A engenheira agrónoma e investigadora Anabela Pedro Seabra criou o projeto KÓFI, que transforma leguminosas numa bebida vegetal e sem cafeína, pensada como alternativa ao café e como resposta a desafios ligados à sustentabilidade, à valorização de culturas locais e à diversificação alimentar.
Desenvolvida em Santarém, a iniciativa foi recentemente distinguida no âmbito do Programa TalentA, promovido pela Corteva Agriscience e pela Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), que reconhece e apoia projetos agrícolas liderados por mulheres.
O júri destacou na iniciativa a articulação entre sustentabilidade agronómica, economia circular, educação alimentar e um modelo de negócio híbrido, capaz de chegar tanto ao consumidor final como ao canal profissional.
Em entrevista à VIDA RURAL, Anabela Pedro Seabra explicou como nasceu a ideia de transformar leguminosas numa alternativa ao café, identificou os principais desafios do desenvolvimento do produto e sublinhou o potencial destas culturas do ponto de vista agronómico e ambiental.
Da conversa sobressaem ainda a aposta na valorização de matérias-primas locais, a importância da inovação sustentável no setor agroalimentar e a ambição de afirmar o projeto como uma referência ibérica em alternativas sem cafeína.
O que a motivou a criar o projeto KÓFI e como surgiu a ideia de transformar leguminosas numa alternativa ao café?
A ideia de criar o projeto KÓFI surgiu da vontade de valorizar as leguminosas e de explorar novas formas de consumo mais sustentáveis e inovadoras. Ao longo do tempo fui percebendo que existia um grande potencial nestas culturas, tanto do ponto de vista nutricional como agrícola, mas que muitas vezes não eram suficientemente valorizadas no mercado.
Assim, a ideia de transformar leguminosas em alternativa ao café surgiu da prática antiga de torrar grãos, sementes e raízes para fazer bebidas, algo já registado na Babilónia e no Antigo Egito. Trata-se assim de uma redescoberta dessa tradição, usando grãos de leguminosas como alternativa ao grão do café, seguindo a tendência moderna de marcas explorarem estes grãos alternativos mais sustentáveis e sem cafeína.
Quais foram os principais desafios que enfrentou ao desenvolver o projeto?
Um dos principais desafios no desenvolvimento do projeto KÓFI foi o processo de experimentação até chegar a um produto com um perfil sensorial equilibrado e agradável para o consumidor.
Transformar leguminosas numa bebida como a “bica” de tremoço exigiu vários testes, ajustes nos processos de torra e moagem e uma fase prolongada de validação.
Outro desafio importante foi a mudança de perceção do consumidor. As leguminosas estão tradicionalmente associadas a refeições salgadas e não a bebidas, pelo que é necessário trabalhar o conceito.
Um dos principais desafios no desenvolvimento do projeto KÓFI foi o processo de experimentação até chegar a um produto com um perfil sensorial equilibrado e agradável para o consumidor.
Como a sua formação como Engenheira Agrónoma influenciou o desenvolvimento da iniciativa?
A minha formação em Engenharia Agronómica teve um papel fundamental no desenvolvimento do projeto KÓFI. Deu-me uma compreensão profunda dos sistemas agrícolas, das culturas e da importância de promover práticas mais sustentáveis e resilientes.
A minha formação também me deu ferramentas para olhar para o setor de forma mais integrada, ligando produção agrícola, inovação e valorização de produtos locais. Acredito que isso influenciou a forma como o projeto foi pensado.
Quais são as principais vantagens do projeto em termos de sustentabilidade agronómica, como a baixa exigência hídrica e a melhoria do solo?
Uma das principais vantagens está relacionada com a menor exigência hídrica destas culturas quando comparadas com outras matérias-primas utilizadas em bebidas. Muitas leguminosas estão bem adaptadas às condições climáticas mediterrânicas, o que permite a sua produção com menor necessidade de rega e com maior resiliência em contextos de escassez de água.
Outro aspeto muito relevante é o contributo das leguminosas para a melhoria da fertilidade do solo. Estas plantas têm a capacidade de fixar azoto atmosférico através da simbiose com bactérias presentes nas raízes, reduzindo a necessidade de fertilizantes azotados e contribuindo para solos mais equilibrados e produtivos.
Além disso, a inclusão de leguminosas nas rotações culturais ajuda a diversificar os sistemas agrícolas e a melhorar a estrutura do solo. Isto traduz-se em sistemas de produção mais sustentáveis e resilientes.
Ao valorizar estas culturas e criar novas formas de consumo, o projeto KÓFI contribui também para incentivar a sua produção, promovendo uma agricultura mais alinhada com os desafios ambientais atuais e com a necessidade de sistemas alimentares mais sustentáveis
Como o projeto contribui para a economia circular ao utilizar subprodutos como substrato?
O projeto KÓFI procura integrar princípios de economia circular ao valorizar e reaproveitar subprodutos resultantes do processo como a borra da extração dos grãos de leguminosas, sendo utilizados, por exemplo, como substrato em diferentes aplicações agrícolas.
Além disso, esta lógica circular cria oportunidades adicionais de valorização económica, transformando aquilo que seria um resíduo num recurso útil. Desta forma, o projeto não se limita apenas à criação de um novo produto alimentar, mas procura também promover modelos de produção mais responsáveis, alinhados com os princípios da sustentabilidade e da bioeconomia.
O projeto KÓFI procura integrar princípios de economia circular ao valorizar e reaproveitar subprodutos resultantes do processo como a borra da extração dos grãos de leguminosas, sendo utilizados, por exemplo, como substrato em diferentes aplicações agrícolas.
O projeto “KÓFI” tem um modelo híbrido B2B e B2C. Como isso contribui para o sucesso no mercado?
O modelo híbrido B2B e B2C permite ao projeto KÓFI ter uma abordagem mais diversificada e estratégica no mercado. Por um lado, o canal B2C possibilita chegar diretamente ao consumidor final, criando uma relação mais próxima com o público, testando a aceitação do produto e recolhendo feedback importante para a sua melhoria e evolução.
Por outro lado, o canal B2B abre oportunidades de colaboração com empresas, como cafés, restaurantes, lojas especializadas ou distribuidores, permitindo ampliar a presença do produto no mercado e alcançar novos segmentos de consumidores. Este modelo também pode facilitar a escala de comercialização e aumentar a visibilidade da marca.
A combinação destes dois canais torna o projeto mais resiliente e flexível, permitindo diversificar fontes de receita e adaptar a estratégia de crescimento. Ao mesmo tempo, ajuda a consolidar o posicionamento do KÓFI como uma alternativa inovadora e sustentável, tanto para consumo individual como para integração em diferentes contextos do setor alimentar.
Que impacto espera que o projeto tenha na indústria agroalimentar em Portugal?
Espero que o projeto KÓFI possa contribuir para valorizar as leguminosas produzidas em Portugal e incentivar a criação de novos produtos agroalimentares inovadores a partir de matérias-primas locais.
A indústria agroalimentar tem um papel fundamental na ligação entre a produção agrícola e o consumidor, e projetos como este podem ajudar a demonstrar que é possível transformar culturas tradicionais em produtos diferenciadores e com valor acrescentado.
Outro impacto importante poderá ser o de promover uma maior diversificação na utilização das leguminosas, que muitas vezes ainda estão associadas a formas de consumo muito específicas. Ao introduzir novas aplicações, como uma alternativa ao café, abre-se espaço para aumentar o interesse do mercado e estimular a sua produção.
Acredito também que iniciativas como o KÓFI podem contribuir para reforçar a ligação entre inovação, sustentabilidade e agricultura, incentivando modelos de produção e consumo mais alinhados com os desafios ambientais atuais.
Ao apostar em matérias-primas locais e em processos que valorizam os recursos disponíveis, o projeto procura mostrar que é possível criar soluções agroalimentares que beneficiem simultaneamente os produtores, a indústria e os consumidores.
A indústria agroalimentar tem um papel fundamental na ligação entre a produção agrícola e o consumidor, e projetos como este podem ajudar a demonstrar que é possível transformar culturas tradicionais em produtos diferenciadores e com valor acrescentado.
O que a motivou a participar no Programa TalentA e como a experiência ajudou a impulsionar a iniciativa? O que destacou o júri?
A minha motivação para participar no Programa TalentA surgiu pela oportunidade de dar maior visibilidade ao projeto KÓFI e à marca nacional, assim como pelo facto de integrar uma iniciativa que valoriza o papel das mulheres no setor agrícola e na inovação rural.
O programa representa também uma plataforma importante para a partilha de conhecimentos e o desenvolvimento de competências, algo muito relevante para quem está a desenvolver um projeto empreendedor.
Este prémio é um reconhecimento importante para o empreendedorismo feminino no meio rural, tendo igualmente ajudado a estruturar melhor a iniciativa, a clarificar o seu potencial de mercado e a reforçar a estratégia de crescimento do KÓFI.
Penso que o júri destacou sobretudo o carácter inovador do projeto, bem como a sua forte componente de sustentabilidade e de valorização de culturas agrícolas. O facto de o projeto ligar a produção agrícola, a inovação alimentar e os princípios da economia circular terá também contribuído para evidenciar o seu potencial impacto no setor agroalimentar.
Quais são os planos futuros para o projeto “KÓFI”? Está a pensar expandir a produção ou explorar novos mercados?
Os planos futuros para o projeto KÓFI passam por consolidar a presença no mercado nacional e, progressivamente, explorar novos canais de distribuição e segmentos de consumidores.
O objetivo da marca, a primeira portuguesa do género, é posicionar-se como referência ibérica em alternativas sem cafeína, oferecendo uma bebida feita a partir de grãos de leguminosas.

