Doenças e Pragas

Xylella fastidiosa: uma ameaça silenciosa

Xylella - folha

A Xylella fastidiosa é uma bactéria gram-negativa classificada como organismo de quarentena. É uma bactéria restrita ao xilema, disseminada por insetos e tem uma ampla gama de hospedeiros (mais de 300 espécies), que afeta as culturas agrícolas e espécies florestais de grande importância económica. É um desafio de quase 30 anos na América para os produtores de videira (doença de Pierce) e citrinos (clorose variegada dos citrinos). O primeiro surto na Europa foi reportado em outubro de 2013, no sul da Itália, na região de Apúlia, área de Salento. A estirpe identificada em Itália é a CoDiRO (Xylella fastidiosa subsp. pauca) sendo responsável pela doença nas oliveiras – Complesso del disseccamento rapido dell’Olivo (CoDiRO).

O que é a Xylella fastidiosa

Xylella fastidiosa Wells et al. (1987) é uma bactéria da classe das Gammaproteobacterias, pertencente à família das Xanthomonadaceae (Figura 1). É classificada como organismo de quarentena, estando incluída na Lista A1 da Organização Europeia para a Proteção de Culturas (EPPO) desde 1981. De acordo com trabalhos de sorologia e tipagem genética, tem 4 quatro subespécies: X. fastidiosa subsp. fastidiosa, X. fastidiosa subsp. sandyi, X. fastidiosa subsp. multiplex e a X. fastidiosa subsp. pauca, que infetam vários hospedeiros vegetais, com algum grau de especificidade (Janse e Obradovic, 2010).

Vetores disseminadores

A bactéria é veiculada por insetos picadores-sugadores de fluido xilémico, que na sua maioria pertencem à ordem Hemiptera, sub-ordem Auchenorrhyncha e Cicadomorpha (EFSA, 2015(1)). Desde que a bactéria seja adquirida no processo de ingestão-egestão, os insetos-vetores poderão ser transmissores permanentes durante toda a sua vida

Philaenus spumarius – Vetor disseminador da Xylella fastidiosa

Philaenus spumarius – Vetor disseminador da Xylella fastidiosa

Na Europa, mais precisamente em Itália, província de Lecce, onde foi reportado um surto de Xylella fastidiosa, que se tem disseminado desde outubro de 2013, foi identificado o Philaenus spumarius (Linnaeus 1758) (Figura 2), como o principal vetor da disseminação da doença. No entanto, outros vetores, que existem também em Portugal, poderão ser potenciais veículos de transporte da Xylella fastidiosa, tais como a cigarrinha Cicadela viridis (Linnaeus 1758), a Aphrophora alni (Fallen 1805) e a Aphrophora salicina (Goeze 1778).

Hospedeiros

  1. fastidiosa afeta mais de 300 hospedeiros diferentes (denominados “vegetais especificados”) constantes da Decisão 2015/789/EU, cuja sensibilidade à X. fastidiosa foi confirmada, tanto em estirpes europeias da bactéria, como as não europeias. Esta listagem de hospedeiros inclui árvores de fruto, espécies florestais, plantas ornamentais e inclui também herbáceas. No entanto, o maior o impacto económico da infeção incide em videira (Vitis vinifera, V. labrusca, V. riparia), citrinos (Citrus spp., Fortunella), amendoeiras (Prunus dulcis), pessegueiro (P. persica), cafeeiro (Coffea spp.), e luzerna (Medicago sativa), e mais recentemente, desde 2013, em oliveira (Olea europaea) (EFSA 2015(2,3)).

Progressão da infeção e sintomatologia

O desenvolvimento da doença na planta depende principalmente da capacidade da bactéria se implementar e de se deslocar do ponto de inoculação pelo vetor picador-sugador de fluido xilémico. Pode deslocar-se no sentido ascendente e descendente, desenvolvendo uma infeção sistémica na planta. X. fastidiosa multiplica-se em camadas através da produção de uma “cola”, os exopolissacáridos (EPS), formando um tapete celular, denominado biofilme. Com o crescimento deste biofilme, os vasos vão progressivamente ficando bloqueados. Estes bloqueios (tiloses) levam a que a planta reduza a sua capacidade de se alimentar e hidratar, já que a bactéria retira parte dos sais minerais dissolvidos, e bloqueia o fluxo de água da raiz até à zona apical das plantas. Além disso, produz enzimas específicas que digerem as paredes dos vasos, permitindo que entrem na circulação geral do xilema, debilitando toda a planta.

Sintomatologia de infeção por X. fastidiosa em oliveira

Sintomatologia de infeção por X. fastidiosa em oliveira

A bactéria tem uma taxa de crescimento reduzida e os sintomas, por vezes, manifestam-se tardiamente, impedindo qualquer medida de controlo. Como resultado, muitos hospedeiros podem estar infetados e serem assintomáticos, tendo uma evolução dissimulada, mas muito mortífera. Por isso a deteção precoce da presença da X. fastidiosa é tão importante para que, no caso de ser identificada a presença da bactéria, se possa desenhar um plano de erradicação atempado e eficaz.

Na maioria dos casos, o alerta surge quando os sintomas específicos se tornam visíveis em grandes áreas, como aconteceu em Lecce (Itália). De acordo com a informação de Purcell, Almeida e Krugner, os investigadores que acompanharam os surtos nos Estados Unidos e no Brasil (desde os anos 40), inferem que a X. fastidiosa terá entrado em Itália, pelo menos há 10 anos, devido à dimensão da área afetada.

O diagnóstico da doença por observação visual dos sintomas, em plantas isoladas, é difícil e aleatório. Nestes casos, a inspeção visual deve ser feita através da observação das plantas no campo realizando-se, em simultâneo, a confirmação da presença do vetor. Contudo, devido à possível confusão com sintomatologia associada a outras doenças como, por ex., a doença do enrolamento foliar da videira, deficiências de oligoelementos, como o boro, a sua identificação remete para o procedimento analítico das plantas afetadas e posterior confirmação por técnicas laboratoriais de diagnóstico.

Xylella_Figura 5

As queimaduras foliares são, no entanto, um sintoma mais característico, na zona apical e/ou marginal das folhas, apresentando cloroses com gradiente entre amarelo e castanho nas zonas imediatamente adjacentes às queimaduras (Figura 3), com morte progressiva da planta da zona apical para a raiz (dieback) (Figura 4). Na videira aparecem, por vezes, ilhas verdes nos feixes e as folhas caem, ficando o pecíolo agarrado aos feixes (Figura 5). Nos citrinos, os sintomas são diferentes, chamando-se a doença, a Clorose Variegada dos Citrinos. Surgem pequenas manchas amareladas, com distribuição não uniforme, na página superior de folhas adultas, que correspondem a lesões beges na página inferior. Essas manchas evoluem para lesões acastanhadas (Figura 6).

Situação atual

O movimento antropogénico das subespécies tem sido o principal fator que influencia a epidemiologia das doenças causadas por X. fastidiosa. Por isso o desenvolvimento de planos de contingência e de ação específicos são urgentes porque a X. fastidiosa tem um notável poder de adaptação a novas condições. Está provado que eventos de introgressão permitiram que a X. fastidiosa angariasse novos hospedeiros (Nunney et al., 2014). A sua competência natural de adquirir novos genes, transforma-a num organismo, com as valências necessárias para se poder adaptar a qualquer nicho ecológico. Esta flexibilidade de adaptação, e o impacto das alterações climáticas, leva-nos a prever que se não delinearmos um forte plano de prevenção, as perdas de produção e outros danos serão refletidos num grande choque na economia Europeia, o que exigirá medidas de controlo extremamente dispendiosas.

Em Portugal temos vários fatores facilitadores da entrada de X. fastidiosa, sendo eles:

  1. a) Uma posição geográfica muito particular na Europa, e no mundo do comércio global;
  2. b) As nossas condições climáticas, com invernos pouco rigorosos;
  3. c) A presença de insetos-vetores em Portugal, como o Philaenus spumarius, a Cicadella viridis e outros, assim como em Espanha, França e Itália;
  4. d) A presença de hospedeiros preferenciais como as oliveiras, a vinha, citrinos, sobreiros, amendoeiras e ameixeiras, loendros, Quercus, que são culturas de grande importância económica para a agricultura portuguesa.

É fundamental serem seguidas as orientações da Comissão Europeia constantes da Decisão de Execução (EU) 2015/789, para impedir a introdução e a propagação da X. fastidiosa. Portugal está a realizar prospeções oficiais anuais para detetar a presença de X. fastidiosa em vegetais e vetores no seu território, e a aplicar as medidas preconizadas na decisão.

Estas prospeções são realizadas, conforme adequado, tendo em conta a biologia, as condições de crescimento e os períodos de crescimento dos vegetais, objeto de prospeção, bem como as condições climáticas, a biologia do organismo especificado e as características dos potenciais vetores.

Sintomatologia de infeção por X. fastidiosa em laranja doce

Sintomatologia de infeção por X. fastidiosa em laranja doce

Não existindo meios de luta direta contra a X. fastidiosa, o combate a esta doença passa essencialmente por medidas de natureza preventiva, atuando sobre o vetor e o material de plantação, designadamente:

  • Limitar a mobilidade das plantas hospedeiras nas áreas afetadas, tendo em atenção que um grande número de plantas hospedeiras são assintomáticas;
  • Ter um grande controlo sobre a qualidade fitossanitária das plantas em viveiro, verificar sempre a sua proveniência, combater os potenciais vetores e os seus abrigos;
  • Em Itália, a fastidiosa afetou, maioritariamente, as oliveiras mais debilitadas, com carências nutricionais, sendo recomendada aplicação de inseticidas nas áreas afetadas, limpeza dos olivais, poda e outras práticas culturais, a fim de melhorar a saúde geral dos pomares;
  • As medidas incluem o uso de cultivares resistentes, quando conhecidas, certificação do plantio de material e a remoção e destruição de material infetado;
  • Gestão de insetos-vetores e hospedeiros silvestres nos arredores dos pomares, olivais, etc., é crítica.

Conclusão

É crucial investir em redes de conhecimento com habilidades técnicas e conhecimentos complementares, que incluem os produtores, as associações de produtores, os institutos de investigação com competências e autorização para diagnosticar e investigar em organismos de quarentena, e as direções regionais de agricultura, por forma a facilitar a transferência de conhecimento e reduzir os impactos negativos resultantes do desconhecimento da estratégia a seguir, já que não se conhecem as suscetibilidades e resistências dos hospedeiros autóctones e suas cultivares, à infeção por X. fastidiosa.

Referências Bibliográficas

Anas et al. (2010) www.plantmanagementnetwork.org/pub/php/research/2008/pierces/.

EFSA 2015(1) Scientific Opinion of the EFSA Plant Health Panel on the risks to plant health posed by Xylella fastidiosa in the EU territory, with the identification and evaluation of risk reduction options (http://www.efsa.europa.eu/en/efsajournal/pub/3989.htm)

EFSA 2015(2) Statement of EFSA on host plants, entry and spread pathways and risk reduction options for Xylella fastidiosa Wells et al. (http://www.efsa.europa.eu/en/efsajournal/pub/3468.htm).

EFSA 2015(3) Scientific Report of EFSA on categorisation of plants for planting, excluding seeds, according to the risk of introduction of Xylella fastidiosa (http://www.efsa.europa.eu/en/efsajournal/pub/4061.htm).

Janse JD e Obradovic (2010) Xylella fastidiosa: its biology, diagnosis, control and risks. Journal of Plant Pathology, 92 (1, Supplement), S1.35-S1.48.

Nunney L, Ortiz B, Russell SA, Sanchez RR, Stouthamer R (2014) The complex biogeography of the plant pathogen Xylella fastidiosa: Genetic evidence of introductions and subspecific introgression in Central America. PLOS ONE, 9(11):e112463.

Sá-Pereira P (2014) Xylella fastidiosa. Boletim Técnico – INIAV (BT-SAFSV-01) (http://www.iniav.pt/menu-de-topo/divulgacao/edicoes-proprias/boletins-tecnicos).

Sá-Pereira (2014) Novas ameaças para a oliveira: Xylella fastidiosa – Uma peça de um Cavalo de Troia. In: Guia dos Azeites de Portugal. Enigma Editores. pp25-27.

Purcell A (2013) Paradigms: Examples from the Bacterium Xylella fastidiosa. Annual Reviews Phytopathology. 51:339-56.

Wells JM, Raju BC, Hung H-Y, Weisburg WG, Mandelco-Paul L, Brenner DJ (1987) Xylella fastidiosa gen. nov., sp. Nov: gram-negative, xylem-limited, fastidious plant bacteria related to Xanthomonas spp. International Journal of Systematic Bacteriology, 37(2): 136-143.

Artigo publicado na edição de julho/agosto de 2015 da revista VIDA RURAL