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Opinião: Os desafios que se nos colocam!

O momento actual é de séria e aturada reflexão sobre a difícil conjuntura em que vivem os agricultores europeus, cuja voz de protesto se ouve um pouco por toda a Europa. Exemplo do descontentamento que graça no sector foi a “violenta” manifestação dos agricultores franceses por ocasião do SIA, em Paris, no passado mês de Fevereiro.

As baixas cotações dos cereais nos mercados internacionais e a acentuada crise que afeta alguns dos nossos principais clientes, nomeadamente na produção de leite e carne, colocam-nos perante grandes incertezas quanto ao futuro. Relembramos que a maioria dos produtores de cereais e oleaginosas cujos países aderiram à Zona Euro, estão a perder dinheiro e que o sector hortofrutícola também está com sérias dificuldades em escoar os seus produtos.

O problema é europeu e necessita de uma ação concertada dos países-membros da UE. Quem nos governa em Bruxelas deve redefinir prioridades, alinhar-se na defesa dos interesses da Europa e organizar-se a nível económico, social e político para responder aos desafios que a Globalização nos impõe.

A União Europeia precisa de garantir o rendimento dos seus agricultores e da sua agro-indústria, sob pena de agricultores e pecuaristas serem forçados a desistirem desta sua actividade, tornando a UE ainda mais dependente de países terceiros no que se refere à Alimentação. Recorde-se que as últimas estatísticas sobre comércio agroalimentar da UE, relativas a 2015, indicam um aumento das importações comunitárias de 8,7% (9 mil milhões €), face a 2014, atingindo um total de 113 mil milhões de euros. O valor das importações de cereais, incluindo trigo e arroz, totalizou 5119 milhões de euros.

Os acordos de livre comércio, que podem ser positivos por um lado, têm o reverso da medalha para a maioria dos produtos agrícolas europeus. Veja-se o exemplo da Ucrânia, que em 2015 exportou €1359 milhões de euros em cereais para UE (€4000 milhões no total dos produtos agro-alimentares), e que desde 1 de Janeiro deste ano tem o acesso mais facilitado ao mercado europeu, através do Deep and Comprehensive Free Trade Area (DCFTA). A porta da Europa está pois “escancarada” aos seus mais diretos concorrentes. As vítimas são os agricultores!

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A nível nacional, o Ministério da Agricultura tem a obrigação de defender os interesses dos nossos agricultores, primeiro garantindo as medidas e a dotação orçamental adequada ao desenvolvimento do sector, e depois, fazendo ouvir-se em Bruxelas.

À indústria nacional continuamos a relembrar a urgência de valorizar a produção nacional, discriminando-a positivamente em relação a outras origens, em que a qualidade  não está garantida.

Aos agricultores cabe reduzir os seus custos de produção e ser mais eficientes e, não menos importante, dar dimensão às suas Organizações, única forma de se criar massa crítica e poder reivindicativo perante os nossos interlocutores. A solução passa, eventualmente, pela fusão delas, criando-se uma grande Organização das culturas arvenses de regadio.

A força e o potencial da fileira do milho são evidentes. Veja-se o exemplo da dinâmica conseguida com o 8º Colóquio Nacional do Milho, indo ao encontro das necessidades e expectativas de informação dos produtores de leite dos Açores, provando que a cultura do milho em Portugal, mobiliza, como nenhuma outra, pessoas e iniciativas.

A ANPROMIS prossegue o rumo na defesa dos interesses do setor, e eu, enquanto novo Presidente da Direção desta associação, tenho o desígnio de dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelo Eng.º Luís Vasconcellos e Souza, a quem, em nome de toda a Direcção da ANPROMIS, agradeço o empenho, dedicação e independência com que sempre nos liderou ao longo de mais de 20 anos. Bem haja!