Hortofrutícolas

Alentejo oferece água, bom clima, maiores áreas e menos doenças

Nos últimos anos, os produtores de hortofrutícolas do Oeste e Ribatejo aumentaram o ritmo de expansão para sul, que deverá continuar a médio prazo. A escolha recai, principalmente, no Alentejo devido à disponibilidade de água, mas também às áreas maiores e ao bom clima, que permite precocidade e menos doenças e infestantes. Mas nem tudo são ‘rosas’: falta organização da produção e investigação, enquanto a rigidez do mercado fundiário e o tarifário da água criam entraves.

A produção nacional de frutas e hortícolas está em crescimento, com a exportação a representar uma fatia cada vez maior nas explorações. Assim, muitos produtores procuram aumentar as suas áreas de cultivo, mas nas principais regiões produtoras – Oeste e Ribatejo – a disponibilidade e qualidade dos terrenos é cada vez menor. Então, as grandes extensões do Alentejo, mais ainda desde que a existência de água deixou de ser problema, tornaram-se cada vez mais apetecíveis.

A Abrunhoeste e a Granfer, duas Organizações de Produtores (OP) da região Oeste, são das mais recentes a apostar em projetos de produção a sul. Mas falámos também com a Hortomelão, OP do Ribatejo, que há muito fez esta opção, e referimos ainda a cooperativa Agromais, também do Ribatejo, cuja expansão para sul foi explicada recentemente na 3.ª conferência da VIDA RURAL pelo seu diretor-geral.

E, para não nos cingirmos às frutas e hortícolas, lembramos ainda o caso da Valinveste, que além da sua ‘zona natal’ – o Ribatejo –, há muito produz milho no Alentejo, embora tendo aumentado essa produção pós-Alqueva.

Grandes áreas e boas terras

“Precisávamos de aumentar áreas e aqui não tínhamos e as terras já estavam a precisar de rotação”, lembra Carlos Ferreira, administrador da Hortomelão, e dono da Carlos Ferreira Lda, que é o maior associado da OP, sendo responsável por cerca de 65% da produção. “Por isso, rumámos ao Alentejo, para a zona de S. Mansos, logo em 2005, onde havia maiores áreas de terras virgens e com água de Alqueva”, conta, acrescentando: “além de que, como o clima é mais seco, há muito menos problemas fitossanitários”.

Carlos Ferreira, administrador da Hortomelão

Carlos Ferreira, administrador da Hortomelão

Uma vantagem também referida por Jorge Neves, diretor-geral da Agromais, na conferência da VIDA RURAL “Hortofrutícolas – Estratégias para a Competitividade”, realizada a 24 de outubro de 2013. Falando da experiência da empresa com novas culturas na região de Alqueva (Ferreira do Alentejo), nomeadamente tomate e cebola, disse que as oportunidades estão na “disponibilidade de água e terra; nas condições edafoclimáticas; na incidência de infestantes e doenças; e no potencial de produção”.

Por seu lado, os responsáveis da Abrunhoeste e da Granfer destacam a precocidade, como uma das características importantes para a decisão de produzir mais a sul.

José Paulo Duarte, presidente do grupo Paulo Duarte que detém a Abrunhoeste, explica que em 2011 surgiu a oportunidade de fazer uma parceria com o grupo Vila Galé, que dispunha de uma herdade no concelho de Beja que pretendia dinamizar, enquanto a Abrunhoeste, através do produtor associado Sociedade Agrícola Quinta de Malpique, e pertencente ao grupo, necessitava de aumentar e diversificar a sua área de produção. Assim surgiu “uma nova empresa com capital repartido pelas duas entidades para realização de um investimento em fruticultura no Alentejo”.

Em 2012, iniciou-se a plantação de um pomar de pera rocha, com uma área de 15 hectares que deu a primeira produção no ano seguinte, prevendo-se estar em plena produção em 2015. Em 2013, plantaram-se mais 30 ha de pera rocha e em 2014 “está-se a iniciar a plantação de 45 ha, dos quais 11 ha são de ameixa e 34 ha de pêssegos, nectarinas e paraguaios”, explica o administrador, adiantando que “esta nova plantação terá 21 variedades diferentes que asseguram colheita entre meados de maio e finais de junho, alargando assim a oferta de produto aos clientes da Abrunhoeste, pois esta já tinha fruta para comercializar desde julho até maio”.

Todos estes investimentos – cerca de três milhões de euros –, que se iniciaram em 2011, ficarão prontos até ao final de 2014, prevendo-se que estejam em plena produção em 2017.

Precocidade e mais rentabilidade

José Paulo Duarte considera que “realizar este investimento é hoje em dia possível pois o Alentejo tem para oferecer terra, água disponível para rega e um clima que permite fazer fruta com qualidade, pois tem frio de inverno e calor de verão, permitindo ainda uma precocidade de cerca de 15 dias nas peras, em relação ao Oeste, e maior nas frutas de caroço pois permite fazer outras variedades mais precoces que no Oeste, por falta de horas de sol na primavera, não é possível”.

José Paulo Duarte, presidente do grupo Paulo Duarte, que detém a Abrunhoeste

José Paulo Duarte, presidente do grupo Paulo Duarte, que detém a Abrunhoeste

O administrador da Abrunhoeste adianta que “em termos de rentabilidade das peras, não se espera grandes diferenças em relação ao Oeste pois o potencial de produção do pomar não será muito diferente, a precocidade referida apenas permite uma entrada no mercado mais cedo começando a dar resposta aos clientes”, mas “na rentabilidade das prunóideas poderá haver diferenças significativas pois o clima do Alentejo permitirá produções de qualidade mais precoces, com possibilidade de colocar produto no mercado em épocas com menor concorrência de outros países produtores”.

Também Filipe Ferreira, diretor de produção da Granfer, refere que “já há vários anos que tencionávamos investir no Alentejo, mas só em 2011 surgiu a oportunidade de concretizarmos o investimento. O principal motivo de expandirmos a produção para sul foi a precocidade. Já tínhamos produção de fim de junho até final de setembro, desta forma ficamos com o calendário alargado com fruto de caroço desde o início de maio, o que nos permite estar presente no mercado com este tipo de produtos durante cinco meses”.

O investimento da empresa em Mora, na Herdade da Barroca, consistiu na plantação de 80 hectares de pomares com 30 diferentes variedade e pêssegos, nectarinas, ameixas e ainda na construção de um pequeno entreposto frigorífico. “No total o investimento será de 1,5 milhões euros e o objetivo é atingir as 2000 toneladas, quando o pomar estiver em plena produção”, explica Filipe Ferreira.

“Cerca de 95% da produção destina-se a ser comercializada em fresco sendo o restante para a indústria de transformação.”

Exportação é principal destino

No caso destas duas OP, a produção destina-se maioritariamente à exportação, mas também na Hortomelão a venda para o mercado externo tem vindo a aumentar. Veja-se o caso da abóbora butternut que, em 2013, fez com que a exportação da OP crescesse 400% face ao ano anterior.

A Abrunhoeste, criada em 1997, tem 29 associados produtores, com uma área total de produção de cerca de 400 hectares, distribuída pelos concelhos de Alcobaça, Nazaré, Caldas da Rainha, Óbidos, Bombarral, Cadaval, Lourinhã, Torres Vedras, Alenquer e agora também em Beja. Com uma produção de cerca de 8000 t de peras, 1000 t de ameixa e 500 t de maçã.

“Cerca de 95% da produção destina-se a ser comercializada em fresco sendo o restante para a indústria de transformação. Da produção comercializada em fresco 80% tem como destino a exportação para mercados por ordem de importância em 2013 como Irlanda, Marrocos, Inglaterra e Brasil. No mercado nacional os principais clientes são as grandes superfícies Pingo Doce e Intermarché”, revela Paulo Duarte.

Por seu lado, a Granfer existe desde 1986, mas os seus sócios produtores têm raízes na fruticultura desde os anos 50 e na produção de prunóideas desde a década de 80. “Produzimos peras, maçãs, pêssegos, nectarinas, ameixas e damascos em três regiões distintas do País: Oeste, Cova da Beira e Alentejo. No Oeste temos 200 hectares de pomares e produzimos essencialmente peras e maçãs, contudo existe ainda alguma produção de fruta de caroço”, adianta Filipe Ferreira, salientando que “os nossos produtos são vendidos para uma dúzia de países. Os principais mercados são Brasil, Inglaterra, França, Alemanha e também o mercado nacional. A exportação representa 70% das nossas vendas”. Em 2013, as várias empresas do grupo atingiram um volume de negócios próximo dos 25 milhões de euros.

Já a Hortomelão, foi criada em 2005, com 18 associados, “mas hoje somos 35, com cerca de 600 hectares, sendo 450 ha no Alentejo, onde produzimos melão, abóbora, melancia, meloa, brócolos, couve-flor, curgete, beringela e pimento”, refere Carlos Ferreira destacando que “no global, cerca de 70% da produção destina-se ao mercado nacional, principalmente grandes superfícies, mas a quota da exportação, principalmente na abóbora e outros frutos, tem vindo a aumentar”.

Expansão já chega ao Algarve

Depois do Alentejo, a Abrunhoeste expandiu-se ainda mais para sul. “Temos neste momento uma parceria com um produtor local onde instalámos um ensaio de variedades de pêssegos e nectarinas, para estudar o comportamento da cultura ao clima e solos do Algarve. Estando-se neste momento a preparar 10 ha para realizar a plantação de pomar provavelmente ainda em 2014”, revela José Paulo Duarte.

A parceria é com a Alcitrus, para quem “também embalamos e damos uma ajuda na comercialização, já que eles criaram a sua própria comercialização”.

Igualmente, a Granfer não rejeita a possibilidade de continuar a sua expansão no sul, com o diretor de produção a dizer que “estaremos atentos à evolução do mercado e ao crescimento das plantações dos nossos principais concorrentes de fruta de caroço, que são os produtores espanhóis. Em Espanha plantaram-se muitos milhares de hectares de prunóideas nos últimos anos e Portugal por estar próximo de algumas das suas zonas de produção é muito vulnerável aos períodos de excesso de produção dos seus vizinhos. No entanto estamos, sempre abertos a novos projetos e novas oportunidades de crescimento”.

“O Alentejo, com as condições que tem neste momento, poderia transformar-se numa das principais zonas produtora de produtos frescos e industriais da Europa, mas não basta dar apoio para criar novas explorações e novas culturas…”

Falta ‘plano de fomento’

Depois de destacar as vantagens da produção no Alentejo, há que referir também os constrangimentos. Já na conferência da VIDA RURAL em outubro, Jorge Neves, diretor-geral da Agromais, tinha salientado que o principal desafio de produzir no Alentejo (zona do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva) “é criar massa crítica. Se a indústria não vai para lá, a produção também não”. E acrescentou: “é preciso criar um verdadeiro ‘plano de fomento’, criar regras especiais para uma região que já é especial, onde houve um enorme investimento público”.

Agora, também José Paulo Duarte frisa que “o Alentejo, com as condições que tem neste momento, poderia transformar-se numa das principais zonas produtora de produtos frescos e industriais da Europa, mas não basta dar apoio para criar novas explorações e novas culturas é necessário experimentar e transmitir esses conhecimentos aos empresários, é preciso saber como comercializar esses produtos criando centros de comercialização e agroindústrias”.

O administrador da Abrunhoeste diz que “as maiores dificuldades encontradas nesta expansão pelo Alentejo têm sido a mão de obra, que tem de se deslocar dos concelhos limítrofes, a sua qualificação inicial que é baixa, mas com um poder muito grande de aprendizagem e de adaptação, embora devido à sua grande rotação tem sido um constrangimento”.

E adianta: “mas a maior dificuldade encontrada é a falta de investigação e experimentação em que se encontra o País tornando difícil às empresas diversificar, pois os riscos são muito grandes. Neste momento, no Alentejo os empresários pensam o que vão fazer com a água que agora têm nas suas explorações e como vão rentabilizar esse investimento, mas quando fazem contas perdem a coragem. Deviam os nossos governantes refletir o porquê de todos os investimentos rea­lizados no Alentejo nos últimos anos terem sido de empresas ou pessoas oriundas de outros países ou de outras zonas do nosso país”.

A somar a estes obstáculos e alertas, Jorge Neves também já tinha afirmado que, em termos de produção, os principais constrangimentos surgem “na organização da produção [ou falta dela…]; na rigidez do mercado fundiário; na deslocalização; e na evolução do tarifário da água”.

Sobre este último ponto, Jorge Neves frisou que “se se mantiver como está, dificilmente vai ser possível rentabilizar as culturas”.

Produção de milho é muito competitiva

Habituado a uma realidade diferente dos hortofrutícolas, Joaquim Pedro Torres, diretor-geral da Valinveste, diz-nos que “a produção de milho no mercado mundial, a cujas regras estamos sujeitos, é muito competitiva. Luta-se com margens mínimas num mercado produtivo com intensificações culturais muito diferentes, de país para país ou mesmo de região para região, mas com eficiência máxima”.

A empresa produz milho há mais de 25 anos no centro e sul de Portugal. O começo foi no Ribatejo, mas logo nos primeiros anos expandiu-se também para o Alentejo. “Curiosamente explorámos durante muitos anos – até ficar submerso pelo açude do Pedrógão – o primeiro pivot instalado em Portugal, na Herdade da Defesa de S. Brás, em Moura. A área produzida foi crescendo até atingir os 2000 hectares”, afirma Joaquim Pedro Torres, adiantando: “atualmente exploramos uma área menor, mas cresceu bastante a área de serviços associados à produção em regadio, nesta fase quase exclusivamente milho. Esta vertente do negócio levou-nos à Roménia e a Moçambique para estudar projetos de regadio, que no primeiro caso foi implementado, felizmente, com sucesso. Foi uma ótima experiência em ambos os casos pois levou-nos a ter uma visão mais alargada do mercado global onde temos que trabalhar”.

Joaquim Pedro Torres, diretor-geral da Valinveste

Joaquim Pedro Torres, diretor-geral da Valinveste

O diretor-geral da Valinveste explica que “o aparecimento da obra de rega de Alqueva fez aumentar rapidamente as áreas potencialmente regáveis no Alentejo e daí o deslocamento do nosso centro de gravidade produtivo para sul. Surgiram portanto algumas oportunidades de negócio com proprietários beneficiados com a obra, que se revelaram interessantes para as partes, o que nem sempre é fácil pois a relação custo/benefício do investimento de adaptação ao regadio é apertada. Não digo por estarmos na ‘ressaca’ de um ano de preços pouco favoráveis. É uma realidade mesmo quando olhamos para um preço médio de um período mais alargado”.

E alerta: “fico apreensivo quando vejo o crescimento das áreas de produção de milho a leste em solos com qualidades produtivas ímpares. Hoje o preço do milho é fortemente influenciado pela bacia do Danúbio e os barcos ucranianos vendem ou fazem preço em países tão importantes na produção de milho europeu como a França e por maioria de razão em Portugal. O mercado fica ainda mais apertado. Para os produtores é um enquadramento diferente mas espero que, da mesma forma que em outras situações, possam dar uma resposta positiva”.

O responsável da empresa lembra que estas questões, e outras, estarão na ordem do dia na 4.ª edição da AgroGlobal, que se realiza este ano, em setembro. A Valinveste, em conjunto com a Agroterra e com o apoio do INIAV e da Câmara Municipal do Cartaxo, organiza a feira das grandes culturas desde 2009.

Artigo publicado na edição de fevereiro de 2014 da revista VIDA RURAL