O setor agropecuário português enfrenta atualmente um contexto internacional mais exigente, marcado pela instabilidade geopolítica, pelo aumento dos custos da energia e dos transportes e pela pressão sobre as cadeias logísticas. Para as empresas mais expostas aos mercados externos, estes fatores colocam novos desafios à competitividade, à previsibilidade operacional e à capacidade de exportação.
Num setor em que a escala, a inovação e a diferenciação são cada vez mais determinantes, a discussão passa também pelo papel do Estado na abertura de mercados, pela criação de uma marca-país agroalimentar forte e pela articulação entre empresas, associações setoriais, universidades e entidades públicas. A sustentabilidade, a rastreabilidade e a adaptação às alterações climáticas surgem igualmente como prioridades para a produção pecuária.
Em entrevista à VIDA RURAL, Clara Moura Guedes, CEO da Monte do Pasto, analisa os principais constrangimentos do setor, defendendo maior agilidade institucional na abertura de mercados, investimento em inovação e uma estratégia nacional mais coordenada para valorizar os produtos agroalimentares portugueses.
Quais são atualmente os principais desafios para as empresas agropecuárias portuguesas num contexto internacional marcado pela instabilidade geopolítica?
Sendo este um setor globalmente competitivo, a instabilidade geopolítica no Médio Oriente penaliza-nos com a disrupção logística, e a subida dos custos de energia e transportes. Contudo, o nosso maior desafio é de ordem interna e estrutural. Portugal continua pouco ágil a abrir mercados e a fechar protocolos sanitários vitais para exportar carne, o que nos deixa em desvantagem face a acordos como o estabelecido com o Mercosul.
Para reposicionar o setor com velocidade e escala, precisamos de duas coisas: agilidade institucional do Estado na abertura de mercados, condição necessária e fundamental para que seja possível aceder ao consumidor, desburocratização e uma colaboração extrema.
Mais do que preço, o caminho exige uma marca-país agroalimentar forte, assente numa união estratégica entre empresas, cooperativas locais e associações setoriais para ganharmos a escala e o valor que individualmente não temos.
“Portugal continua pouco ágil a abrir mercados e a fechar protocolos sanitários vitais para exportar carne, o que nos deixa em desvantagem face a acordos como o estabelecido com o Mercosul.”
De que forma o aumento dos custos dos combustíveis está a impactar a operação diária e a logística no setor agropecuário?
O aumento dos combustíveis encarece em flecha toda a cadeia operacional, das rações aos transportes, sendo um custo que acaba por recair no consumidor. Se somarmos a isto os fenómenos climáticos extremos, gerir uma exploração exige hoje um reequacionamento constante.
Esta crise expõe também uma enorme assimetria ibérica. Enquanto o Governo em Espanha tem sido muito interventivo, com subsídios diretos aos combustíveis e transportes para amortecer o impacto imediato nas empresas, Portugal tem optado por uma via mais lenta e estrutural, focada na transição energética. O resultado prático é que os produtores portugueses sentem uma pressão financeira e de tesouraria muito mais severa e imediata no curto prazo.
Considera que as cadeias de abastecimento no setor agrícola e pecuário estão hoje mais vulneráveis do que há alguns anos? Que mudanças foram necessárias implementar?
Sem dúvida. Na Monte do Pasto, respondemos a esta vulnerabilidade com investimento contínuo em tecnologia, inovação e elevados padrões de qualidade e bem-estar animal. No entanto, a grande mudança de paradigma é que a dependência de cadeias de abastecimento longas deixou de ser sustentável.
O futuro passa por um posicionamento regional inteligente e pelo nearshoring – a relocalização de cadeias produtivas para geografias vizinhas. Portugal reúne condições únicas para ser um fornecedor de proximidade confiável para a Europa. Mas para não perdermos este movimento para Espanha, é vital criarmos um ecossistema logístico integrado, onde operadores logísticos, portos e produtores colaborem estreitamente para garantir rotas rápidas, previsíveis e eficientes.
Pode Portugal reforçar a competitividade internacional das suas empresas agroalimentares perante mercados cada vez mais pressionados por custos e concorrência externa?
Antes de mais, tornando os mercados acessíveis às empresas portuguesas. Enquanto vigorar a extrema inércia das autoridades em estabelecer protocolos bilaterais que permitam às empresas portuguesas exportar para um número significativos de mercados, o acesso continua bloqueado nas nossas categorias de produtos.
Somos o país da UE com menos mercados abertos para a exportação de bovinos ou carne de bovino. Pese embora o facto de a UE ter vindo a desenvolver uma estratégia muito proativa de promoção dos produtos europeus no mundo, Portugal não tem acompanhado de forma alguma. Sem acesso aos mercados, não há nada que possamos fazer.
Em termos genéricos, faria sentido replicar o caso de sucesso do turismo: criar uma identidade e uma marca nacional fortes (Made in Portugal) que valorizem o produto além do preço.
“Em termos genéricos, faria sentido replicar o caso de sucesso do turismo: criar uma identidade e uma marca nacional fortes (Made in Portugal) que valorizem o produto além do preço.”
Em paralelo, as empresas devem investir em inovação como forma de diferenciação e criação de valor. Para financiar esta transição tecnológica e de baixo carbono, é fundamental atrair investidores estratégicos e desenhar linhas de financiamento focadas na modernização agropecuária.
Temos uma oportunidade única à boleia do excelente momento internacional da gastronomia portuguesa e do destaque do Alentejo como destino sustentável, Farm to Table e de vinhos. Contudo, falta-nos a articulação. Precisamos de uma estratégia conjunta e cofinanciada entre empresas, associações setoriais e os Ministérios da Agricultura, Economia e Turismo.
A inovação e a investigação têm ganho peso no setor agropecuário. Que importância atribuem às parcerias entre empresas e universidades para a evolução da produção agrícola e pecuária?
A inovação científica é o motor da Monte do Pasto. Os projetos que desenvolvemos com as Universidades de Évora e do Minho – como o Ethical Meat (bem-estar animal), o Planet Moo (economia circular) ou o Future Beef (genética) – provam que a ciência aplicada gera produtividade e valor real.
Os projetos que temos em curso englobam a incorporação de IA para uma gestão individualizada e um aumento muito significativo da eficiência produtiva. Temos ainda em desenvolvimento produtos e cortes inovadores como é o caso da recém-lançada no mercado True Burn Charcuterie, uma gama completa de enchidos do Alentejo 100% de bovino.
A Monte do Pasto tem vindo a afirmar-se como empregador qualificado no distrito de Beja. Quais são os principais desafios na atração e retenção de talento especializado no interior do país?
Diria que a interação com as universidades e todo este ambiente de inovação e pertença a um projeto maior são, desde logo, importantes fatores de atratividade. Na maioria dos casos, privilegiamos as qualificações e a atitude e motivação, recrutando sobretudo à saída das universidades.
A Monte do Pasto conta com mais de 60% de colaboradores com, pelo menos, grau universitário – tendo, portanto, um perfil de profissionais muito diferenciado, sobretudo considerando o setor em que opera. Fomos considerados Projeto de Interesse Regional pelo IEFP, dispondo de condições diferenciadas para o recrutamento de colaboradores qualificados.
Sustentabilidade e produtividade continuam a ser dois temas centrais no setor. Como é possível equilibrar exigências ambientais com a necessidade de manter operações economicamente viáveis?
Sem dúvida. A nossa operação é prova de que é possível conciliar as exigências ou as melhores práticas ambientais com a prossecução de operações economicamente viáveis. Naturalmente, como referi acima, isso implica uma aposta numa marca forte, num posicionamento credível e na oferta de produtos de excelência.
No nosso caso, isso passa por uma produção ao ar livre, uma gestão mais eficiente dos recursos naturais, pela valorização da genética e da alimentação animal, mas também pela inovação e pela tecnologia. Paralelamente, implica construir uma marca forte, credível e associada a produtos de elevada qualidade, capazes de gerar maior valor acrescentado no mercado.
A sustentabilidade só será verdadeiramente sustentável se também for economicamente viável para quem produz. E acreditamos que o futuro da pecuária europeia passa precisamente por essa capacidade de produzir melhor, com menor impacte ambiental e maior eficiência.

©DR
O consumidor está cada vez mais atento à origem, rastreabilidade e sustentabilidade dos produtos alimentares. De que forma esta tendência está a influenciar a relação entre produtores agropecuários e a distribuição moderna?
As preocupações com a origem e a rastreabilidade não são novas, e são essenciais. Para o consumidor, é importante que, quando escolhe um produto na prateleira, consiga perceber facilmente se é um produto seguro e confiável e se foi produzido de forma ética e responsável.
Para nós, o conceito do “prado ao prato” equivale a uma produção sustentável com garantia de qualidade, desde a criação ao ar livre até à mesa do consumidor. Esta estratégia está alinhada com o Pacto Ecológico Europeu e tem por objetivo promover a maior sustentabilidade, o bem-estar animal e a transparência na cadeia alimentar.
A produção ao ar livre, a rastreabilidade integral, o bem-estar animal e a redução da pegada ambiental fazem parte da nossa proposta de valor. E acreditamos que estas características deixarão cada vez mais de ser fatores diferenciadores para passarem a ser expetativas básicas do mercado.
Ao mesmo tempo, esta tendência cria oportunidades para valorizar produtos de origem nacional, produzidos de forma sustentável e com identidade própria, algo particularmente importante num contexto em que os consumidores procuram autenticidade, qualidade e confiança.
Em relação ao vosso projeto que consiste num sistema agrovoltaico concebido para criar áreas de sombra para bovinos em regime extensivo, que resultados obtiveram?
Desde a introdução do sistema agrovoltaico (AgroPV) em 2022, os resultados têm sido muito positivos, tanto do ponto de vista produtivo como ambiental. Na componente produtiva, verificámos melhorias relevantes ao nível do conforto e do desempenho animal, nomeadamente na conversão alimentar, no ganho de peso e na qualidade da carne.
A existência de zonas de sombra contribui para reduzir o stress térmico, particularmente nos períodos de maior calor, permitindo melhores condições de bem-estar animal, sendo que a sua implementação com painéis fotovoltaicos melhora o controlo térmico face aos sistemas tradicionais.
Por outro lado, o sistema permite ainda otimizar a utilização da terra, conjugando produção pecuária com produção de energia renovável. Em termos ambientais, atingimos autossuficiência energética e uma maior eficiência global da exploração, reforçando a nossa estratégia de uma pecuária mais sustentável e de baixo carbono.
Até que ponto soluções agrovoltaicas como esta podem tornar-se uma resposta viável para a adaptação da pecuária extensiva às alterações climáticas e ao aumento das temperaturas?
Acreditamos que este tipo de soluções poderá ter um papel muito relevante no futuro da pecuária extensiva, sobretudo em regiões mais expostas ao aumento das temperaturas e à maior frequência de fenómenos climáticos extremos.
Os sistemas agrovoltaicos permitem combinar produção animal e produção de energia renovável na mesma área, promovendo uma utilização mais eficiente dos recursos. Mas, no contexto pecuário, um dos benefícios mais relevantes é precisamente a criação de zonas de sombra de qualidade, que ajudam a reduzir o stress térmico dos animais e a melhorar o seu bem-estar e desempenho produtivo, enquanto se produz energia.
“Os sistemas agrovoltaicos permitem combinar produção animal e produção de energia renovável na mesma área, promovendo uma utilização mais eficiente dos recursos. Um dos benefícios mais relevantes é precisamente a criação de zonas de sombra de qualidade, que ajudam a reduzir o stress térmico dos animais e a melhorar o seu bem-estar e desempenho produtivo, enquanto se produz energia.”
Num cenário de alterações climáticas, este fator torna-se cada vez mais importante. Além disso, estas soluções contribuem para reduzir custos energéticos, aumentar a resiliência das explorações e acelerar a transição para modelos de produção mais sustentáveis e de menor impacto carbónico. Naturalmente, ainda existe caminho a percorrer ao nível da adaptação tecnológica e do enquadramento regulatório, mas acreditamos que o AgroPV poderá tornar-se uma ferramenta importante na pecuária do futuro.

©DR
