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Uma baga, para dar muito ‘bago’

Produto bem pago, com mercado assegurado e em crescimento, em Portugal e na Europa, as bagas de goji são um negócio tão novo que ninguém se conhece. Mas a VIDA RURAL encontrou dois agricultores e dá-lhe a conhecer os meandros desta cultura.

A agricultura em Portugal tem ganho adeptos e nem todas as pessoas que escolhem esta atividade pretendem as culturas mais tradicionais. A falta de concorrência pode ser um trunfo, mas também limita o mercado. As bagas de goji são um fruto que está a conhecer adeptos, ainda que os estágios estejam praticamente no nível da experimentação.

“O cultivo das bagas goji em Portugal ainda é desconhecido; e não tenho conhecimento de pessoas ou instituições especializadas nesta área. Consoante as carências ou doenças que vão surgindo, recorro à opinião de técnicos agrícolas da zona” – confessa ­Miguel Mota.

Nazaré Pimentel, no Alentejo, e Miguel Mota, no Oeste, são dois agricultores que estão a apostar neste fruto (Lycium barbarum), com origem no Tibete, e muito rico em aminoácidos.

Nos dois exemplos, o custo da terra não pesou, pois já a tinham. O risco está todo na novidade das técnicas, das práticas e no desbravar do comércio. O produto tem cotação internacional e procura crescente, além de espaço para crescer em termos de negócio. Portugal tem natureza para o receber.

Miguel Mota tomou conhecimento das goji numa mercearia das Caldas da Rainha e ficou curioso, com os benefícios que lhe atribuíram. Após alguma pesquisa na internet percebeu existir um nicho de negócio que valia a pena investigar. “Achei que seria uma boa oportunidade produzir este fruto. Pouco conhecido no mercado nacional, mas com grandes perspetivas de crescimento em Portugal e na Europa. Penso que possuí­mos boas condições climatéricas para uma produção de qualidade”.

Já a abordagem de Nazaré Pimentel foi um pouco diferente. “A ideia das gojis nasceu há coisa de ano e meio. Costumo ser mais dada à prevenção do que à medicação e ouvi falar delas onde faço quiroprática”.

As duas explorações estão a dar os primeiros passos, mas os resultados obtidos parecem ser animadores. Nos dois casos sonha-se com o alargamento do negócio.

“O meu objetivo é alargar a área produtiva. No nosso país, as bagas goji ainda não são um fruto tão conhecido como na Europa, mas a procura é cada vez maior. Atualmente, as bagas são consumidas como fruto seco. Pretendo também produzir o fruto para consumo em fresco, visto que em Portugal não se encontra” – conta Miguel Mota.

A fonte de informação de Nazaré Pimentel foi a mesma de Miguel Mota. Conta a empresária: “Fiz pesquisa na internet, vi que tínhamos condições e, como estamos a importar tudo da China, por que não experimentar?”. A razão da tentativa de Nazaré Pimentel deveu-se à adaptabilidade da planta, que sobrevive entre os 15 graus negativos e os 40 graus positivos, em solos básicos e sem grandes cuidados, do Vietname à China.

As informações de Miguel Mota são mais precisas, mas confirmam o bom feitio das goji: “cresce bem em qualquer tipo de solo, desde que tenham boa capacidade de drenagem e ventilação”. Porém tem preferências, indica o agricultor do Oeste: “em solos arenosos a planta cresce mais lentamente, não é tão suscetível a fungos e as bagas apresentam melhor qualidade logo no primeiro ano”.

Ninguém se conhece, mas ouvem-se zunzuns. Não será por acaso que se diz que Portugal é uma aldeia. Miguel Mota dá uma achega: “Sei que em Portugal já estão a ser feitos ensaios sobre a cultura, mas ainda sem dados conhecidos”.

Planta de Goji - Nazaré e Afonso Pimentel [1]

Planta de Goji

Os princípios

Depois de cruzar o olhar e tocar as goji nas Caldas da Rainha, o começo da experiência de Miguel Mota aconteceu em 2011, numa visita ao Horto do Campo Grande, em Lisboa, onde encontrou algumas plantas à venda. “Adquiri quatro plantas para tentar perceber o seu desenvolvimento e as suas características. Em fevereiro começaram a aparecer os primeiros rebentos, o que me fez acreditar que estariam a adaptar-se. No fim do verão experimentei reproduzir as plantas por estaca, com sucesso”. Atualmente, Miguel Mota tem cerca de 450 plantas, divididas em três áreas, que no total ocupam perto de 5000 metros quadrados.

Em adulto, o arbusto dá entre 500 gramas e dois quilogramas de fruto. O preço é atraente, reconhece, Nazaré Pimentel. Pois nas grandes superfícies, as bagas, desidratadas, são vendidas a três euros cada 100 gramas, afiança a agricultora do Alandroal.

“Como tínhamos uma amiga na China, pensámos: por que não arriscar?”. Trouxe bagas desidratadas, que foram colocadas em água durante meio dia. “Com muita paciência”, porque as sementes são muito pequenas, do tamanho da cabeça de um alfinete, “colocaram-se em solo húmido com um plástico por cima para manter a humidade. Depois de estarem em substrato, para germinação, foram feitas diferentes experiências”: solos, substratos, misturas de solos, misturas de substratos, misturas de solos e substratos. Foram também ensaiados vários tipos de fertilização, conta Nazaré Pimentel. “A ideia é completamente pioneira. Andamos a aprender connosco mesmos”.

Afonso Pimentel, marido e parceiro de Nazaré, explica que os primeiros frutos dão-se após dois anos, mas… “ouvimos algumas pessoas falar em quatro anos. Sabemos dum caso em Alcobaça que terá dado num ano e lá o clima não é nem tão mais frio, nem tão mais quente do que aqui [Alandroal]. Foi curioso aparecerem gojis no final do primeiro ano”.

Nazaré Pimentel pretende cultivar 15 000 pés em quatro hectares, meta estabelecida a cinco anos. Este será o ano do primeiro plantio. Tudo dependerá da chuva, mas a vontade é que seja em março, uma vez que o inverno é um período de dormência.

Neste momento, na exploração dos Pimentel a cultura está em germinação. Em pequenas caixas colocaram 3000 pés. Pede-se muito cuidado, pois as raízes são pequenas e frágeis, o transbordo para o local definitivo exige mãos de fada e paciência de chinês.

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A germinação nos Pimentel está a ser feita dentro de estufa. “Têm quatro meses e estão a aguentar-se. Vamos ver como será a primavera. Agora estão hibernadas. Para frutificarem precisam de temperaturas baixas, daí as boas condições do Alentejo” – afirma Nazaré Pimentel.

“Em solos arenosos a planta cresce mais lentamente, não é tão suscetível a fungos e as bagas apresentam melhor qualidade logo no primeiro ano.”

O espaço e o modo

Fazendo conta ao espaço disponível e à dimensão previsível da planta, Nazaré Pimentel optou por um compasso de três metros, de modo a que se possa manobrar entre as plantas, visto o diâmetro típico ser de 2,5 metros. Para conforto de manuseamento, a planta terá dois metros de altura, mas se a deixarem pode alcançar os cinco metros. “Será uma laranjeira pequena”, diz a agricultora.

Ao modelo escolhido pelos Pimentel, Miguel Mota aponta a alternativa do crescimento livre e espontâneo. Porém, o agricultor do Oeste seguiu também a opção da árvore dum único tronco.

A exploração de Miguel Mota, com plantas de um e dois anos, tem o cultivo “todo feito ao ar livre, utilizando apenas um abrigo para a reprodução por estaca. Adquiri quatro plantas (12 euros cada), todas as outras foram reproduzidas a partir destas. O sistema de rega é um reaproveitamento de fitas de gota de outras culturas. A água é fornecida por furo já existente no terreno. A adubação até ao momento é pouca, recorrendo-se sobretudo a composto orgânico. Os fitofármacos utilizados são mínimos”.

Planta de Goji [3]

Goji

Embora não sejam plantas complicadas de serem trabalhadas, as goji são exigentes em termos de quantidade de mão de obra. “Não é o tipo de cultura a que se possa virar as costas. Como é uma planta que cresce muito de forma espontânea, tem que se ter cuidado com a área que a planta ocupa, consoante a forma/poda que se quer dar. No caso de se optar por formar uma árvore com tronco único, nos primeiros anos esta tem que ser guiada” – revela Miguel Mota.

Nazaré Pimentel refere que é pouco o tipo de trabalho que requerem as plantas de goji, que necessitam de pouca água. Os produtores do Alandroal referem 1,5 litros de água semanais por planta e só nos períodos secos, que são os meses de julho e agosto, que são também os momentos da frutificação. A colheita deverá acontecer no final de agosto e em setembro.

Miguel Mota parece ser um pouco mais parcimonioso quanto ao uso de água, mas talvez a sua experiência, realizada em local mais húmido, possa explicar essa eventual diferença. “É uma planta com grande resistência à seca, devido à grande profundidade do sistema radicular. No período de produção deve ser regada apenas quando as temperaturas ambiente são elevadas por um longo período. As plantas jovens devem ser regadas regularmente, uma vez por semana”.

“A planta não tem requisitos especiais em água, sendo bastante resistente à seca. No entanto, nos períodos em que não chove, utilizo a rega gota a gota uma vez por semana. A planta não tolera encharcamento e a rega deve ser efetuada no período da manhã, uma vez que é muito sensível a fungos (oídio)” – salienta Miguel Mota.

Quanto a doenças e pragas, Miguel Mota refere que o excesso de humidade provoca o aparecimento de oídio, “que se controla através de fungicida. Também é atacada por piolho e tripes”. As aves são clientes, tanto das bagas como das folhas, pelo que são necessárias intervenções que atenuem os estragos, refere o agricultor do Oeste, que sugere a colocação, nas plantas, de tiras de papel de alumínio para os afugentar.

“Nas grandes superfícies, as bagas, desidratadas, são vendidas a três euros cada 100 gramas”

Mas que uso têm estas bagas vermelhas? “Reduz a fadiga, reduz o envelhecimento da pele, é um antioxidante”… garante Nazaré Pimentel, que cita um estudo da Universidade de Harvard, que conclui que o consumo diário, em seco ou em sumo, baixa a glicemia e a hipertensão.

O fruto, seja desidratado ou fresco, já é possível encontrar à venda em Portugal, mas há mais propostas gastronómicas e que não estão disponíveis nos pontos de venda. Garantem os Pimentel que sumo, sopa e salada são variantes interessantes de consumir goji.

A longevidade produtiva da planta pode chegar aos 60 anos, mas o pico produtivo dá-se entre o quinto e o décimo, conta Nazaré Pimentel. Números diferentes tem Miguel Mota: “As plantas têm uma vida útil de 35 anos. Começam a produzir logo no primeiro ano, cerca de um a dois quilogramas. No entanto, as bagas são, por norma, muito pequenas. Só a partir do terceiro e quarto ano é que começa o auge da produção”.

Não necessitando de alfaias específicas, pois é feita manualmente, a colheita requer perícia, pois as bagas são muito sensíveis. “A colheita também exige muita mão de obra, uma vez que esta é manual e as bagas devem ser apanhadas a cada três ou quatro dias, desde julho até finais de outubro”, diz Miguel Mota.

O grande investimento tem sido feito sobretudo nas horas que dedico à cultura, por ser muito incipiente – revela Miguel Mota. “Até ao momento não recorri a apoios, uma vez que ainda não quantifico as receitas. Os dados que existem referem-se a outros países, embora tudo indique que em Portugal tenhamos todas as condições para uma cultura de sucesso” – afirma Miguel Mota.

Artigo publicado na revista VIDA RURAL de fevereiro de 2014 (1794)