Uma análise internacional concluiu que as culturas agrícolas estão a absorver contaminantes, incluindo produtos farmacêuticos, microplásticos, nanomateriais sintéticos e substâncias perfluoroalquiladas (PFAS), com potenciais impactos na produção e na cadeia alimentar.
O estudo, que reuniu investigadores de vários países, indicou que estas substâncias podem estar a entrar nos sistemas agrícolas por vias como águas residuais reutilizadas, lamas de depuração, estrume e materiais plásticos utilizados na agricultura.
Mesmo em concentrações reduzidas, os contaminantes podem interferir no crescimento das plantas, alterar os ecossistemas do solo e acumular-se em partes comestíveis das culturas, como folhas, frutos e raízes.
“A novidade aqui é a perspetiva holística: reunimos evidências de diversas classes químicas, vias ambientais, mecanismos de absorção pelas plantas e impactos sociais”, afirmou Audrey Moores, coautora da análise.
Os investigadores analisaram centenas de estudos realizados em laboratório, estufa e campo, avaliando o comportamento destes contaminantes no solo e nas plantas, bem como os fatores que influenciam a sua absorção e acumulação.
Os resultados indicaram que muitos destes compostos permanecem biologicamente ativos mesmo em quantidades mínimas, podendo afetar sistemas hormonais das plantas, comunidades microbianas e a ciclagem de nutrientes. Estes efeitos podem ter impacto na produtividade agrícola e na qualidade dos alimentos.
Substâncias persistentes, como os PFAS, apresentam maior tendência para acumulação nos tecidos vegetais, sobretudo nas folhas. O estudo aponta ainda para o contributo destes contaminantes na resistência antimicrobiana e na alteração da estrutura do solo.
A revisão identificou lacunas no conhecimento, nomeadamente quanto aos efeitos combinados de diferentes contaminantes, à acumulação a longo prazo e a vias de exposição menos estudadas, como a absorção pelas folhas.
“Esta revisão destaca importantes lacunas de conhecimento, incluindo os efeitos de misturas químicas, a acumulação a longo prazo e os impactos não letais que não são captados pelos testes de toxicidade padrão”, sublinha Audrey Moores, defendendo a necessidade de reforço da monitorização e da regulamentação.
Os autores recomendam a atualização das normas para refletir condições reais de exposição, o desenvolvimento de estudos de longo prazo e a criação de alternativas químicas mais seguras e degradáveis, alinhadas com princípios de produção sustentável.

iStock
