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Culturas

O mirtilo reina em Sever do Vouga

Alcácer do Sal recebe investimento de 54 M€ na produção de mirtilo biológico
Só a fruta não basta. A Quinta da Remolha quer acrescentar valor, criando um leque de produtos transformados, tendo o mirtilo como principal ingrediente. O negócio dos pequenos frutos está em crescimento e já se fazem ensaios para melhorar plantas e métodos.

Pedro Lobo tomou conta da quinta familiar há três anos, com a missão de não deixar ao abandono os cerca de sete hectares de terra, junto a Sever do Vouga. Deixou a engenharia civil e começou a desbravar a propriedade – tarefa ainda não terminada.

“Se não fosse eu, não havia mais ninguém” – afirma Pedro Lobo. O destino seria o abandono. A produção escolhida foi a dos mirtilos, visto haver alguma experiência na família. Devido ao surgimento de mais explorações com este fruto, a atividade diversificou-se.

A Quinta da Remolha (ou dupla molha, traduzindo a abundância de água) tem, neste momento, cultivados cerca três hectares. Uma parcela de 1,12 hectares com mirtilos, 5000 metros quadrados com amoras, framboesas e groselhas, 2000 metros quadrados com maracujazeiros e um hectare com laranjeiras, limeiras, macieiras e pereiras… e microproduções, como a de mel, que ajudam a diversificar a oferta de bens transformados.

O ano de 2011 ficou estabelecido como o “zero”, quando foram feitas as primeiras plantações. O seguinte foi de continuidade. Em 2013 foi iniciada a produção de compota de mirtilo e de licor de mirtilo.

Este ano, a colheita de mirtilo significou 3500 quilogramas. Os restantes cultivos não têm expressão significativa, salienta Pedro Lobo. Dentro do conjunto dos pequenos frutos, o mirtilo é de fácil maneio, sendo as amoras e as framboesas mais perecíveis, explica o mesmo agricultor.

Pedro Lobo refere que o retorno deverá acontecer no quinto ano de produção, adiantando que a planta pode ser rentável até mais tarde. “Em plena produção, há quem diga 17 anos, mas pode chegar aos 25”, refere.

Toda a área de mirtilo é regada por sistema gota a gota e, desde 2015, com fertirrigação. O consumo de água é de quatro litros diários, proveniente duma mina própria. A colheita é manual e feita pela família.

Pedro Lobo não tem queixa de pragas animais. Em termos de infestantes estas são a galracho (Panicum repens), língua-de-vaca (Anchusa azurea) e milhã (Echinochloa crus-galli).

Uma intempérie levantou-lhe o cultivo, arrancando a tela que cobria o solo. Passou a fazer estacaria para as plantas novas. Para já, uma estufa de apoio não está na vontade deste agricultor, que prefere comprar plantas in vitro. As plantas vêm maioritariamente de dois viveiros holandeses.

A mecanização é um problema, aliás, a dificuldade no recurso a máquinas. A apanha é toda manual. O mirtilo é colhido desde o início de maio até ao final de agosto, mas há variedades que dão em setembro.

As amoras, as framboesas e as groselhas querem-se de maio a julho. Já o maracujá roxo consegue em agosto e setembro – é antes uma previsão, pois 2015 é o primeiro ano dos maracujazeiros.

Apesar dos cerca de três hectares incultos, Pedro Lobo não tenciona aumentar as áreas cultivadas. “Tenho é de aumentar a produtividade” – sublinha. O objetivo é chegar às 15 toneladas.

Para essa zona, onde outrora se fazia milho, Pedro Lobo tenciona colocar bangalôs, desenvolvendo uma variante agroturística.

Ir além da fruta

Desde o começo do trabalho que a ideia não foi a de ficar pela produção agrícola, mas a de acrescentar valor, através do lançamento de diferentes produtos da Quinta da Remolha. Hoje fazem-se licores, compotas, geleias, frutos desidratados, marmelada, saquetas para infusões de folha de mirtilo, vinagres de cidra aromatizados. Os licores seguem dois caminhos: uns com base em aguardente vínica e outros de aguardente bagaceira.

Entre plantação e cozinha para a transformação, foram investidos perto de 100 000 euros na Quinta da Remolha, dos quais 27 000 na agricultura – com apoios públicos. O resto veio dos bolsos da família.

As feiras são o principal destino dos produtos da Quinta da Remolha, para onde está previsto um posto de venda. Em Aveiro, Porto e Santa Maria da Feira há já quem venda, mas Lisboa está, por agora, fora do alcance. “O problema é a quantidade. Ainda não dei o passo para ir a Lisboa” – afiança Pedro Lobo. A exportação está ainda mais além do atual alcance.

O agricultor diz estar a conseguir recetividade, mas sente ser necessária uma melhor definição quanto aos produtos, às receitas, para poder apostar na quantidade, além da qualidade. Para já, afirma ter clientes para todas as produções.

Pedro Lobo refere que o retorno deverá acontecer no quinto ano de produção, adiantando que a planta pode ser rentável até mais tarde. “Em plena produção, há quem diga 17 anos, mas pode chegar aos 25. Depende de vários fatores, como o tipo de plantio, forma de cuidar, a origem, se é de estaca ou micropreparada… aqui em Sever há com 25 anos” – afiança o agricultor.

Sever do Vouga reúne atributos para boas produções de pequenos frutos, adianta Pedro Lobo. O suave vale do rio Vouga, muita água, terra granítica com pH ácido e o microclima, que se chega a aproximar do subtropical. “Mas o mirtilo dá-se em todo o lado”, garante Pedro Lobo.

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“Há quem esteja a fazer em vaso. Tem a vantagem da mobilidade, quando se está com terra arrendada, pois podem mandar embora. Em vaso, entra mais cedo em velocidade de cruzeiro, mas precisa ser mudada de vaso, porque o esgotou” – explica Pedro Lobo.

Em zonas alcalinas, a plantação em vaso “é uma excelente opção. Melhora o controlo das infestantes, mas exige maiores cuidados com a rega e a fertirrigação” – diz o mesmo agricultor.

Na Quinta da Remolha, a cultura está em proteção integrada, com os mirtilos cultivados em compassos de 2 m por 1,5 m, “não é intensivo”, e que deverão subir até aos 1,80 m e tocar-se, esclarece o agricultor, que adianta existirem explorações que usam 2,5 m por 0,75 m e 3 m por 0,75 m.

Investigação em contínuo

A área não é grande, apenas 3000 m2, mas nela é ensaiado o futuro do setor dos pequenos frutos, especialmente do mirtilo. Situa-se em Sever do Vouga, autointitulada capital do mirtilo, e é da competência da AGIM – Associação para os Pequenos Frutos e Inovação Empresarial.

Deste total, um terço está plantado sob túneis. O início foi em 2013 e as estruturas ergueram-se em 2014. Todas as experiências são patrocinadas por empresas ligadas ao mundo agrícola. O foco está no mirtilo, mas há também zonas com amora, framboesa, groselha e morango.

Gonçalo Bernardo, um dos técnicos da AGIM, informa que estão ali 20 cultivares de mirtilo, das quais 19 em estudo.

Quanto a longevidade, Gonçalo Bernardo refere também os 25 anos, mas admitindo a existência de arbustos de mirtilo com 30 e 40 anos. Em solo, o patamar mais produtivo situa-se entre os 15 e os 20 anos. Em vaso, a conta é mais complicada, pois depende da dimensão. Poderá atingir o apogeu entre os 8 e os 10 anos, mas irá esgotar o solo mais depressa.

O foco está em duas plantas do Norte, Duke e Aurora, e do Sul, Misty e O’Neal. As primeiras são tardias e as segundas são precoces. Comparam-se em diversas variantes: dimensão dos vasos (quatro tamanhos), diferentes solos, várias coberturas (tela e casca de pinheiro), substratos diferenciados, em túnel e ao ar livre.

Resultados só deverão surgir dentro de dois anos, refere Gonçalo Bernardo. Porém já se consegue aperceber de tendências produtivas. “Mas é tudo muito recente” – garante o técnico.

A altitude é um fator importante, mas em Portugal é possível produzir-se pequenos frutos desde a Figueira da Foz, a cerca de 100 metros acima do mar, até aos 850 metros, na Guarda, explica Gonçalo Bernardo. Este técnico afirma que Portugal é competitivo nestas culturas, por via dos custos e de conseguir fruta em maio, enquanto noutros países se consegue apenas em junho e julho.

A altitude é um fator importante, mas em Portugal é possível produzir-se pequenos frutos desde a Figueira da Foz, a cerca de 100 metros acima do mar, até aos 850 metros, na Guarda, explica Gonçalo Bernardo.

As horas de frio são um fator importante, para a interrupção da dormência. A terra quer-se com pH ácido, franco-argiloso, ricos em matéria orgânica e bastante drenagem. Gonçalo Bernardo explica que a framboesa prefere pH em torno dos 6,5, enquanto os outros pequenos frutos vão melhor em solos com pH de 5 e 5,5.

Todas estas culturas consomem diariamente entre 25 e 30 metros cúbicos de água por hectare – salienta o técnico da AGIM. A raiz para quando a temperatura do solo atinge entre 20 e 22 °C, pelo que é necessária uma rega para arrefecimento.

Gonçalo Bernardo aconselha que se façam enrelvamentos com leguminosas e diferentes trevos, de modo a azotar o solo, criar competição vegetativa, facilitar a mecanização e abrigar espécies auxiliares.

O técnico da AGIM informa que começam a aparecer os primeiros problemas, nomeadamente fungos e pragas. “Os fungos de solo são os que estão a causar maiores problemas”. É o caso da Botrytis, que surge após a chuva. O Otiorhynchus sulcatus – conhecido por gorgulho-da-vinha – não causa grande dano em adulto, alimentando-se de folhas, mas no estado larvar alimenta-se das raízes.

Se a situação está tranquila no cultivo do mirtilo, já a framboesa conhece uma ameaça séria. A Drosophila suzukii é uma pequena mosca que, com 20 °C, se reproduz muito facilmente: “até 15 gerações” – informa o responsável da AGIM.

Caso não haja uma forte luta cultural e química, a mosca pode causar perdas de 100%. Atualmente, estão a ser desenvolvidas experiências com iscos. Não há conclusões, mas o vinho tinto atrai mais estes insetos, que não se aproximam do vinagre de cidra.

A AGIM é uma organização de fileira, reunindo desde comerciantes até às empresas de fitofármacos. Gonçalo Bernardo refere que há mais de 100 associados. Esta organização dá apoio burocrático, apoio ao investimento, acompanhamento técnico na instalação, acompanhamento técnico na exploração, implementação de sistema de certificação GlobalGap e formação agrícola. Neste último tópico, tem protocolos com a Escola Superior Agrária de Coimbra e com a Escola Superior Agrária de Viseu.

Artigo publicado na edição de novembro de 2015 da revista VIDA RURAL