Um estudo recente sobre o trabalho agrícola em Portugal, da responsabilidade da Consulai, indica que 40% da força de trabalho agrícola atual já é estrangeira, garantindo as necessidades crescentes da produção, em especial das culturas mais intensivas e sazonais. E se esta dependência de mão de obra não é um dado novo, há um ponto que se reveste de extrema relevância: o documento indica que estes trabalhadores estrangeiros são, em média, mais qualificados do que os portugueses. A parte positiva é que esta capacitação contribui, teoricamente, para a modernização do setor e facilita a adoção de novas tecnologias. Por outro lado, fica bem patente a incapacidade de atrair e reter talento nacional.
O tecido agrícola continua a envelhecer (a idade média dos trabalhadores agrícolas subiu para 59 anos) e a mobilização de jovens é cada vez mais difícil, a todos os níveis. O desinteresse em cursos na área “agro” é gritante de ano para ano, e as novas gerações continuam a não vislumbrar atratividade no agronegócio.
“O tecido agrícola continua a envelhecer (a idade média dos trabalhadores agrícolas subiu para 59 anos) e a mobilização de jovens é cada vez mais difícil, a todos os níveis. O desinteresse em cursos na área ‘agro’ é gritante de ano para ano, e as novas gerações continuam a não vislumbrar atratividade no agronegócio.”
Com a sofisticação tecnológica a que temos assistido, com forte mecanização e até robotização de algumas tarefas, seria de esperar maior capacidade de atração.
Mas a questão de fundo vai muito para além da modernização e capacitação. A agricultura continua a não ser capaz, com honrosas exceções, de gerar valor. Um valor que permita ter empresas sólidas e sem sufocos constantes de tesouraria, que possam remunerar os seus colaboradores ao nível de outras atividades. Trabalhar com “o pelo do cão” é o dia a dia da grande maioria das explorações agrícolas, mesmo as de maior dimensão, profissionais e capacitadas.
Cada vez que o mundo se “constipa”, sobe a pressão nos custos de produzir alimentos. E, como sabemos, o mundo tem andado de saúde débil nos últimos anos. Como queremos atrair jovens para este cenário de instabilidade e fragilidade, quando há alternativas mais interessantes noutros setores? É um desafio gigante, sem solução mágica, que passa muito por repensar os modelos e o futuro da alimentação, numa perspetiva global, mas onde a valorização dos serviços dos ecossistemas tem de fazer parte da equação.
#agricultarcomorgulho

©Rodrigo Cabrita
