Agricultura

Brasil desenvolve sistema inovador para tomate biológico

Brasil desenvolve sistema inovador para tomate biológico
As dificuldades em conseguir produções convencionais de tomate com limites razoáveis de agroquímicos no Brasil são enormes. Num país com altos níveis de humidade e calor, controlar pragas e doenças é uma tarefa árdua que implica um uso muito intensivo de pesticidas.
Uma equipa de investigadores da Epagri está a trabalhar numa solução de produção biológica. O projeto Tomatorg tem bases ‘agroecológicas’e visa a produção de tomate com qualidade mas também aumento de produtividade.

É crescente e visível a procura mundial pela produção de alimentos saudáveis, com pouco ou nenhum agroquímico e cultivados de forma económica e ambientalmente sustentável. Isso conferiu aos alimentos biológicos um status diferenciado – e valorizado – em relação a agricultura convencional, especialmente em relação ao tomate, em função do longo histórico de contaminação com resíduos de pesticidas que este alimento apresenta em países como o Brasil.

Foi a pensar nesse mercado que a Estação Experimental da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) desenvolveu o ‘Tomatorg’, um sistema de produção de tomate ‘orgânico’, como são chamados os biológicos no Brasil. Trata-se de um verdadeiro desafio, uma vez que o tomate é muito suscetível a doenças e pragas que dificultam seu cultivo.

De acordo com os criadores do sistema, o Tomatorg foi desenvolvido com bases “agroecológicas visando a produção orgânica de tomates em quantidade e qualidade superior ao observado no Brasil”. O Tomatorg engloba um conjunto de tecnologias tais como o cultivo em abrigos, a adubação com composto orgânico, a enxertia, o uso de cultivares próprias para o cultivo orgânico (como, por exemplo da variedade SCS375 Kaiçara), a escolha da época adequada de cultivo, a correta preparação e uso de calda bordalesa e o uso de agentes de controlo biológico de pragas e doenças, entre outras tecnologias.

Linha do tempo

O projeto começou há alguns anos, quando investigadores da Epagri da cidade de Itajaí constataram a precariedade da produção biológica de hortícolas no estado de Santa Catarina. Na ocasião, foram iniciadas pesquisas com tecnologias que estavam a ser utilizadas em outros estados brasileiros e mesmo noutros paises. Um exemplo disso são as investigações em culturas protegidas iniciadas na década de 90, dissertações de mestrado sobre o uso da enxertia do tomateiro, o uso de telas de sombreamento e telas nas laterais dos abrigos de cultivo, a utilização de biofertilizantes etc.

“A decisão pela cultura do tomate de consumo ocorreu devido à dificuldade enfrentada pelos produtores desta cultura, pois o tomate é a hortícolafrutícola mais difícil de ser produzida entre todas as que estão no mercado, o que leva a sucessivas perdas e baixas produtividades. Assim, se o Tomatorg mostrar o caminho agronómico para a produção de tomate, simboliza que as práticas agronómicas preconizadas nesse sistema de produção podem servir de base para a produção de qualquer outra cultura em sistemas biológicos”, conta Rafael Morales, investigador de olericultura da Epagri de Itajaí e líder da pesquisa que resultou no sistema Tomatorg, bem como no lançamento da cultivar SCS375 Kaiçara.

Quatro investigadores integram atualmente o projeto, além de outros colaboradores que dão suporte a necessidades específicas da iniciativa. Rafael Morales, que lidera as atuais ações do projeto na linha de Fitotecnia, é engenheiro agrónomo, com mestrado, doutorado e pós-doutorado em Produção Vegetal. Outro investigador envolvido é Euclides Schallenberger, engenheiro agrónomo, mestre e doutor em Produção Vegetal, iniciou o projeto de pesquisa 16 anos e liderou inúmeras pesquisas com as tecnologias descritas no Tomatorg.

Rafael Ricardo Cantú, engenheiro agrónomo, mestre em Produção Vegetal e doutor em Ciências do Solo, é responsável pelas pesquisas sobre o uso de composto orgânico, liderou os trabalhos sobre enxertia e uso de telas agrícolas. Completa o grupo de investigadores Alexandre Visconti, engenheiro agrónomo, mestre e doutor em Produção de Plantas (Fitopatologia), que lidera as pesquisas sobre produção e uso de biofertilizantes e estudou sobre a utilização da bactéria responsável pela Murchadeira, ou Murcha bacteriana (causada por Ralstonia solanacearum), uma das principais doenças que ocorrem no cultivo do tomateiro.

Práticas culturais

Apesar de serem inúmeras as práticas culturais necessárias e preconizadas no Tomatorg, os investigadores destacam dez práticas que merecem destaque neste sistema de produção as quais, se seguidas pelos agricultores, levam a uma alta probabilidade de sucesso.

A agricultura biológica, ou orgânica, praticada em muitos locais preconiza a substituição de alguns fatores de produção, trocando o agroquímico por controlo alternativo, o que por vezes se mostra ineficiente. O Tomatorg preconiza o manejo ambiental a favor do cultivo, o que resulta em menor ocorrência de pragas e doenças e, assim, menor a interferência no decorrer do crescimento da planta.

“Quanto menor o uso de inputs externos e menor for a interferência por parte do agricultor, menores serão os custos produtivos. Somado a isso, o aumento da produção por área, compatíveis aos observados por muitos agricultores convencionais, faz com que a rentabilidade deste sistema de produção seja mais que o dobro do que o observado pelos atuais produtores biológicos”, aponta Morales.

O tomate deste sistema de produção é visualmente compatível com o obtido no sistema convencional. Contudo, tem uma diferença importante, é isento de agroquímicos e obtido num sistema de produção sustentável, o que agrega valor de mercado ao produto. Este tomate biológico é mais caro para o público consumidor, que está disposto a investir para ter essa qualidade.

“O tomate de consumo é a hortaliça mais cobiçada pelo consumidor e a que apresenta os maiores desafios na produção. A baixa oferta deste produto no mercado faz com que o seu valor seja muito acima do praticado pelo mesmo produto no mercado convencional, de tal maneira que o consumidor final classifica-o como ‘caro’ e o agricultor chama-o de produto com ‘alto valor agregado’”, explica o investigador.

Segundo ele, o Tomatorg foi desenvolvido para agricultores biológicos mas, as práticas culturais descritas nesse sistema de produção podem/devem ser utilizadas por qualquer produtor de hortícolas, mesmo que pratique a agricultura dita convencional.

Os investigadores  projetam agora ações de difusão para divulgar o trabalho. “Contudo, alguns pontos merecem mais estudos, como é a utilização da Requeima e o desenvolvimento de um cultivar porta-enxerto OP com os genes Mi e Rs, que confere resistência aos dois principais problemas de doenças do solo, que são os nematoides formadores de galha e a Ralstonia solanacearum”, conclui.

Caso de sucesso

Rodrigo Kertischka é um agricultor brasileiro que atesta o sucesso do sistema Tomatorg. Ele conta que já produzia na cidade de Timbó (Santa Catarina) culturas biológicas com seu pai. Após o falecimento do patriarca, comprou mais terrenos no município vizinho de Doutor Pedrinho. Inicialmente enfrentou um grande desafio com a qualidade do solo, uma vez que no local havia plantação de pinheiros e era bastante infértil, muito pobre em nutrientes.

“Tivemos que recuperar o solo. Não tinha nada em cima, nem energia elétrica, não tinha nada. Começamos a produzir orgânico diretamente, já com certificação, e estamos a produzir até hoje. Começámos com morango, cenoura, alface, repolho e hortaliças em geral. Fiz então o curso de ‘Jovem Empreendedor’, e com esse curso consegui construir duas estufas para a produção de tomate biológico. Hoje na minha exploração trabalho eu, a minha esposa e os meus dois filhos. A nossa renda vem da venda em feiras e venda direta ao consumidor”, conta.

O agricultor revela que a sua diferenciação é a ‘adubação verde’, com incorporação de compostagem, com a qual recuperou lentamente o terreno infértil e ainda está a melhor a parte química, de nutrientes. “Também estamos a fazer compostagem na propriedade, com alguma compra externa. Mas temos um projeto para este ano de fazer uma composteira na Epagri, com ventilação forçada. Usamos só caldas, a maioria com calda e composto orgânico e composição verde, para tentar que no próximo ano consigamos fazer o plantio direto de hortícolas”, projeta.

De acordo com o Rodrigo Kertischka, o sistema Tomatorg é uma “excelente maneira” de produzir tomate biológico: “Funciona muito bem. O tomate, querendo ou não, tem um risco, mas é um produto que vende muito bem, eu podia ter mais umas dez estufas e venderia tudo, porque a procura é imensa, eu é que não consigo produzir tanto tomate. Mas há risco também, porque às vezes podem acontecer períodos de muita chuva, com humidade alta, o que acaba provocando doenças e perdas”.

Kertischka explica que, quando a humidade está muito alta ou ocorre uma frente fria, ele utiliza calda bordalesa de 3%, trabalhando sempre em prevenção. “Eu perdi uma colheita inteira de tomate com a geada, porque no meu terreno estamos a 750 metros de altitude. O ano passado houve uma geada ‘negra’ que queimou os pés inteiros de tomate. Por isso agora aposto sempre na prevenção. O equilíbrio do solo muda muito, porque se temos o solo equilibrado, se temos ‘vida’ no solo, usando composto orgânico de qualidade, podemos produzir muito bem. É como o corpo humano, se comemos ‘porcaria’, bebermos refrigerante, ficamos doentes. Se a planta tem nutrientes bons no solo, ela não vai ficar doente, porque o estado natural da planta é saudável”, sustenta.

O agricultor conta que, como o solo da estufa ainda está em processo de melhoria, ele consegue colher até cinco quilogramas por pé de tomate – o que é muito bom para o sistema biológico. Para o futuro, planeia construir mais dois abrigos de tomate e expandir o negócio, devido à forte procura. Em 2020 já expandiu mil pés, chegando agora a sete mil plantas de tomate.

“Eu ressalto a importância do trabalho que a Estação Experimental de Itajaí está a fazer na investigação de biológicos. Eles estão a provar que é possível produzir de forma sustentável e isso deve continuar, pois assim os agricultores vão produzir mais porque vão estar ‘tecnificados’. No método biológico a curva de produção só vai aumentando, a cada ano produz mais, porque não degrada mais o solo. Se fosse uma cultura convencional, com agroquímicos, produzirria muito mais numa primeira fase mas depois vai descendo”, conclui.