Agricultura Biológica

Horticilha com a eficiência no ADN

Só falta a cogeração, que ficou à espera do ok do Estado para licenças, mas de resto os 13 hectares de estufas de vidro, em Alcochete, onde a Horticilha produz tomate cherry e cocktail e pepino biológicos, e ervas aromáticas, estão equipadas com tecnologia e sistemas que têm na eficiência o seu princípio base.

A Horticilha, do grupo Vitacress/RAR, apostou desde sempre na eficiência, apoiando-se para isso em modernas estruturas, equipamentos e processos que permitem monitorização e atuação precoce, para maximizar a qualidade e a produção. “O sistema dá alarmes ‘por tudo e por nada’, se temos uma rotura ou um entupimento numa fita e onde se situa, bem como a temperatura, humidade, nível de CO2, os índices de rega e os nutrientes que são administrados… tudo”, afirma Paulo Cavaco.

“O segundo bloco de estufas, de sete hectares, construído em 2008, foi um projeto PIN com um investimento de 8,5 milhões de euros, feito de raiz para agricultura biológica, muito mais alto que o habitual – tem uma altura à caleira de sete metros, o dobro do nosso conjunto inicial de estufas – e um arco central muito reforçado, que permite passar com um trator cá dentro quando a estufa está vazia”, explica o administrador. “Era, na altura, a maior estufa biológica da Europa num só bloco”, adianta.

Neste bloco, a Horticilha produz 4,5 hectares de tomate cherry (variedade Piccolo) e cocktail e 2,5 hectares de pepino. Paulo Cavaco refere que a variedade Piccolo “é uma das melhores, tendo um teor em açúcar muito elevado e um grau brix entre os 10° e os 12° e uma grande harmonia entre o açúcar e a acidez”.

Sempre a pensar na eficiência, Paulo Neto, gestor de operações da Horticilha, afirma que “o consumo de energia nestas estufas não é exagerado, uma vez que jogamos com a abertura das janelas, equipadas com redes por causa dos insetos, para controlar a temperatura e a circulação de ar” e explica à VIDA RURAL que “no sistema de rega as bombas têm controladores de frequência que ajustam a velocidade da bomba à pressão desejada”.

O chefe de produção da empresa, Rogério Alves, salienta também que “o sistema de rega é dos mais eficientes, em termos de uso da água e permite a fertirrega. Mas também importa referir o nosso sistema de aquecimento, através de tubos por onde passa a água quente, durante a noite, e que servem simultaneamente como carris de deslocação das plataformas móveis para se realizarem os diversos trabalhos nas plantas”.

A água da rega vem de um grande aquífero subterrâneo, que “foi uma das razões para a construção das estufas neste local”, diz Paulo Cavaco.

Tudo para produzir mais e melhor

Sobre o sistema de rega, o administrador da Horticilha adianta que é maioritariamente gota-a-gota (80%), mas “também regamos por aspersão para aumentar a expansão pelo solo para que este esteja sempre húmido e estimule a atividade dos milhões de minhocas que temos e cuja função é incorporar o adubo no terreno”. E acrescenta: “usamos adubo biológico que é feito de ervas, arvenses e palhas e que vem em forma de granulado, que espalhamos no solo, mas para a sua melhor incorporação usamos minhocas, e depois incorporamos igualmente estrume”.

 “Colhemos o tomate muito maduro para ter mais sabor, com duas cores acima do habitual, porque é um mercado mais evoluído [Inglaterra] onde as pessoas compram na prateleira pela variedade e nome do produtor”, Paulo Cavaco, administrador 

A Horticilha usa abelhas para a polinização e o combate às pragas e doenças é feito com auxiliares: insetos e nemátodos. “E no fim da cultura plantamos mostarda que depois é enterrada no solo para desinfeção dos solos e liberta biogás”.

Paulo Cavaco explica-nos também mais pormenorizadamente o sistema de aquecimento da estufa, já referido pelo chefe de produção. “A água é aquecida a gás natural, num sistema que permite armazenar também o CO2, essencial na estufa”, diz o responsável, salientando que “esta unidade é quase neutra, tudo o que produzimos é para consumo na estufa”, e mesmo assim ainda têm de comprar algum CO2 em setembro/outubro e em abril/maio/junho.

Durante o dia a água é aquecida em caldeiras e armazenada num tanque a 90°, enquanto o CO2 produzido é injetado nuns tubos plásticos com furos, que estão no chão junto às plantas, “que precisam do CO2 para realizarem a fotossíntese”. Durante a noite a água quente vai para os tubos colocados nas entrelinhas para aquecer a estufa.

Há também uma cortina colocada no teto da estufa que se abre e fecha de acordo com as necessidades. “Usamos no verão para ensombrar – por cima podem estar 60° e por baixo 35° – e no inverno (mas também de noite) para refletir os infravermelhos”. Esta cortina permite uma poupança de cerca de 15% no aquecimento à noite, revela Paulo Cavaco, adiantando que a Horticilha tem em estudo um projeto, com apoio do PDR 2020 ou outro programa, para a compra de uma outra cortina ainda mais eficiente. “Estamos a analisar o custo-benefício de dois tipos de cortinas: uma clara, transparente que pode ser usada de dia e de noite e permite uma poupança no aquecimento de até 43% e uma outra com uma percentagem de alumínio e que faz mais sombra – pelo que terá de estar aberta durante o dia –, mas também maior índice de reflexão dos infravermelhos, podendo a poupança ir até aos 65%”, diz o administrador, acrescentando: “esta cortina e a forma como é utilizada é o mais inovador que existe nesta altura em termos energéticos para este tipo de estufas”.

Maximizar o tempo de produção

O responsável diz-nos ainda que os técnicos da Horticilha têm mais outra ‘arma’ para aumentar a produção “induzindo as plantas à atividade. Antes do nascer do sol estimulamos as plantas a funcionar, aumentando a temperatura, provocando stress, para que elas comecem logo a produzir frutos assim que o sol nasce”.

Todos estes equipamentos, tecnologias e sistemas, permitem que a empresa tenha uma produção de 10/12kg/m² de tomate cherry, sendo que o cocktail produz mais cerca de 20%, num total anual de cerca de 2 a 2,5 milhões de toneladas.

A produção de pepino da empresa, que vai na segunda campanha, é também de uma variedade diferente do habitual “é um pepino holandês, muito mais doce que o habitual e vai 100% para exportação para o norte da Europa”, refere Paulo Cavaco.

Também o tomate cherry e cocktail vai maioritariamente para exportação, principalmente para Inglaterra. “Colhemos o tomate muito maduro para ter mais sabor, com duas cores acima do habitual, porque é um mercado mais evoluído onde as pessoas compram na prateleira pela variedade e nome do produtor”, afirma o administrador. Por isso, todo o processo que vai desde a colheita até chegar ao consumidor tem de ser muito rápido: “o máximo de tempo que fica aqui na empresa é de 36 horas” e fica numa câmara de frio mas apenas a 12°, para que o brix aumente e o processo de maturação continue.

Horticilha - agricultura biológica - Vida Rural

A parte comercial é tratada em parceria com a unidade de produção do grupo em Espanha, também gerida por Paulo Cavaco que, em conjunto com Paulo Neto, se responsabiliza por esta área e pelos transportes para a Vitacress Portugal e Espanha, sendo que a comercialização no resto da Europa se faz através de grossistas.

Ervas aromáticas são nova aposta

Paulo Neto conta-nos que a Horticilha foi criada em Alcochete por um produtor sueco com o objetivo de produzir durante todo o ano. Foram implantados seis hectares de estufas de vidro que hoje produzem, principalmente, ervas aromáticas.

“Em 2008 foi construída a nova área de estufas, com sete hectares, só dedicada à produção biológica, de tomate de elevada qualidade – cherry e cocktail – e também pepino”, adianta o responsável.

“Nas estufas antigas também produzimos tomate cacho, em produção convencional, mas no verão do ano passado começámos a reconverter uma parte para ervas aromáticas. Fizemos experiências diversas – com salsa, coentros, tomilho, sálvia, tomilho limão, aneto, louro e hortelã, mas as que demonstraram mais potencial foram a hortelã e o tomilho”, afirma Rogério Alves. A empresa tem um hectare de cada uma destas culturas em produção convencional.

O gestor de operações explica-nos, por seu lado, que “nas aromáticas, a mão-de-obra é um fator decisivo na colheita, porque é difícil mecanizar a apanha em estufa, pelo que era necessário avaliarmos quais as culturas rentáveis”. Por exemplo, refere o chefe de produção da empresa, “o tomilho limão teve um comportamento fantástico, mas a procura é muito pouco significativa, pelo que possivelmente vamos abandonar a cultura”.

Luís Veríssimo, supervisor de produção, adianta que “a hortelã e o tomilho são as que deram mais peso e maior número de cortes, daí o potencial de rentabilidade. Há outras culturas onde a apanha tem de ser mecanizada, como o cebolinho e o aneto que têm muito pouco peso”. Além de o aneto também ter pouca procura. O mesmo se passa com a sálvia, que Paulo Neto refere ter “uma procura enorme no Natal em Inglaterra, porque é tempero de tradição no peru, mas depois praticamente ninguém a quer…”.

A Hortelã dá cerca de 700/900gr por corte/m², enquanto o tomilho se fica pelas 450/500gr/corte/m².

Uso reduzido de fitofármacos

Apesar de a produção de ervas aromáticas da Horticilha ser em modo convencional, os responsáveis asseguram-nos que o uso de pesticidas e fungicidas é muito reduzido, “porque não há vento nem chuva” e as infestantes são poucas, principalmente no início da plantação. “Usamos também insetos auxiliares sempre que possível”, revela o supervisor de produção.

“O consumo de energia nestas estufas não é exagerado, uma vez que jogamos com a abertura das janelas, equipadas com redes por causa dos insetos, para controlar a temperatura e a circulação de ar”, Paulo Neto, gestor de operações

O chefe de produção lembra ainda que usam a ventilação das estufas para fazer circular o ar e assim reduzir a possibilidade de aparecimento de fungos e “trabalhamos igualmente com a rega, normalmente por fita, mas na hortelã, por exemplo, também regamos por aspersão”.

Ainda ao nível de pragas e doenças, o responsável admite que “na primavera e no outono os afídeos podem ser um problema”, enquanto Luís Veríssimo acrescenta que “nessas alturas também surgem, por vezes, cigarras, lagartas e caracóis, e aí acontece termos de usar fitofármacos”.

No verão, para ajudar a controlar a temperatura, as estufas mais antigas são pintadas, seguindo a prática dos produtores de ananás na Ilha de São Miguel, também em estufas de vidro.

A empresa tem cerca de 60 colaboradores permanentes e contrata mais cerca de dez pessoas nas alturas e colheita.

As ervas aromáticas são vendidas à Vitacress Holanda e Inglaterra e, no inverno, também para a Vitacress Portugal.

Artigo publicado na edição de abril de 2016 da revista VIDA RURAL