Quase 80% dos jovens das zonas rurais europeias pretende viver, estudar ou trabalhar nos seus territórios de origem ou nas proximidades, desde que existam melhores transportes, serviços de educação de qualidade e mais oportunidades de participação cívica.
A conclusão consta do relatório “Here to stay? The transitions of rural youth before and after the Covid-19 pandemic”, elaborado pela Youth Partnership, parceria entre o Conselho da Europa e a Comissão Europeia, sob coordenação científica de Francisco Simões, investigador do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte).
Segundo o estudo, os jovens rurais reivindicam melhores infraestruturas de transporte, soluções de mobilidade mais eficazes e maior acesso a serviços públicos que facilitem a candidatura a empregos frequentemente concentrados em áreas urbanas.
“É fundamental que a União Europeia crie condições para que os jovens possam fixar-se nos seus territórios de origem, sem serem forçados a emigrar por falta de oportunidades”, afirma Francisco Simões. O investigador coordenador do relatório acrescenta que a análise pretende contribuir para o debate europeu sobre o “direito a ficar”, atualmente considerado um dos eixos prioritários da Comissão Europeia.
Entre os 14 fatores relacionados com emprego avaliados no questionário, possuir viatura própria foi apontado pelos inquiridos como o elemento mais importante para conseguir trabalho.
Perante este cenário, o relatório sugere a implementação de soluções de mobilidade partilhada nas zonas mais remotas, incluindo sistemas de carsharing e carpooling, considerados mais sustentáveis e menos dispendiosos, além de contribuírem para reduzir o isolamento da população jovem.
Os dados revelam ainda que a juventude rural europeia apresenta atualmente níveis de qualificação superiores aos das gerações anteriores, com maior frequência do ensino superior. Ainda assim, o acesso ao mercado de trabalho continua fortemente dependente de redes informais de apoio.
Segundo o estudo, apenas 18% dos jovens inquiridos recorre a serviços públicos de emprego.
Como resposta, os autores propõem a criação de estruturas móveis de apoio ao emprego em territórios rurais, à semelhança do modelo implementado na Bulgária, através de gabinetes coordenados por municípios ou associações em articulação com centros de emprego.
O relatório conclui também que a oferta cultural não surge como principal fator de afastamento dos jovens das zonas rurais, uma vez que os inquiridos demonstram preferência por atividades ao ar livre em detrimento de espaços culturais tradicionais, como teatros.
A investigação analisou a transição para a vida adulta de jovens entre os 18 e os 30 anos, em 14 países europeus, entre 2019 e 2023, avaliando áreas como educação, emprego, mobilidade, participação cívica e acesso ao lazer, cultura e desporto.
Apesar do aumento da participação no ensino superior e da redução da taxa de jovens NEET — que não estudam, não trabalham nem frequentam formação — o relatório alerta para o declínio da população jovem nas zonas rurais europeias, bem como para níveis elevados de desemprego e baixa participação cívica.

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