Vendas

E porque não? (ou como é preciso que algo aconteça entre a produção e a distribuição)

A propósito da recente ação dos suinicultores portugueses em alguns hipermercados,vale a pena refletir sobre a necessidade urgente de rever a lógica como a produção está organizada para a venda. Que os produtores precisam de poder negocial ninguém duvida. Mas se não há legislação que os proteja, o caminho pode passar por se transformarem, eles próprios, em ‘comerciantes’. E porque não uma rede de supermercados explorada pela produção? Ou, no mínimo, uma central de compras gerida por produtores?

Recupero um editorial escrito no passado mês de junho, para a revista Vida Rural, que me parece muito atual e que  novamente partilho.

Vender

A recente notícia da parceria dos Grupos Intermarché e Dia para a constituição de uma central de compras comum (Cindia) leva-nos mais uma vez à eterna questão do poder negocial da grande distribuição. Se estes grupos sentem necessidade de juntar esforços para conseguir competir com o Pingo Doce e o Continente, imaginamos o que sentirão os seus fornecedores, continuamente esmagados por contratos leoninos.

Mas a questão é mesmo esta. Quando a distribuição se sente ameaçada une-se para fazer valer os seus interesses. Na produção tardam em chegar conceitos organizativos que possam de facto dar um passo em frente nesta matéria. Sem interprofissionais ou organizações de produtores de 2º grau em número e força, os produtores e as marcas da produção continuam a ser o elo mais fraco da cadeia de valor. A questão é, se a distribuição se pode unir numa central de compras, porque não podem os produtores fazer o mesmo e criar uma central de vendas? Uma estrutura puramente comercial, com gestão profissional, que centre o seu trabalho na negociação e venda com a grande distribuição. Em conjunto, com escala, com poder. Os vinhos, os azeites, as carnes e a charcutaria, o leite e os lacticínios, os hortofrutícolas… Se já provámos que conseguimos unir as empresas para promover os nossos produtos externamente e com sucesso (e lembro o fantástico trabalho da Portugal Fresh), porque não evoluir para um modelo destes no mercado interno? Uma organização deste tipo só não existe ainda porque no nosso país continuamos resistentes à mudança e a viver centrados em ‘capelinhas’. E a verdade é que, conseguir consenso entre os principias produtores nacionais nesta matéria é mais difícil do que negociar com a distribuição.

É este mind set que tem de mudar. Não adianta queixarmo-nos, por muita razão que tenhamos, da forma como os grandes grupos negoceiam se a própria produção não estiver disposta a trabalhar junta e preferir perder sozinha do que ganhar em conjunto. Numa altura em que, finalmente, a agricultura passou a ser reconhecida, conquistou notoriedade e mercados externos, é tempo de passar a ter poder. Mas, como diz o ditado popular, é a união que faz a força.