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Agricultura

A Paixão pela Terra Também é Interesse Público

A Paixão pela Terra Também é Interesse Público Direitos Reservados

A agricultura nasce muitas vezes da paixão de quem trabalha a terra, mas só ganha o reconhecimento que merece quando a sociedade compreende o seu valor estratégico.

Há paixões que começam no espaço íntimo da vida de cada um. No caso da agricultura, essa paixão nasce muitas vezes no contacto direto com a terra, nas memórias familiares, no trabalho diário das explorações, no respeito pelos ciclos naturais e na aprendizagem acumulada ao longo de gerações.

 

Para quem trabalha a terra, a agricultura raramente é apenas uma atividade económica. É uma forma de estar, uma ligação ao território, uma responsabilidade perante a família, a comunidade e o futuro. Há uma dimensão profundamente pessoal em cada exploração agrícola: a história de quem a herdou, de quem a construiu, de quem nela investiu tempo, dinheiro, conhecimento e esperança.

Mas a agricultura não pode ficar apenas nesse plano privado e afetivo.

 

Tal como uma coleção privada só se transforma verdadeiramente num projeto cultural quando deixa de estar fechada sobre si própria e passa a ser partilhada, estudada, interpretada e colocada ao serviço do público, também a agricultura só é plenamente valorizada quando deixa de ser vista apenas como assunto de agricultores e passa a ser entendida como uma questão central para toda a sociedade.

A agricultura é paixão pessoal para quem a vive.
Mas tem de ser visão pública para quem dela depende.

 

E todos dependemos dela.

Dependemos da agricultura em cada refeição, em cada produto que chega à mesa, em cada paisagem rural que permanece cuidada, em cada aldeia que ainda resiste, em cada território que continua habitado, em cada economia local que se mantém viva. Mesmo quando a sociedade urbana se afasta da origem dos alimentos, continua profundamente dependente de quem os produz.

 

O grande desafio está precisamente aqui: transformar a ligação íntima de quem trabalha a terra numa linguagem comum que o público em geral consiga compreender.

Durante demasiado tempo, a agricultura falou sobretudo para dentro. Falou entre agricultores, técnicos, organizações, organismos públicos e decisores políticos. Falou através de regulamentos, candidaturas, apoios, planos, mapas, normas e relatórios. Mas falou pouco para fora. Falou pouco para o consumidor, para o cidadão, para a escola, para a comunicação social, para a opinião pública.

E quando um setor essencial não explica suficientemente o seu valor, outros acabam por contar a sua história por ele.

Por isso, a agricultura precisa de construir uma nova linguagem pública. Uma linguagem capaz de explicar que produzir alimentos exige conhecimento, investimento, risco, tecnologia, gestão e persistência. Uma linguagem capaz de mostrar que por trás de uma garrafa de leite, de uma maçã, de um pão, de um vinho, de uma peça de carne ou de um legume há muito mais do que um preço numa prateleira.

Há terra.
Há trabalho.
Há água.
Há energia.
Há regras.
Há incerteza.
Há margem apertada.
Há famílias.
Há território.

Esta transformação da paixão agrícola numa visão pública pode ser entendida em três dimensões fundamentais: pessoas, produção e projetos.

A primeira dimensão são as pessoas.

Não há agricultura sem agricultores. Parece evidente, mas muitas políticas e muitos discursos esquecem esta verdade simples. Fala-se de sustentabilidade, biodiversidade, neutralidade carbónica, inovação, digitalização e transição verde, mas esquece-se frequentemente quem está no terreno a executar, a decidir e a suportar o risco.

Sem pessoas, não há território cuidado.
Sem agricultores, não há produção.
Sem rendimento, não há permanência.

Valorizar a agricultura é, antes de tudo, valorizar quem a pratica. É reconhecer o agricultor como agente económico, gestor de recursos, guardião de conhecimento e protagonista da coesão territorial. Não como figura romântica do passado, mas como profissional indispensável do presente e do futuro.

A segunda dimensão é a produção.

A agricultura não pode ser reduzida a paisagem, tradição ou património. Tudo isso é importante, mas a sua função primeira continua a ser produzir alimentos. E produzir alimentos, hoje, é uma tarefa cada vez mais complexa.

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A sociedade exige alimentos seguros, acessíveis, saudáveis, sustentáveis e produzidos com elevados padrões ambientais e sociais. Mas nem sempre aceita discutir o custo real dessas exigências. Quer mais sustentabilidade, mas nem sempre está disposta a pagar mais valor. Quer território ordenado, mas esquece quem o mantém. Quer alimentos de proximidade, mas muitas vezes decide apenas pelo preço.

Esta contradição tem de ser enfrentada com clareza.

Não é possível exigir tudo à agricultura e continuar a tratá-la como setor secundário. Não é possível pedir mais ambiente, mais qualidade, mais bem-estar animal, mais segurança alimentar e mais gestão do território sem garantir condições económicas para quem produz.

A terceira dimensão são os projetos.

Uma exploração agrícola, uma associação, uma cooperativa, uma escola agrária, uma organização de produtores ou uma empresa do setor só ganham verdadeira dimensão pública quando transformam conhecimento e prática em projetos partilhados. Projetos de inovação, formação, investigação, demonstração, valorização de produtos, cadeias curtas, agricultura de precisão, gestão da água, rejuvenescimento do setor e aproximação entre produtores e consumidores.

A agricultura precisa de ser ativada perante a sociedade.

Não basta preservá-la como memória.
Não basta defendê-la em discursos.
Não basta invocá-la em momentos de crise.

É preciso ativá-la através da investigação, da colaboração, da comunicação e do envolvimento público. É preciso abrir as explorações à escola, aproximar consumidores dos produtores, valorizar produtos locais, explicar a ciência que existe no campo, mostrar a tecnologia que já se usa nas explorações e dar rosto às pessoas que produzem.

Porque uma agricultura que não comunica fica vulnerável.
E uma sociedade que não compreende a agricultura torna-se mais pobre nas suas decisões.

Neste processo, há também um papel estratégico para quem dirige, ensina, representa ou comunica no setor. O agricultor, o técnico, o professor, o dirigente associativo e o responsável institucional têm hoje uma função que vai muito para além da gestão imediata. Têm de fazer a ponte entre a realidade privada da exploração e o valor público da agricultura.

Essa ponte é decisiva.

É ela que transforma uma exploração numa referência.
Um produto numa identidade.
Um território numa marca.
Uma prática agrícola numa aprendizagem coletiva.
Uma paixão individual numa causa pública.

A agricultura portuguesa precisa deste salto. Precisa de deixar de ser entendida apenas por quem a vive por dentro. Precisa de ser compreendida por quem consome, por quem legisla, por quem informa, por quem educa e por quem decide.

Porque a agricultura não é um assunto particular dos agricultores. É uma infraestrutura essencial da sociedade. Sem agricultura, não há alimentação. Sem alimentação, não há autonomia. Sem autonomia, não há soberania. E sem território produtivo, o país torna-se mais dependente, mais frágil e mais vulnerável.

Por isso, valorizar a agricultura não é fazer um favor ao setor. É reconhecer uma evidência estratégica.

A paixão de quem trabalha a terra é o ponto de partida. É ela que mantém muitas explorações de pé, mesmo perante dificuldades enormes. Mas essa paixão precisa de ser acompanhada por reconhecimento público, valorização económica e compreensão social.

A agricultura tem de ser sentida por quem a pratica, mas entendida por quem dela beneficia.

E talvez seja esse o grande desafio dos próximos anos: transformar a agricultura de uma paixão muitas vezes silenciosa numa visão pública forte, respeitada e influente.

Porque a terra pode ser trabalhada por alguns.
Mas o seu valor pertence a todos.