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Pecuária

Estratégia europeia para a pecuária fica aquém na transição regenerativa, defende relatório

Estratégia europeia para a pecuária fica aquém na transição regenerativa, defende relatório iStock

A European Alliance for Regenerative Agriculture (EARA) considera que a Estratégia para a Pecuária da União Europeia (UE) inclui avanços relevantes, mas fica aquém da transição para uma agricultura regenerativa que, segundo a organização, o sistema agroalimentar europeu necessita para garantir resiliência climática, social e económica a longo prazo.

Em comunicado de imprensa, a EARA saúda o reconhecimento, por parte da Comissão Europeia, de que as metodologias de cálculo de emissões não captam a diversidade dos sistemas de produção.

 

A organização destaca também o compromisso de desenvolver métricas harmonizadas ao nível da exploração agrícola, o reconhecimento da dependência de alimentos importados para animais como uma vulnerabilidade estratégica e a inclusão de infraestruturas móveis de abate e transformação local no capítulo territorial da estratégia.

Sistemas de pastoreio extensivos
Ainda assim, a organização critica a forma como a estratégia enquadra os sistemas de pastoreio e extensivos, considerando que estes são apresentados como estruturalmente menos competitivos do que os modelos intensivos. Para a EARA, esta abordagem reflete pressupostos políticos anteriores e não a evidência recolhida no terreno.

 

Segundo a organização, a investigação conduzida junto de agricultores regenerativos mostra que estes sistemas podem alcançar uma produtividade total superior à média europeia. A EARA defende que, se os sistemas extensivos forem entendidos como investimentos estratégicos em segurança alimentar e resiliência dos ecossistemas, os instrumentos políticos de apoio terão de ser desenhados de forma diferente.

A organização considera ainda que a “bússola de sustentabilidade” introduzida na estratégia da Comissão pode tornar-se um mecanismo relevante, dependendo dos indicadores que vier a integrar. Para a EARA, o seu valor dependerá da capacidade de medir a função dos ecossistemas e a produtividade total, em vez de reproduzir métricas mais limitadas já existentes.

 

Relatório da EARA
Em paralelo com a publicação da Estratégia para a Pecuária da UE, a EARA divulgou o relatório A Regenerative Livestock Strategy for Europe. O documento sintetiza contributos enviados pela organização no âmbito do processo de trabalho sobre pecuária, incluindo mais de 30 páginas com experiências de agricultores e referências científicas.

A EARA afirma que o setor pecuário europeu enfrenta dificuldades estruturais. Entre 2005 e 2020, o número de explorações pecuárias caiu mais de 37%, com perdas mais acentuadas nos sistemas extensivos, mistos e baseados em pastagens. A organização refere ainda que as explorações pecuárias médias da UE importam mais de 30% da alimentação animal de fora da UE, o que aumenta a exposição aos ciclos dos preços das matérias-primas e à instabilidade geopolítica.

 

O relatório aponta também o aumento da frequência dos surtos de doenças, a volatilidade das margens, a dependência de apoios públicos e as pressões sobre as comunidades rurais, incluindo abandono de terras, envelhecimento da população agrícola e dificuldades na renovação geracional.

Pecuária regenerativa
Ao mesmo tempo, a EARA identifica uma comunidade crescente de agricultores, da Finlândia a Espanha e da Hungria à Irlanda, que está a demonstrar o potencial da pecuária integrada no território e baseada em pastagens. Segundo a organização, estes sistemas podem gerar rendimentos estáveis sem recurso a alimentos importados, restaurar solos degradados, apoiar a biodiversidade e produzir alimentos com qualidade nutricional superior.

O programa de investigação liderado por agricultores da EARA, realizado em 14 países da UE e publicado em fevereiro de 2026, concluiu que as explorações em regeneração atingiram, em média, uma produtividade total 33% superior, utilizando menos 61% de azoto sintético e menos 75% de pesticidas, com produções calóricas semelhantes às dos sistemas convencionais. Segundo a organização, estas explorações obtêm a alimentação animal exclusivamente dentro da Europa.

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A EARA defende ainda que a pecuária não deve ser tratada apenas como uma responsabilidade ambiental, mas como uma ferramenta de regeneração dos ecossistemas, das comunidades rurais e da soberania alimentar. Para a organização, os ruminantes em pastagens permanentes diversificadas, geridos em ciclos de pastoreio planeado, podem devolver nutrientes ao solo, apoiar a vida microbiana, melhorar a infiltração de água, manter habitats e converter biomassa de terras que não produzem culturas para consumo humano em proteína de qualidade.

Cinco eixos para a política pecuária
O documento apresenta cinco eixos para transformar a política pecuária europeia: resiliência económica, desempenho ambiental, saúde e bem-estar animal, política pública e investigação e inovação.

Na área económica, a EARA considera que a dependência de alimentos importados para animais, dos mercados globais e dos apoios públicos representa uma fragilidade. A organização defende sistemas regenerativos, baseados em pastagens, integrados nas rotações agrícolas e orientados para mercados regionais de maior valor.

“Ao reduzir os custos associados a fatores de produção externos, infraestruturas dispendiosas e alimentação animal, o pastoreio regenerativo torna a exploração mais autossuficiente e competitiva”, afirmou Trond Ivar Qvale, agricultor biológico regenerativo na Noruega.

No desempenho ambiental, o relatório critica os métodos tradicionais de avaliação do ciclo de vida, por não incluírem de forma adequada a dinâmica do carbono orgânico do solo, os ciclos do metano em solos de pastagem e as emissões associadas à produção industrial de alimentos para animais. A EARA defende uma metodologia mais completa, que a própria estratégia da Comissão reconhece ser necessária.

Saúde animal, política e investigação
Na saúde e bem-estar animal, a organização defende que a resiliência dos ecossistemas deve ser a base da prevenção de doenças, em vez de depender sobretudo de controlo farmacêutico e biosegurança baseada no isolamento. A EARA aponta como relevantes as raças adaptadas localmente, a integração multiespécies, o pastoreio rotacional e a vida ao ar livre.

“A procura de esterilidade total e de controlo ambiental cria frequentemente as condições que pretende evitar: concentrações de animais com sistemas imunitários enfraquecidos, onde as doenças se propagam mais depressa e com maior intensidade. A resiliência dos ecossistemas é a verdadeira base da saúde animal”, afirmou José Luís de Castro, agricultor em Villanueva de la Vera, na Extremadura, Espanha.

No plano político, o relatório identifica barreiras regulatórias e financeiras à expansão da pecuária regenerativa. Entre elas estão estruturas de pagamentos da Política Agrícola Comum que favorecem, por defeito, operações intensivas, a concentração e desaparecimento de matadouros regionais, requisitos de certificação baseados em genética orientada para sistemas intensivos e regras de biosegurança desenhadas para modelos industriais.

A EARA defende também uma reorientação da investigação europeia em pecuária, com foco na seleção de ruminantes pela eficiência no uso de pastagens, na valorização de todo o animal, incluindo coprodutos como a lã, e em modelos de investigação participativos, em que os agricultores sejam copro­dutores de conhecimento.

Segundo a organização, os agricultores da sua rede têm experiência para integrar a gestão regenerativa da pecuária no sistema agroalimentar europeu. O que falta, conclui a EARA, é um enquadramento político favorável ao nível da União Europeia e dos Estados-Membros.