Um estudo de 10 anos desenvolvido em França concluiu que é possível produzir culturas arvenses sem recurso a pesticidas, mantendo níveis de produção e viabilidade económica em várias situações.
O projeto Rés0Pest, coordenado pelo Instituto Nacional de Investigação para a Agricultura, Alimentação e Ambiente (INRAE), analisou nove sistemas agrícolas sem utilização de pesticidas, no âmbito do programa Ecophyto DEPHY EXPE. Os ensaios foram realizados em nove locais, abrangendo diferentes condições de solo, clima e contexto produtivo, incluindo sistemas exclusivamente agrícolas e sistemas mistos com pecuária.
Os sistemas foram desenvolvidos em conjunto com agricultores, técnicos e investigadores, com base em princípios agroecológicos. A abordagem assentou em três pilares: prevenção de doenças, promoção da biodiversidade vegetal e melhoria da saúde do solo. Entre as práticas adotadas estiveram rotações de culturas mais longas e diversificadas, utilização de culturas de cobertura e limitação do uso de mobilização do solo, sendo permitido o recurso a fertilizantes minerais.
Os resultados indicam que, embora as produtividades dos sistemas sem pesticidas sejam frequentemente inferiores às dos sistemas convencionais, em alguns casos, atingem níveis equivalentes ou superiores. Ao longo do período de estudo, não se verificou um aumento significativo de pragas ou doenças, contrariando uma das principais preocupações associadas à eliminação de pesticidas.
A gestão de infestantes foi identificada como um dos principais desafios, sobretudo em espécies perenes. Em algumas situações, foi necessário recorrer à mobilização do solo, prática que pode entrar em conflito com objetivos de conservação do solo. Ainda assim, a eficácia no controlo de infestantes melhorou ao longo do tempo.
Do ponto de vista económico, os resultados mostraram que estes sistemas podem ser rentáveis. Em quatro dos locais analisados, as explorações apresentaram margens líquidas satisfatórias. Em 80% dos anos analisados, o rendimento estimado situou-se entre o equivalente ao salário mínimo francês e mais de três vezes esse valor.
O estudo conclui que a produção agrícola sem pesticidas é tecnicamente e economicamente viável, mas depende da adoção de práticas como a diversificação de culturas e o desenvolvimento de canais de comercialização adequados.
Os investigadores destacaram ainda a necessidade de políticas públicas que apoiem a expansão destes sistemas.

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