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As nozes e amêndoas da Quinta do Pereiro

Era para ser uma exploração pecuária, mas acabaram a produzir… frutos secos, em Ferreira do Alentejo. E tudo está a correr muito bem porque “vamos continuar a aumentar a área”, conta o administrador da Quinta do Pereiro. Mas João Miguel Courinha garante: “tudo isto só é possível com a água de Alqueva”.

João Miguel Courinha e os pais eram mediadores de propriedades agrícolas, viviam em Lisboa e tinham um sonho: ter uma exploração pecuária, de gado bovino. Procuraram e em 2007 encontraram uma propriedade e “a minha mãe ficou encantada pela casa e acabou por ser persuasiva o suficiente para nos fazer mudar de setor de investimento! Vimo-nos assim donos de 30 hectares de nogueiras, semiabandonados, e de 18 de amendoeiras, sem que percebêssemos fosse o que fosse de produção de frutos secos”.

A propriedade tinha 11 furos que enviavam a água para uma barragem e daí é que se regava “quer dizer, não era bem regar, era dar alguma água para as árvores sobreviverem”, diz o agricultor. Mas com a água de Alqueva, que chegou logo no ano seguinte, em 2008, tudo mudou. Hoje, a Quinta do Pereiro tem 80 hectares de nogueiras (30 hectares com 28 anos e 50 hectares entre os três e os cinco anos) e deverá ter uma produção entre as 150 e as 160 toneladas, este ano. “Na próxima primavera, vamos continuar a aumentar a área, reconvertendo os 18 de amendoal, que já está em fim de vida, também para pomar de nogueiras, ocupando assim os 100 ha da quinta”, revela João Courinha. As nogueiras têm uma vida útil de cerca de 30 anos, mas “há casos, nos EUA por exemplo, de nogueiras com 75 anos que foram cortadas e renasceram… depende de como são tratadas”, adianta.

O administrador explica à VIDA RURAL que as amendoeiras têm 25 a 30 anos de vida útil e “aquelas são de variedades que já não se utilizam, têm várias doenças e pouca produtividade”.

Amêndoas e figos juntam-se às nozes

Em 2011, João Courinha, com dois amigos, decidiram arrendar – com opção de compra, que vão exercer agora – a Herdade do Sabugueiro, em Montes Velhos (Aljustrel), onde vive, com a família, e onde mora também um dos sócios, que trata da área dos projetos, candidaturas, etc.

nozes [1]

As nozes são lavadas, descascadas e, depois, calibradas

Nessa herdade, que já tinha água de Alqueva, João Courinha plantou 100 hectares de amendoeiras e 30 hectares de figueiras, que “terão a quarta colheita, a primeira com expressão económica, no próximo ano”. O produtor adianta ainda que “conseguimos também arrendar mais 62 hectares, com água de Alqueva, no Monte da Serra, a 5 km da herdade, onde vamos igualmente plantar amendoal na primavera”. O agricultor salienta, todavia, que “há uma enorme dificuldade em encontrar terras para arrendar ou comprar porque como os proprietários recebem o RPU, quer produzam ou não, pedem preços muito elevados pelo arrendamento da terra, somando o que recebem do RPU – que irão perder – ao valor de mercado do arrendamento…”.

Para estimular este mercado, João Courinha defende que “a EDIA em vez de aumentar tanto o preço da água, penalizando quem produz, devia aumentar a taxa de manutenção para quem não produz, porque o investimento nas infraestruturas para colocar a água em cada exploração foi feito pelo Estado e não está a ser usado, mas há quem queira produzir e não consiga terrenos”.

Ajuda, só lá fora

O produtor conta-nos que, após a compra da Quinta do Pereiro, “a nossa abordagem inicial foi a de buscar apoio técnico junto de uma das inúmeras empresas que se oferecem para prestar o mesmo, o que foi um grande erro, visto toda a gente diz ser perita em tudo e é incapaz de admitir não estar vocacionada para determinada cultura”, assim, adianta “entrámos portanto em modo autodidata: descobrimos que a Califórnia era o maior produtor mundial, que a Universidade de Davis era o cutting edge em termos técnicos, que a livraria da universidade era aberta ao público e hoje em dia sou amigo de professores e agricultores californianos que muito me ajudam de forma desinteressada”.

João Courinha é responsável pelas amendoeiras e figueiras no campo e por toda a parte comercial, enquanto o pai, José Courinha, trata da parte do pomar de nogueiras.

A rega é gota a gota e em pleno verão alentejano cada árvore precisa de 400lt/dia. Por isso, João Courinha frisa: “tudo isto só é possível com a água de Alqueva, porque sem água era impossível rentabilizar a produção”, que este ano deve andar entre as 150 e as 160 toneladas de nozes.

Diversas variedades e compassos

O pomar da Quinta do Pereiro tem diversas variedades de nogueiras: Hartley (frutificação apical, variedade obsoleta, com produção máxima de 3000 kg/ha), Serr (frutificação lateral, com produção máxima de 5000 kg/ha), Howard (frutificação lateral, última geração, com produção máxima de 6000 kg/ha) e Chandler (frutificação lateral, última geração, standard de mercado, com produção máxima de 6000 kg/ha. “Para além destas variedades presentes na Quinta do Pereiro existem ainda, como seleções varietais atuais e muito produtivas, a Sexton, a Ivanhoe, Payne e Gillete”, refere o agricultor.

O pomar tem várias fases de plantação e vários compassos, “sendo que a versão ‘superintensiva’ é de 7/4, com cinco anos, mas temos também compassos de 8/7 e de 10/10 em algumas zonas”, acrescenta.

As árvores são podadas com uma serra montada no trator que passa de um lado e de outro, alternadamente em cada ano e nas entrelinhas “semeamos leguminosas, agora temos luzerna, para fixar o azoto no solo, além disso temos de fazer correção porque o ph deste solo é de 8.4 e o ideal seria 6.5”.

Todas as variedades de nogueiras são autofertilizantes, mas nas amêndoas João Courinha aluga colmeias de abelhas para a polinização.

Preço da noz tem aumentado

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Em 2007, em estado de abandono e manifestamente deficitário em termos de água, os 30 hectares obtiveram uma produção total de 20 toneladas. “Hoje, recuperados em termos sanitários e regados de forma tecnicamente adequada, a mesma área produz entre 100 e 120 toneladas de nozes de superior qualidade (tendo em conta que uma área considerável é da variedade Hartley, as médias são muito interessantes)”, refere João Courinha, salientando que “quando as áreas de árvores jovens estiverem em plena produção estimamos que a propriedade possa atingir as 400/450 toneladas”.

O administrador da Quinta do Pereiro afirma que o mercado da noz (e também o da amêndoa) tem tido uma evolução positiva. “Em 2007 o preço médio rondava os €2,5 e hoje podemos falar de 4/5€ no mercado nacional e preços acima dos 6€ em alguns mercados do norte da Europa” e adianta: “convém fazer a ressalva (sem pretensiosismo) que atualmente temos a melhor qualidade de nozes do País e nos encontramos entre os melhores da Europa. Se se abdicar de qualidade abdicamos de preço”.

Elevado investimento

A evolução dos preços e o aumento da procura no mercado internacional, influenciado pela seca severa que tem afetado a Califórnia nos últimos anos, levaram a Quinta do Pereiro a investir no aumento da área e na compra de equipamento de apanha, lavagem, secagem e pesagem da noz. Um investimento global que rondou um milhão de euros. “Os custos de implantação do pomar rondam os €10.000/ha e em plena produção estimo que os custos correntes representem 25-30% da faturação”.

As nozes são atiradas para o chão com um vibrador, depois uma varredoura junta as nozes em cordão no centro da linha e, finalmente, é 'aspirada' para um reboque [3]

As nozes são atiradas para o chão com um vibrador, depois uma varredoura junta as nozes em cordão no centro da linha e, finalmente, é ‘aspirada’ para um reboque

A quinta tem dez colaboradores fixos e mais cerca de 20 na altura da campanha, entre agosto e outubro (amêndoa de 15 de agosto a 15 de setembro e noz entre 15 de setembro e fim de outubro).

O método de apanha da noz consiste na sequência de trabalho de três máquinas: um vibrador que atira as nozes para o chão, uma varredora que junta as nozes em cordão no centro da linha e uma máquina que “aspira” as nozes. Daí, as nozes seguem para a zona de processamento onde são lavadas (apenas com água), descascadas (removida a pele verde), secas e calibradas. “A nossa zona de processamento está dimensionada para as 450 toneladas que esperamos alcançar no futuro”, diz João Courinha.

Posteriormente o produto final, comercializado sob a marca Quinta do Pereiro, pode assumir diversos aspetos: sacos de 10 kg, sacos de 5 kg (ambos embalados na Quinta), pacotes de 750gr (embalados em outsourcing em Espanha), ou miolo, “atualmente utilizado mais por nós como uma forma de mitigar perdas em nozes que se partem durante o processamento”, explica o produtor, acrescentando que “os nossos principais clientes são a Jerónimo Martins, o Grupo Auchan, o El Corte Inglés e o MARL”.

Amêndoa com casca ou em miolo

A produção de amêndoa na Quinta do Pereiro é pouco significativa neste momento pelo facto de o pomar estar em fim de vida, explica-nos João Courinha. Quanto aos 100 hectares da Herdade do Sabugueiro, só a partir do próximo ao (o 4º) começará a ter expressão. “Por agora, vendemos a amêndoa, para a indústria em Espanha, mas no futuro iremos comercializá-la, com casca ou em miolo, também sob a marca Quinta do Pereiro, que já tem notoriedade no mercado, as pessoas já a pedem, no MARL e nas grandes superfícies, pelo que vamos aproveitar o caminho já feito pelas nozes, para as amêndoas e os figos. Embora nos figos, se forem frescos, a distribuição tenha de ser feita de forma diferente, mas ainda estamos a estudar a melhor forma”, adianta o agricultor.

“Para a amêndoa, iremos avaliar se se justifica investirmos numa central de britagem, dependendo da produção e dos preços de mercado”, afirma.

O mercado da amêndoa também tem tido uma evolução positiva, devido igualmente à seca na Califórnia, o maior produtor mundial, e também em Espanha, o maior em área.

Voltando, de novo, à importância fundamental que assume a água na cultura dos frutos secos, João Courinha refere que “Espanha tem a maior área de amendoal do mundo, com 600.000 hectares, mas como a produção é de sequeiro produz apenas 120 kg/ha, enquanto a Califórnia, com 200.000 hectares, atinge produções de 2.000 kg/ha”.

O equipamento de apanha da amêndoa é muito mais simples que o da noz, revela o produtor: “é idêntico ao usado na azeitona, estando tudo acoplado ao trator: o vibrador e o chapéu onde caem as amêndoas e também a descascadora da casca verde, que fica no terreno para compostagem, repondo no solo grande parte do potássio, uma vez que 80% do potássio que damos à cultura vai para a casca verde”.

A Quinta do Pereiro e a Herdade do Sabugueiro estão em Proteção Integrada e, no caso da amêndoa, “fazemos adubação em verde e com matéria-orgânica, só dando nitratos quanto é mesmo imperativo”. Na noz, dão sulfato de amónio, sulfato de potássio, fósforo de rocha e adubos foliares.

A água de lavar a casca da noz, que tem muitos taninos e acidez, passa por um tanque com palha e ao fim de um dia a acidez está neutralizada e pode ser usada para rega ou para a compostagem das cascas verdes e das rijas, que também são picadas e se juntam às outras, ficando cerca de dois anos em compostagem para depois serem usadas para adubar os terrenos. “Tentamos que o ciclo do pomar seja o mais fechado possível”, diz João Courinha.

Artigo publicado na edição de outubro de 2015 da revista VIDA RURAL