A agricultura continua a ser um pilar essencial para a sobrevivência das comunidades rurais na Ucrânia, apesar dos efeitos prolongados da guerra, da quebra de rendimentos e do acesso limitado a fatores de produção. O alerta é da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que divulgou uma nova avaliação sobre segurança alimentar e meios de subsistência agrícolas no país.
O relatório, baseado em entrevistas a mais de 2.800 famílias em nove regiões junto à linha da frente, mostra que a produção agrícola continua a funcionar como uma rede de segurança para muitas famílias.
Segundo a análise, quatro em cada dez agregados familiares mantêm atividade agrícola e, em grande parte dos casos, essa produção destina-se sobretudo ao autoconsumo, ajudando a garantir alimentos e a reduzir a exposição à subida dos preços.
Ainda assim, a FAO conclui que os meios de subsistência rurais estão sob pressão crescente. Uma em cada três famílias indicou ter registado uma quebra de rendimento no último ano, enquanto mais de 75% disseram ter recorrido a estratégias de sobrevivência, como gastar poupanças, contrair empréstimos ou cortar despesas essenciais, nomeadamente em saúde e educação.
“Para muitas famílias rurais na Ucrânia, a agricultura não é apenas uma fonte de renda – é uma tábua de salvação que as ajuda a alimentar suas famílias e a manter um senso de estabilidade apesar da guerra em curso”, afirmou Shakhnoza Muminova, chefe do escritório da FAO na Ucrânia. E continua: “apoiar os agricultores e as famílias rurais é, portanto, necessário não apenas para proteger a segurança alimentar hoje, mas também para salvaguardar a resiliência e a recuperação das comunidades rurais”.
A avaliação identifica também um agravamento das dificuldades entre os grupos mais vulneráveis, como deslocados internos, agregados familiares chefiados por mulheres e famílias que vivem mais perto da linha da frente. Estes grupos apresentam níveis mais elevados de insegurança alimentar, maior exposição a choques e maior dependência de mecanismos de sobrevivência.
“A avaliação mostra que muitas famílias rurais continuam a depender da agricultura como uma estratégia crucial de sobrevivência”, referiu Aziz Karimov, chefe da Unidade de Avaliação, Investigação e Monitorização da FAO Ucrânia e um dos principais autores do relatório.
E continua: “no entanto, a queda na renda, os choques repetidos e o acesso limitado a insumos agrícolas estão enfraquecendo gradualmente essa rede de segurança, deixando as famílias vulneráveis cada vez mais expostas à insegurança alimentar.”
Entre os principais dados do relatório, destaca-se o facto de 40% das famílias inquiridas estarem envolvidas na produção agrícola e de 86% das famílias agricultoras produzirem sobretudo para autoconsumo. Ao mesmo tempo, 30% dos produtores agrícolas reportaram colheitas mais baixas, valor que sobe para 45% na região de Kherson. Já na pecuária, 20% dos produtores indicaram ter perdido animais devido à guerra.
O documento revela ainda que 42% das famílias nas zonas mais afetadas dependem principalmente de pensões e 36% de apoios sociais, enquanto 3% dizem não ter qualquer fonte de rendimento. Entre os deslocados entrevistados, 70% afirmaram ter sido obrigados a abandonar o gado ao fugir das suas casas.

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