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Agricultura

“O desafio passa por fazer uma intensificação sustentável e tornar o sistema resiliente”

“O desafio passa por fazer uma intensificação sustentável e tornar o sistema resiliente”

É especialista em micorrizas arbusculares em contexto de agricultura de conservação, um tema que estuda há 25 anos. Isabel Brito, professora na Universidade de Évora, esteve no Fórum ‘Benefícios associados aos usos de micorrizas e tricodermas’, organizado pela Atens/Crimolara, e conta à Vida Rural quais os desafios dos agricultores para continuar conciliar intensificação com sustentabilidade.

Quais são os grandes desafios para os agricultores no contexto da agricultura de conservação?

Um dos grandes desafios são as alterações climáticas, com repercussões imediatas na agricultura da nossa região e na diminuição da disponibilidade hídrica. O aumento das temperaturas vai obrigar a repensar muitas coisas no nosso sistema e a aumentar a resiliência do sistema para conseguir fazer face a estas alterações e conseguir que a variação de x graus não seja decisiva na produção. Para isso o sistema precisa de ser robusto e mais resiliente.

O outro desafio é poder continuar a alimentar uma população que é crescente. Vamos ter de alimentar mais pessoas com os mesmos recursos, mas não há mais solo… Os solos mais produtivos estavam à volta das cidades e quando estas expandiram ficaram ocupados… e os que ainda estão disponíveis são os piores. Temos de fazer face a este aumento e a solução passa por conseguir fazer uma intensificação sustentável, ou seja, é possível fazer uma melhor gestão dos recursos, e tem de ser ao limite, porque não se pode ter desperdício de nutrientes e de água.  A perda de solo por erosão, e por más práticas, tem efeitos brutais e as pessoas não se apercebem disso, não só porque ele deixa de estar onde faz falta – que é no campo onde se produz- como vai parar aos cursos de água onde não faz falta nenhuma (assoreamento).

O sequestro de carbono ao nível do solo deve constituir também uma preocupação e certamente um desafio, sendo que práticas agronómicas adequadas podem contribuir para o aumento do teor de matéria orgânica do solo.

“O desafio passa por fazer uma intensificação sustentável e tornar o sistema resiliente”Como é que se faz esta gestão para uma intensificação sustentável?

É fundamental uma gestão mais equilibrada dos recursos. Isto implica competências técnicas por parte dos maiores operadores do sistema. Ser agricultor, atualmente, é fazer a tomada de decisão em cada momento de acordo com as circunstâncias, já não é como era há alguns anos em que se semeava num determinado dia, com determinados adubos e estava feito. E se corresse mal a culpa era do tempo.

O clima é variável, mas esta variação é característica dos países mediterrânicos, já estamos habituados… temos é que tornar o sistema mais resiliente e isso exige competências técnicas de quem opera, nomeadamente dos grandes agricultores. Não é fácil, porque exige conhecimentos de nutrição, de maquinaria, de fisiologia, de fitopatologia… mas é preciso conjugar tudo isso em cada momento, porque não há receitas, e cada momento pode ser diferente.

Na minha opinião estes são os grandes desafios: aumentar a produção de forma sustentável e tornar o sistema mais resiliente. Mas, como disse, isso passa por ter operadores, agricultores e técnicos com níveis de competências diferenciados.

Como é que os micro-organismos podem ajudar nesta equação?

Já sabemos muitas coisas sobre como fazer as plantas crescer, faz-se muito trabalho sobre melhoramento de variedades, mas sobre os micróbios do solo continuamos a saber muito pouco.  E eles têm um importante papel que podemos aprender a capitalizar melhor.

Muitos destes micróbios existem naturalmente nos nossos solos, é preciso um solo estar muito degradado para não existirem micro-organismos, o que não é desejável. Mas até em solos muito degradados consegue-se, com algumas práticas, trazer a atividade microbiana de volta.  O ponto desta discussão é conseguir introduzir ajustes nas práticas necessárias para tirar partido do microbioma que naturalmente existe em cada solo, porque é o melhor de todos, o mais barato e é o que está mais adaptado, porque já lá estava. Pode haver circunstâncias em que isso não é possível, ou não é adequado, e nesse caso podemos recorrer a inoculantes, tanto dos simbióticos como dos que permitem o controlo biológico das doenças dos solos. Não podemos esquecer que, neste momento, a maior parte das ferramentas químicas que tínhamos para o efeito [controlo de doenças] estão fora do mercado, foram banidas, e neste momento não há praticamente nada. Estas interações microbianas, as boas (para fazer crescer as culturas) e as más (para controlar os indesejáveis), são interessantes. Mas este trabalho pode ser feito pelas práticas culturais e não podemos assumir aquela postura do ‘antigamente é que era bom’, embora as rotações de culturas que se faziam tivessem uma base e um sentido que tinha também a ver com isto. Porque é que surge o cephalosporim? [cefalosporiose ou murchidão tardia do milho] Porque se fez milho, em cima de milho, em cima de milho… Porque é que surge o Fusarium no tomate? [murcha de fusário] Porque se fez tomate em cima de tomate, em cima de tomate… Mas quando se intercalam as culturas isso deixa de acontecer, porque permite ir diversificando o microbioma e não deixa nenhum micro-organismo indesejável prevalecer. Há certos aspetos das práticas agronómicas mais antigas que são importantes.