Quantcast
Opinião

O Campo Como Decoração Ética da Cidade

O setor que se apaixonou pelas respostas antes de compreender as perguntas Direitos Reservados

A ruralidade tornou-se, demasiadas vezes, uma paisagem simbólica para consumo urbano: bonita, limpa, sustentável e tranquilizadora. Mas o campo real não vive de romantismo. Vive de rendimento, trabalho, risco, serviços, gente e futuro.

Há uma forma muito confortável de falar do campo a partir da cidade.

 

Fala-se da paisagem, da autenticidade, da tradição, da biodiversidade, da pequena produção, dos mercados locais, da vida simples, dos saberes antigos e da ligação à natureza. Tudo isto é importante. Tudo isto tem valor. Mas há um problema quando esta conversa passa a servir mais para aliviar consciências urbanas do que para resolver problemas rurais.

O campo transformou-se, em muitos discursos, numa espécie de decoração ética da cidade.

 

A cidade consome ruralidade como quem consome uma ideia bonita. Quer produtos locais, mas baratos. Quer paisagem cuidada, mas não quer pagar o custo da sua manutenção. Quer biodiversidade, mas esquece quem gere o território. Quer aldeias vivas, mas aceita escolas fechadas, serviços públicos distantes e jovens sem condições para ficar. Quer agricultura sustentável, mas raramente pergunta se o agricultor tem margem para continuar.

É uma relação marcada por uma estranha contradição: o campo é admirado como símbolo, mas ignorado como sistema económico e social.

 

A ruralidade passou a ser usada como linguagem moral. Serve para comunicar autenticidade, equilíbrio, proximidade, natureza e sustentabilidade. Serve para campanhas, programas, fotografias, discursos institucionais e estratégias de marketing. Mas, demasiadas vezes, esse campo apresentado é um campo sem conflito, sem contas, sem burocracia, sem solidão, sem envelhecimento, sem falta de mão de obra, sem incerteza climática e sem mercados esmagadores.

É um campo editado.

 

Um campo de fim de semana.

Um campo que fica bem na consciência de quem vive longe dele.

O problema é que o rural real não cabe nessa imagem. O rural real tem explorações agrícolas com margens apertadas, produtores dependentes de preços que não controlam, agricultores envelhecidos, sucessão geracional incerta, custos de energia, água, fatores de produção, seguros, maquinaria, certificações, inspeções e exigências administrativas cada vez maiores. O rural real tem estradas, centros de saúde, escolas, internet, transportes, habitação, emprego, incêndios, abandono e território por gerir.

Mas esta dimensão material incomoda. É menos fotogénica. Dá menos likes. Obriga a falar de dinheiro, poder, investimento público, remuneração justa, organização da produção e presença efetiva do Estado.

E é aí que muitos discursos sobre o campo falham.

Porque preferem transformar a agricultura numa causa moral em vez de a tratar como uma atividade económica essencial. Preferem falar da paisagem sem falar de quem a mantém. Preferem celebrar o produtor local sem discutir o preço que lhe é pago. Preferem defender o território sem garantir condições para quem nele vive. Preferem pedir sustentabilidade ao agricultor sem garantir sustentabilidade económica à exploração.

No fundo, pedem ao campo que resolva as angústias da cidade.

A cidade quer sentir-se mais verde, mais saudável, mais ética, mais próxima da natureza. E o campo aparece como compensação simbólica para uma vida urbana acelerada, artificial e desligada dos ciclos naturais. Mas o campo não existe para tranquilizar consciências. Existe porque há pessoas que ali vivem, trabalham, arriscam e tentam construir futuro.

Quando a ruralidade é reduzida a cenário moral, os problemas tornam-se invisíveis. A aldeia bonita esconde a falta de gente. O produto tradicional esconde a dificuldade de escoamento. A paisagem verde esconde a ausência de rendimento. A fotografia do agricultor esconde a sua vulnerabilidade negocial. O discurso da sustentabilidade esconde a pergunta essencial: quem paga?

E esta pergunta é incontornável.

banner APP

Quem paga a manutenção da paisagem? Quem paga a gestão do mosaico agrícola e florestal? Quem paga a proteção da biodiversidade? Quem paga a presença humana em territórios de baixa densidade? Quem paga a produção alimentar com regras ambientais exigentes? Quem paga a permanência das explorações agrícolas quando o mercado não remunera os serviços que elas prestam?

Se ninguém paga, então estamos apenas a pedir virtude ao campo.

E virtude não paga salários. Não compra gasóleo. Não repara tratores. Não segura jovens no território. Não substitui rendimento. Não resolve a sucessão geracional. Não mantém escolas abertas. Não impede o abandono. Não combate incêndios. Não garante soberania alimentar.

O campo precisa de menos romantização e mais contrato social.

Precisa que a sociedade reconheça que a agricultura não produz apenas alimentos. Produz território ocupado, paisagem cuidada, cultura, segurança alimentar, biodiversidade gerida, coesão social e prevenção de riscos. Mas esse reconhecimento não pode ficar no aplauso. Tem de chegar ao preço, à política pública, aos apoios, à fiscalidade, às infraestruturas e à organização das cadeias de valor.

A ruralidade não pode ser uma estética. Tem de ser uma estratégia.

E isso implica desconforto. Implica dizer à cidade que não basta gostar do campo. É preciso respeitá-lo. Não basta visitar aldeias. É preciso criar condições para que tenham habitantes. Não basta comprar uma vez por ano no mercado local. É preciso construir cadeias justas e permanentes. Não basta exigir produção sustentável. É preciso garantir sustentabilidade económica a quem produz.

O campo não precisa de ser tratado como museu, reserva moral ou postal ilustrado.

Precisa de ser tratado como parte central do país.

Porque quando o campo é apenas decoração ética, a cidade sente-se melhor, mas o rural continua a esvaziar-se. Quando a agricultura é apenas símbolo, o agricultor continua sozinho. Quando a paisagem é apenas cenário, o território continua vulnerável. Quando a tradição é apenas narrativa, a cultura deixa de ter continuidade.

Há, portanto, uma pergunta que devemos fazer com frontalidade: queremos mesmo salvar o mundo rural ou queremos apenas sentir-nos bem por falar dele?

A diferença é enorme.

Salvar o mundo rural exige medidas concretas, preços justos, serviços públicos, investimento, inovação, formação, infraestruturas, fiscalidade adequada, políticas agrícolas coerentes e respeito por quem vive no território. Sentirmo-nos bem por falar dele exige apenas uma fotografia bonita e algumas palavras sobre sustentabilidade.

O campo não precisa de compaixão estética. Precisa de justiça económica.

Precisa que a sociedade deixe de o usar como espelho moral e comece a tratá-lo como realidade viva. Com conflitos, limites, custos, escolhas e pessoas concretas. Pessoas que não são figurantes numa narrativa urbana sobre autenticidade. São produtores, famílias, empresários, trabalhadores, comunidades e guardiões involuntários de uma parte essencial do país.

O campo pode continuar a inspirar a cidade. Mas não pode continuar a servir apenas para a cidade se sentir melhor consigo própria. Uma ruralidade transformada em decoração ética acaba por esconder aquilo que mais importa: sem rendimento, sem serviços e sem gente, não há paisagem moral que resista.