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Opinião

Opinião: A revolução geneticamente modificada

No início deste ano, a Assembleia da República discutiu a tão afamada temática dos Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), tendo-se ouvido a esquerda portuguesa contar uma bonita história mas bem desfasada da realidade científica moderna.

Naturalmente, sendo pouco razoável observar o desenvolvimento científico como algo negativo, esta posição da nossa sinistra parlamentar apenas se justifica para aqueles que temem observar a ciência moderna como algo apenas ao alcance de Estados com elevada disponibilidade financeira ou evidentemente de empresas privadas com distinto poder económico, as mal-afamadas multinacionais. Somos assim informados que os OGMs “alimentares”, ainda que tratando-se de ciência de ponta, não devem ter oportunidade de entrar no mercado apenas e só porque comportam enormes custos e claro potenciais benefícios económicos para as multinacionais.

Percebe-se agora por que motivo a esquerda não gosta dos OGMs? É que não havendo quaisquer evidências de que de estes representem um perigo para a saúde pública, só resta o argumento do lucro por parte dos privados.

Falando em alimentos geneticamente modificados, trato de produtos agrícolas para os quais se pretende conservar um potencial produtivo, evitar drasticamente as perdas alimentares, proteger o ambiente, utilizar menos produtos químicos e até mesmo aumentar a biodiversidade. Isto são temas que todos almejamos, mas para isso não podemos impedir o desenvolvimento tecnológico por demais evidente.

Naturalmente que os cientistas e agricultores, então presentes na Assembleia da República, tentaram em vão utilizar argumentos técnicos para que se fizesse notar a falta de transparência deste debate. Desafortunadamente, para além do reduzido tempo que restou para contra-argumentar, tornou-se por demais evidente que o Partido dos Animais e da Natureza (animais de estimação nas grandes cidades?), e a demais esquerda, negam as evidências científicas para proporem uma agenda política, mas isso já não é novidade.

Novidade, essa sim, é que os agricultores europeus perdem muita competitividade global em todas estas batalhas perdidas. Todos os cidadãos europeus apoiam a agricultura europeia através do pagamento de fortes impostos, para que esta se torne sustentável económica e ambientalmente, e para que possam obter alimentos que tenham passado pelo crivo da melhor segurança alimentar ao nível mundial. Se é verdade que as políticas agrícolas europeias remuneram os agricultores pela produção de bens públicos, não é menos verdade que tais políticas almejam tornar os nossos empresários agrícolas cada vez mais competitivos.

Infelizmente, machadadas como esta da proibição dos OGMs, tornam-nos menos competitivos, estrangulando a adopção e utilização de produtos inovadores, que ironicamente importamos em grandes quantidades de países terceiros. De facto, quando a política embate nos consumidores, estes inevitavelmente procuram alternativas. Para chegar a esta conclusão, basta que nos perguntemos de onde vem a soja que bebemos naquelas bebidas matinais, ou mesmo as rações que os animais portugueses consomem diariamente, ou ainda a insulina que pessoas insulinodependentes tomam.

Naturalmente que a indústria europeia de alimentos e rações não subsiste sem grandes quantidades de alimentos importados, que em parte são produtos transgénicos. Não vale a pena preocuparmo-nos em demasia, pois não os produzimos, somente os consumimos. E com isto a riqueza fica toda acumulada além-fronteiras, mas isso é conversa para outra altura.

Contudo, para que este cenário se modifique é preciso que os nossos políticos se detenham mais no campo científico e menos nas agendas políticas.