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Venda direta e cadeias curtas ganham relevância

Como é que um pequeno agricultor vende os seus produtos frescos? Dirigentes, especialistas e técnicos com quem falámos respondem que a venda direta e as cadeias curtas têm vindo a crescer como escolha de escoamento dos pequenos produtores. Exemplos como o PROVE, lojas de organizações de produtores, feiras e mercados rurais são cada vez mais opções.

Podemos dizer que são ‘velhas’ algumas das novas soluções de venda dos seus produtos que encontram os pequenos agricultores, muito deles jovens que há pouco começaram nestas lides. Isto porque, vender em feiras rurais diretamente ao consumidor ou mesmo em pequenas lojas ou frutarias de bairro, era a principal forma como os produtores vendiam as suas frutas e legumes no século passado.

O crescimento da população e a expansão de cadeias de super e hipermercados mudou os hábitos de consumo e, consequentemente, os canais de venda dos produtores, principalmente nas zonas urbanas. Nos últimos anos, todavia, o consumidor voltou a valorizar o contacto com o produtor, o tradicional e a produção local, mais ‘genuína’.

Apesar de haver a procura de produtos diferentes, “a maioria dos projetos apresentados para jovem agricultor continuam a ser de produtos tradicionais, onde somos mais competitivos.”

Uma tendência que o Governo também quer valorizar, uma vez que prepara, neste momento, um diploma para estimular e regulamentar a criação de mercados locais de produtores, os chamados mercados de proximidade (ver caixa).

Apesar de muitos pequenos agricultores terem optado por se associarem em Organizações de Produtores (OP), para ganharem dimensão e poder negocial com os canais mais habituais (distribuição moderna e armazenistas), nem todos o fazem, por diversas razões e “a dimensão obriga a procurar mercados alternativos”, afirma Carlos Franco, da direção da Confederação Nacional dos Jovens Agricultores e do Desenvolvimento Rural (CNJ). O responsável adianta que, apesar de haver a procura de produtos diferentes, “a maioria dos projetos apresentados para jovem agricultor continuam a ser de produtos tradicionais, onde somos mais competitivos” e, no caso dos hortofrutícolas, a aposta de escoamento tem sido principalmente de proximidade, voltando a sistemas tradicionais de comércio, como lojas de bairro, mercados ou feiras rurais. “Mas muitos destes jovens, embora queiram manter-se independentes, estão abertos a formar pequenos grupos ‘informais’ para comercialização dos seus produtos”, acrescenta.

PROVE: uma ideia de sucesso

Um dos primeiros projetos a ‘romper’ com os canais tradicionais foi o PROVE – Promover e Vender, criado pela Associação para o Desenvolvimento Rural da Península de Setúbal (ADREPES). O PROVE “é uma metodologia que pretende contribuir para o escoamento de produtos locais, fomentando as relações de proximidade entre quem produz e quem consome, estabelecendo circuitos curtos de comercialização entre pequenos produtores agrícolas e consumidores, com recurso às TIC”, explica-se no site do projeto.

“O processo de comercialização teve início em 2006, nos concelhos de Palmela e Sesimbra, tendo sido posteriormente disseminado, com enorme sucesso, de norte a sul de Portugal através de Grupos de Ação Local (GAL), produtores e consumidores, mas também de autarquias, organizações de agricultores e diversos parceiros locais”, adianta, sendo hoje “cerca de 80”, de acordo com António Pombinho, vereador responsável pelas Atividades Económicas na Câmara Municipal de Loures (onde no ano passado foi criado um núcleo PROVE), e que estava na ADREPES na altura da criação do projeto.

“Neste momento, o PROVE desenvolve-se no âmbito da cooperação interterritorial do Subprograma 3 do PRODER – Programa de Desenvolvimento Rural do Continente e conta com a participação de 16 Grupos de Ação Local, tendo o apoio da Federação Minha Terra – Federação Portuguesa de Associações de Desenvolvimento Local”, adianta o site do PROVE.

“Depois de muita pesquisa sobre o que se fazia noutras regiões da Europa, conversas com produtores e consumidores, percebemos que havia apetência do consumidor, principalmente urbano, de conhecer quem produz e criar uma relação de confiança.”

António Pombinho explica que a Associação pensou no projeto para resolver o principal problema dos produtores dos concelhos da região, “que não tinha a ver com produzir bem, embora se possa sempre fazer melhor, mas para a questão da distribuição que não estava na mão dos produtores e os estava a ‘afogar’”. Assim, adianta o responsável “depois de muita pesquisa sobre o que se fazia noutras regiões da Europa, conversas com produtores e consumidores (fizemos inquéritos, etc.) percebemos que havia apetência do consumidor, principalmente urbano, de conhecer quem produz e criar uma relação de confiança”.

Foram então criados grupos de três, quatro, pequenos produtores locais, e António Pombinho frisa que “este sistema está pensado e funciona para grupos pequenos de produtores”, foi criado o software que permite a ligação/encomenda, o sistema dos cabazes, pensados para uma família tradicional que faz uma refeição em casa, sempre com produtos endógenos e da época, e começou-se a funcionar em Palmela e Sesimbra, também com o apoio dos municípios.

“A ferramenta informática é user friendly e permite aos produtores serem eles a controlar a forma de distribuição dos rendimentos entre eles, porque cada cabaz tem/pode ter produtos de vários agricultores”, adianta.

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Em Loures, onde é vereador, António Pombinho congratula-se pela criação de dois núcleos PROVE, com entrega em Sacavém, sendo um de produtos biológicos, “mas estamos a trabalhar para muito rapidamente iniciar um em Loures”.

Num seminário realizado em dezembro do ano passado, nas Caldas da Rainha, “A diversificação na agricultura no Oeste”, José Diogo, técnico da ADREPES ao falar sobre as “Oportunidades de negócio para a Agricultura familiar: circuitos curtos e diversificação de atividades” deu alguns números do PROVE (ver quadro) e enumerou outras experiências como vários Mercados Locais de Produtores. É o caso da iniciativa Quintais nas Praças do Pinhal, espaços de comercialização aberta aos produtores que tenham residência ou exerçam atividade num dos concelhos do Pinhal Maior e cumpram o regulamento; do Mercado Agrícola Online, um site na internet, de acesso gratuito onde os agricultores podem anunciar as produções hortícolas; dos Mercados Ecorurais, um espaço de contacto direto com o produtor local para prova de produtos regionais, para aprender novas experiências gastronómicas e conhecer o saber-fazer das artes decorativas das regiões parceiras ou dos Mercados AGROBIO (espaços de comercialização de produtos biológicos frescos e transformados.

Portugal tem tradição de inúmeras feiras rurais que se mantiveram ao longo dos anos, como o tradicional mercado das Caldas da Rainha, ponto de paragem obrigatória de qualquer visitante da cidade.

Feiras rurais crescem

Mantendo a ideia-base do PROVE, a ADREPES começou já também a desenvolver um outro projeto destinado à venda direta, mas neste caso a restaurantes, cantinas e refeitórios: Da Quinta ao Prato. “Estamos a começar a trabalhar a um outro nível”, diz António Pombinho à VIDA RURAL, salientando que esta “é uma outra estrutura, com base nos municípios, nos GAL – como a recente A2S criada por Loures, Mafra e Sintra –, e com outros grupos de produtores” e já tem site próprio onde potenciais interessados, produtores e clientes, podem saber mais informações sobre o projeto.

Voltando à conversa com Carlos Franco, da direção da CNJ, falamos de uma iniciativa que a Confederação tem vindo a promover nos últimos anos, na primavera/verão: as feiras rurais. “São feiras organizadas por nós, limitadas a 30 tendas-tipo, com o apoio dos municípios e/ou juntas de freguesia e que permitem a pequenos produtores venderem os seus produtos de época diretamente ao consumidor final”, explica, acrescentando que são sempre espaços de ar livre e que convivem com outros produtos de produção local, como queijos e enchidos.

Além destas feiras promovidas pela CNJ, Portugal tem tradição de inúmeras feiras rurais que se mantiveram ao longo dos anos, como o tradicional mercado das Caldas da Rainha, ponto de paragem obrigatória de qualquer visitante da cidade, mas também Torres Vedras mantém há 11 anos a sua feira rural.

Isabel Silva, responsável da Câmara Municipal de Torres Vedras pela organização desta feira, explica-nos o modelo: “os hortofrutícolas, tão tradicionais da nossa região, estão precisamente na origem da feira que nasceu para que os agricultores pudessem vender os seus produtos. A feira realiza-se de abril a outubro, das 8 h às 18 h, sempre no primeiro sábado de cada mês nas ruas da cidade”. A feira ocupa nove ruas (sendo três dedicadas aos hortofrutícolas, e as restantes a doçaria, queijos, artesanato e velharias, num total de 250 bancas. “Temos lista de espera, nomeadamente no artesanato, mas os agricultores têm sempre primazia, esses é só inscreverem-se e têm sempre lugar. Não pagam nada, só têm o compromisso de estarem presentes em todas as feiras (ou avisarem com antecedência se não puderem), a câmara trata de toda a montagem e divulgação”, adianta Isabel Silva, acrescentando que “a restauração da cidade também é envolvida, uma vez que no dia da feira rural os restaurantes aderentes ao projeto têm de ter, pelo menos, um prato com o produto do mês (de época) – fava, ervilha, etc.”. O município oferece também animação e serviço de babysitting para os pais poderem fazer as compras mais descansados e há também a particularidade de “a feira do mês de agosto se realizar em Santa Cruz por ser o mês de férias por excelência e quando aquela nossa praia está cheia de veraneantes”, diz a responsável.

FUNCHAL, PORTUGAL - JUNE 14, 2013: People visit the famous market Mercado dos Lavradores in Funchal, capital city of Madeira island, Portugal

Startups e lojas de OP

Isabel Silva conta-nos ainda que “alguns projetos ‘ganharam pés para andar’ por causa da nossa feira, dando já origem a startups, como ‘O Meu Amor É Verde’, de Dário Nemésio”. O produtor tem hoje várias estufas no concelho dedicando-se à produção, principalmente, de suculentas, mas de uma forma mais moderna, usando o design, etc. “Abriu uma loja em Campo de Ourique, mas depois foi convidado para abrir outra no Mercado da Ribeira e acabou por fechar a primeira, sendo também ele o responsável pela manutenção das floreiras de todo o novo espaço do mercado”, afirma a responsável do município, salientando que “todavia, nunca deixou de continuar a participar na nossa feira”. Isabel Silva diz ainda que a feira rural tem sido também um bom mecanismo de encontro de pequenos produtores, até para desenvolverem alguns projetos em conjunto”.

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Outras opções de venda em circuito curto são as lojas que existem em algumas cooperativas e Organizações de Produtores. As lojas da Maçã de Alcobaça, da Frubaça, são um dos melhores exemplos. A central teve uma loja quase desde o início e mais tarde, no início da década de 2000, devido ao volume interessante de vendas que a loja tinha decidiu avançar para a abertura de mais algumas lojas. O conceito foi resultando e hoje são 15 espaços na zona de Alcobaça e Leiria, que vendem produtos hortofrutícolas e transformados (sumos Copa) dos associados da cooperativa, mas também já de outros agricultores locais, cuja produção é acompanhada pelos técnicos da cooperativa, para garantir o controlo e segurança alimentar.

Os pequenos agricultores devem apostar em três canais: Venda direta através do e-commerce; novos mercados municipais e lojas de proximidade especializadas.

Lojas de proximidade estão de regresso às cidades

José António Rousseau, presidente do Fórum do Consumo e especialista na área da Distribuição, Logística e Consumo, considera que os pequenos agricultores devem apostar em três canais: Venda direta através do e-commerce; novos mercados municipais e lojas de proximidade especializadas.

No caso da venda online, José António Rousseau cita o exemplo da ‘Laranja do Algarve’ (um produtor com quem falámos), e refere que “como já existem várias operadores logísticos que garantem a entrega porta a porta e com custos aceitáveis, o produtor fica praticamente com toda a margem, pois não há intermediários. Contabilizam-se apenas os custos de produção e de entrega”.

O especialista fala-nos também das boas experiências com os novos mercados municipais, “estou a falar de mercados com transformação e valor acrescentado, como o de Campo de Ourique e o da Ribeira. Lembro-me de ouvir uma comerciante que tem uma banca no Mercado de Campo de Ourique dizer que ‘esta mudança foi como se tivesse ganhado o Euromilhões’. Trabalha mais, em horário mais alargado, nomeadamente ao fim de semana, mas vende incomparavelmente muito mais do que antes” e salienta: “mas para isso não é só necessária a vontade dos municípios para alterar as infraestruturas, etc., é fundamental a mudança da mentalidade dos retalhistas”.

“Como já existem vários operadores logísticos que garantem a entrega porta a porta e com custos aceitáveis, o produtor fica praticamente com toda a margem, pois não há intermediários. Contabilizam-se apenas os custos de produção e de entrega.”

O diretor do Fórum do Consumo considera que as lojas de proximidade, as antigas frutarias que estão a regressar às cidades, podem também ser uma boa opção de escoamento para pequenos produtores locais. “Mas é preciso também que estas lojas sejam criativas, veja-se o caso da já antiga Frutalmeidas em Lisboa, que além das frutas disponibilizou desde logo sumos, e depois foi passando a ter também refeições leves, etc. e abriu outras lojas”, refere.

José António Rousseau salienta que “os super e os hipermercados vão também continuar a ser canais muito importantes”, mas “no caso dos pequenos agricultores, estas opções são também possíveis agora, porque está a haver uma mudança geracional e de mentalidades. Temos produtores mais jovens, com outras capacidades, nomeadamente de acesso a tecnologias e ferramentas de gestão”.

Sobre o seu projeto Laranja do Algarve (laranjadoalgarve.com), que foi lançado em 2010, José Mendonça explica-nos “que, devido à enorme quebra do consumo, tive de suspender a venda no ano passado e estou a reestruturar o projeto”. José Mendonça afirma que decidiu avançar para a venda direta online porque o sistema anterior (venda a armazenistas) não lhe garantia rentabilidade. “Durante algum tempo o projeto funcionou, mas devido à crise, foi decrescendo e tive de o repensar”, diz o agricultor. Assim, “estou a reestruturar os pomares e no caso da laranja Newhall, por exemplo, tinha 1500 árvores e vou ficar apenas com 400, porque dá para satisfazer a procura de clientes certos que tinha. Nesse espaço vou apostar numa cultura tradicional do Algarve, a alfarroba e que tem muito menos custos de produção e grande potencial”, revela o produtor, adiantando que “até estou a pensar na possibilidade de fazer uma pequena unidade de transformação de farinha para ‘chocolate’, uma vez que a alfarroba é um excelente substituto do cacau, com muito sabor e menos calorias”.

Outra diversificação será a plantação de oliveiras de azeitona Maçanilha, “porque há uma unidade de azeitona britada aqui em Tavira e que me comprará tudo o que produzir”, conta José Mendonça.

Nos citrinos, diz-nos ainda que irá manter as variedades tradicionais portuguesas “como as tangerinas Encore e Setubalense, que só não existem nos super e hipermercados, porque têm uma duração curta, de cerca de oito dias, só dando mesmo para a venda direta, que vou voltar a fazer já a partir de março”.

GOVERNO PREPARA DIPLOMA DOS MERCADOS LOCAIS DE PRODUTORES

Os mercados locais de produtores não têm, atualmente, regime legal próprio. Por isso, explica o gabinete do secretário de Estado da Alimentação e da Investigação Agroalimentar, “importava criar o suporte para o desenvolvimento daqueles mercados”, tendo em conta, por um lado: “o Regulamento do Parlamento Europeu e do Conselho relativo ao apoio ao desenvolvimento rural pelo Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural (FEADER) que estabelece apoio ao desenvolvimento rural no período 2014-2020 para melhorar a competitividade de todos os tipos de agricultura, assegurar a viabilidade das explorações agrícolas, bem como a promoção da organização de cadeias alimentares, nomeadamente através do desenvolvimento de mercados locais e de cadeias de abastecimento curtas”, assim, adianta o gabinete, “importava fixar o respetivo regime jurídico para que estivessem reunidas as condições legais para a apresentação de candidaturas àqueles fundos”.

A mesma fonte diz ainda à VIDA RURAL que o objetivo do Governo é “definir objetivos estratégicos para a agricultura nomeadamente a promoção da criação e dinamização de mercados de proximidade, tendo como assente que as vendas diretas e as cadeias curtas agroalimentares contribuem para valorizar e promover os produtos locais e, simultaneamente, estimular a economia local, criar emprego, reter valor e população no território”.

Assim, no diploma em preparação “estipulam-se as regras de instalação de um Mercado Local de Produtores e permite-se que a mesma possa ser da iniciativa de uma autarquia, de um conjunto de autarquias, de um conjunto ou associação de produtores, de associações de desenvolvimento local ou de parcerias entre estas entidades, podendo no mesmo participar: a) pessoas singulares ou coletivas para comercialização dos produtos da produção local resultante da sua atividade agrícola e agropecuária; b) pessoas singulares ou coletivas para comercialização dos produtos transformados, de produção própria, com matéria-prima exclusivamente resultante de produções agropecuárias de origem local; c) grupos de produtores agrícolas que comercializem produtos agrícolas e agropecuários de produção local própria”.

O gabinete do secretário de Estado da Alimentação e da Investigação Agroalimentar adianta que com este diploma pretende-se: “1 – disponibilizar espaços e equipamentos; 2 – apoiar os produtores, designadamente no processo de início de atividade junto dos serviços de finanças, e consumidores; 3 – facilitar equipamentos de registo de vendas aos produtores locais (vulgo, caixas registadoras), facilitando com isso a existência de uma única fatura (fatura-resumo que é impressa pela máquina registadora no final do dia)”.

SOLUÇÕES GOURMET

Além dos canais que falamos no artigo, para os produtores que optam por fazer alguma transformação aos seus produtos (compotas, ervas aromáticas secas ou chás, frutas desidratadas, bagas embaladas, cogumelos e derivados, entre outras), além de vinhos, azeites, queijos e enchidos, as soluções ‘gourmet’ são também cada vez mais.

Desde as mercearias ou lojas gourmet, em espaço físico ou online, às opções mais recentes de encomenda online em ‘caixa-surpresa’ como a Umami box ou a My Own Portugal, ao sommelier em casa da O Meu Copo, as escolhas multiplicam-se e o consumidor, urbano e com algum poder de compra, parece estar a aderir a estas ideias. Tudo sempre aliado a uma imagem e design moderno e a um serviço impecável.

Artigo publicado na edição de março de 2015 da revista VIDA RURAL