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Especial Viticultura Sustentável

Viticultura sustentável é a grande aposta

vinhos do Monte da ravaqueira

“As vinhas do Velho Mundo estão a morrer, se não mudarmos as nossas práticas dentro de alguns anos não teremos vinhas”. A frase do administrador e enólogo do Monte da Ravasqueira, Pedro Pereira Gonçalves, foi o ponto de partida para um trabalho onde falamos com vários produtores, grandes e pequenos, do sul e do norte, para saber se estamos a caminhar para uma viticultura mais sustentável. Saiba o que estão a fazer os principais produtores vitivinícolas nacionais nesta matéria.

Apostar em vinho biológico

O Monte da Ravasqueira é uma das explorações que optou por uma viticultura sustentável, reduzindo a aplicação de fitofármacos, e tem inclusive parcelas de vinha em Modo de Produção Biológico (MPB), podendo lançar “o primeiro vinho biológico já no próximo ano”, explica o administrador.

Também grandes produtores como o Esporão e a Cartuxa apostam no MPB e até na Agricultura Biodinâmica. E até na difícil viticultura de montanha no Douro temos excelentes exemplos de viticultura sustentável como as Quintas da Roêda (Croft) e do Panascal (Fonseca), da The Fladgate Partnership ou a Quinta das Carvalhas, da Real Companhia Velha e um pouco mais para cima, no Vale da Vilariça, agricultura biológica na Quinta do Ataíde, da Symington. Outro exemplo de agricultura biológica em viticultura de altitude é a Quinta do Cardo, de Miguel Paes do Amaral, em Figueira de Castelo Rodrigo, na Beira Interior, sendo hoje o maior produtor de vinhos biológicos em Portugal.

Não esquecemos ainda o maior produtor nacional – a Sogrape – que tem “todos os 750 hectares de vinha certificados em Modo de Produção Integrada (MPI)”, afirma António Graça, responsável pelo departamento de Investigação e Desenvolvimento.

Esta é também uma aposta de empresas mais pequenas, como a Quinta da Serradinha, um dos produtores nacionais mais antigos de vinho biológico, ou a Casa de Mouraz, que tem já praticamente toda a produção em vias de certificação Biodinâmica.

Sustentabilidade não é inimiga da rentabilidade

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“Não conheço nenhum produtor no seu juízo perfeito que goste de usar produtos químicos, tomara eles poderem passar sem isso”, constata António Graça, mas “têm contas para pagar e não podem perder a rentabilidade que, muitas vezes, já é escassa”. No seu entender, a Produção Integrada é o caminho para uma produção cada vez mais sustentável, já a produção biológica precisa de ser melhor definida e enquadrada a nível mundial. “Há regras muito diferentes na Europa, ou na América Latina e na Nova Zelândia e é necessário uniformizar a legislação”, por isso “a Sogrape não pensa, para já, avançar para o MPB, se o fizer será sempre numa escala reduzida”.

O responsável da Sogrape salienta que “a certificação biológica é uma certificação de práticas e não de resultados, por exemplo não mede a presença de pesticidas” e lembra que é feita por empresas privadas e não por entidades estatais. Mas louva iniciativas da própria indústria do vinho como a California Sustainable Wine Grower Alliance e a Sustainable Winegrowing New Zealand, que têm cadernos de encargos próprios, com objetivos e práticas bem definidas, permitindo uma fiscalização efetiva.

Voltando à Sogrape, António Graça afirma que “temos parcelas cultivadas de acordo com o MPB, mas não certificado, porque a forma como a produção biológica está legislada, acaba por retirar a sustentabilidade”, defendendo que “a produção integrada tem a grande vantagem de ser evolutiva, permitindo ir adaptando a produção a cada ano para reduzir o impacto da retirada sucessiva de produtos fitofármacos, bem como da redução do número de aplicações e de produto em cada tratamento”.

O responsável pelo departamento de I&D da Sogrape considera que “o facto de esta abordagem ser evolutiva permite ter em atenção os três pilares da sustentabilidade: ambiental, económica e social”. A produção integrada não se foca apenas nos produtos fitofarmacêuticos, “também tem em conta a conservação dos solos, da água e dos recursos genéticos. Na produção biológica só se pode usar cobre e enxofre mas esses também poluem os solos e os aquíferos”.

Sobre o uso de auxiliares, António Graça refere: “fazemos isso de forma rotineira em Portugal desde há cerca de dez anos. Na Quinta do Seixo, por exemplo, trabalhámos no projeto BioDiVine que incluiu a plantação junto às vinhas de arbustos autóctones que servem de abrigo aos predadores de algumas das pragas da videira, entre muitos outros projetos de estudo e preservação da biodiversidade, com a ADVID, a UTAD e outras entidades, porque tem de se conhecer muito bem o que pode fazer bem e mal”.

O responsável não deixa ainda de sublinhar a importância que tem a “diversidade genética que mantemos na vinha, de plantas e organismos lá existentes, mas também da própria vinha” e lembra: “nos últimos 30 anos houve uma redução brutal da diversidade genética que levou a uma diminuição da resiliência da própria vinha mas, felizmente, através de muito trabalho, por exemplo, da PORVID, tem-se vindo a aumentar de novo o número de castas e de genótipos da mesma casta”. A resposta empírica antigamente eram as vinhas velhas com várias castas misturadas.