Sobre a possibilidade de o Governo alterar esta lei, da Secretaria de Estado das Florestas e Desenvolvimento remeteram-nos para a Estratégia Nacional para as Florestas (ENF) cujo “processo de atualização está na sua fase final. Recentemente findou o prazo de auscultação pública (decorreu entre 2 e 30 de maio de 2014), estando-se, neste momento, a analisar os vários contributos recebidos. Prepara-se uma sua versão final que será submetida a aprovação em Resolução de Conselho de Ministros”.

A proposta de ENF que esteve em discussão não fala de qualquer alteração à lei que proíbe a plantação de floresta em regadio público. Isto, apesar de a ministra da Agricultura ter admitido, no início de 2013, a possibilidade de autorizar floresta em regadios desativados.

Floresta de regadio?

A VIDA RURAL foi à procura de projetos, reações e opiniões sobre floresta de regadio (não apenas eucaliptos) e a diretora-executiva da Forestis – Associação Florestal de Portugal, que junta 31 organizações de proprietários florestais do centro e norte do País, defende que “floresta é sempre melhor do que abandono”. Mas Rosário Alves considera que o uso de regadios abandonados, por exemplo (caso de cerca de 50% dos regadios públicos) para a plantação de floresta, tem de “ser incluído numa política nacional para os solos agrícolas abandonados. O Estado tem de se colocar numa posição equidistante e bem escudado em análises económicas e técnicas”.

Já o presidente da Federação Nacional das Associações de Proprietários Florestais (FNAPF), que reúne 41 associações de proprietários florestais do sul (duas), centro e norte de Portugal, diz: “não vejo mal nenhum em se aproveitar regadios abandonados para a floresta, se não estão a ser usados para fins agrícolas, pode ser uma opção. Mas será sempre para nichos de mercado e principalmente para espécies nobres, como o freixo, o castanheiro, a nogueira-negra, entre outras”.

Vasco Campos adianta que “já há inúmeros exemplos disso por todo o País, onde os proprietários têm água disponível”, ressalvando que, “na maioria dos casos, os produtores regam as árvores apenas nos primeiros anos, até cerca dos quatro/cinco anos, porque a partir daí as raízes já têm profundidade suficiente para atingir os lençóis freáticos no solo e a rega já não é necessária. Falando aqui da realidade que conheço melhor, no centro e norte, onde a pluviosidade é muito superior ao Alentejo e Algarve, por exemplo”.

Este tipo de produção de regadio, para madeiras nobres, já se faz nos Estados Unidos e França, por exemplo, há cerca de 30 anos e com resultados muito positivos

‘Pomares de madeira’

O diretor-geral do fundo Floresta Atlântica não é da mesma opinião e explica-nos porque o fundo decidiu avançar com a plantação de um nogueiral regado. “É um ‘pomar de madeira’, de nogueira-negra, com cerca de 55 hectares, mas ainda não temos produção, porque as árvores mais antigas têm quatro anos”.

Luís Unas explica-nos que este tipo de produção de regadio, para madeiras nobres, já se faz nos Estados Unidos e França, por exemplo, há cerca de 30 anos e com resultados muito positivos. “Estamos a utilizar clones desenvolvidos com muita tecnologia, árvores que têm uma produção brutal porque são alimentadas com água e nutrientes e vários estudos realizados nestes países demonstram que a rega não afeta as qualidades mecânicas da madeira, e nós já fizemos análises que também provaram que não há diferenças em termos de densidade e características mecânicas”.

O diretor do Floresta Atlântica adianta à VIDA RURAL que “o fundo gere cerca de 400 prédios rústicos, com mais de cinco mil hectares no total, e quando vamos para o território encontramos floresta de várias idades e espécies e com áreas agrícolas pelo meio, e algumas com disponibilidade de água, em levadas ancestrais. Por isso procuramos investir em produções que tenham a ver connosco e se situem ‘no meio’ entre o florestal e o agrícola: pomares de frutos secos, como noz e amêndoa, mas também ‘pomares de madeira’, de madeira nobre”.

Luís Unas salienta que uma das principais características da gestão florestal é ter de gerir os riscos não sistemáticos, como incêndios, pragas e doenças; e os sistemáticos, que são os riscos de mercado. Assim, “precisamos de diversificar o produto, porque ao introduzirmos novos produtos reduzimos os riscos sistemáticos e ao mesmo tempo os outros”.

Estudos com montado regado

O Floresta Atlântica vai também avançar com “um ensaio de regadio em sobreiro e azinheira. É uma zona onde já temos um amendoal e vamos estender para a zona de montado, para ver o comportamento das árvores que já existem, mas vamos igualmente plantar novas árvores para avaliar a evolução, regadas desde o início, num total de cerca de 20 hectares”. O responsável adianta que há algumas experiências no Alentejo, em Ferreira do Alentejo, onde sobreiros na bordadura de um olival regado cresceram muito mais rapidamente que o previsto, e também num ‘bosque’ de sobreiros na Landeira.

“O objetivo é reduzir o ciclo de produção da cortiça e tirar a primeira cortiça, a virgem, entre dez a 15 anos mais cedo”. Sobre a possibilidade de a rega afetar a qualidade da cortiça, Luís Unas diz não haver ainda estudos concretos mas “como se sabe que a qualidade é explicada em 90% pela genética, estamos convictos de que não será alterada”.

Esta mesma convicção move a Amorim Florestal que está também a instalar um ensaio de sobreiro regado. Francisco Carvalho afirma que a área de ensaio é de 5,7 hectares e que “este estudo insere-se num conjunto de projetos de investigação que temos em curso e que tem como objetivo conhecer melhor a gestão da floresta de sobreiro e o potencial de inovação que seja possível introduzir. O ensaio que refere está ainda na fase da instalação pelo que ainda não temos nenhuns dados do mesmo”.

Sobre a qualidade da cortiça regada, o responsável da empresa do grupo Amorim adianta que “em relação à remuneração do investimento, e tal como em todos os projetos, é uma área que faz parte da investigação que temos em curso”.

“O eucalipto é uma espécie que deve estar em pé de igualdade em relação a todas as outras espécies florestais ou agrícolas, porque a maior parte das culturas agrícolas não são menos intensivas que o eucalipto”

Eucalipto deve estar em pé de igualdade

Voltando ao eucalipto, tentámos falar com o grupo Portucel Soporcel sobre a possibilidade de produção em Alqueva, mas também sobre ensaios com eucalipto regado que, sabemos, a empresa tem vindo a fazer nos últimos anos, mas não foi possível. No entanto, é público que o grupo tem ensaios na zona da Cova da Beira e que, através do instituto Raiz, está também a instalar um novo ensaio. O País é deficitário em madeira para pasta de papel, pelo que o grupo importa madeira e está interessado em aumentar a sua produção e produtividade.

A diretora-executiva da Forestis salienta que “o eucalipto é uma espécie que deve estar em pé de igualdade em relação a todas as outras espécies florestais ou agrícolas, porque a maior parte das culturas agrícolas não são menos intensivas que o eucalipto”. A responsável explica que esta espécie é ‘mal-amada’ por desconhecimento, “o eucalipto, como qualquer espécie de rápido crescimento, como o choupo, e o plátano, entre outros, consome muita água, mas os principais efeitos prejudiciais desta árvore deveram-se a más práticas florestais: tratamentos mal feitos, mobilizações do solo e fertilizações desadequadas. E, com a ação das associações florestais nos últimos 15 anos, estas práticas mudaram”, garante.

Rosário Alves considera assim que “o grande desafio é aumentar a produtividade das áreas onde já temos floresta. Porque há muitos povoamentos, nomeadamente de eucalipto, mas não só, que precisam de ser recuperados”.

Há duas situações: uma decorrente da política industrial dos anos 70 e 80 de colocar eucalipto onde fosse possível, sem ter em consideração as condições ecológicas. Hoje há muitas zonas onde o eucalipto está mal adaptado e que “precisam de especial atenção para incentivar o reinvestimento para instalação de outras espécies, como pinheiro-bravo”. Há também muitos eucaliptais, em zonas onde a árvore está bem adaptada, mas que já sofreram as três rotações de corte comercial (de dez em dez anos) “e que, por vezes são abandonados, quando deviam ser reconvertidos. Todavia, sabe-se que o custo de reinstalação pode chegar a ser três vezes superior ao de instalação nova, pelo que temo que a facilitação de plantação de eucalipto em zonas de regadio possa ser demasiado atrativa e leve ao abandono destas zonas que precisam de ser recuperadas”, frisa a responsável.

Vasco Campos, da FNAPF, defende igualmente que “somos contra o abandono da terra e a área regada é, essencialmente, para a agricultura, a rega da floresta é uma questão secundária”.

Por seu lado, Luís Unas afirma que “faz sentido apostar em espécies florestais de regadio e que é melhor retirar a produção de eucalipto de zonas menos produtivas e colocá-lo em zonas de ‘pomares de madeira’ e, como 50% dos perímetros de rega agrícolas estão abandonados, porque não?”. O diretor-geral do fundo Floresta Atlântica salienta, todavia, que “fazem-me mais confusão os milhares de hectares de eucaliptais que estão em zonas onde não deviam estar e que têm de ser recuperados para outras espécies, do que estarmos a equacionar a questão da rega”.

Artigo publicado na edição de junho de 2014 da revista VIDA RURAL