A transição energética e as metas de descarbonização estão a obrigar o setor agrícola e agroindustrial a repensar a sua dependência dos combustíveis fósseis. Neste contexto, a bioeficiência surge como uma estratégia concreta e necessária ao permitir utilizar biosoluções e produzir bioenergia a partir de resíduos, transformando custos de eliminação em novas fontes de rendimento. Em Portugal, este caminho tem vindo a ser explorado pelo COLAB BIOREF — Laboratório Colaborativo para as Biorrefinarias — através do desenvolvimento e transferência de tecnologias orientadas para a valorização de biomassa residual.
Há futuro sem bioeficiência?
Não, não há um futuro viável de descarbonização e transição energética sem bioeficiência (ou bioeconomia circular eficiente). Embora não seja a única solução, o papel da bioeficiência é essencial e complementar em setores como a agricultura, agroindústria, florestas e resíduos, onde a eletrificação direta ou o hidrogénio verde têm limites técnicos ou económicos.
Num contexto de crescente escassez e encarecimento dos recursos naturais, o modelo tradicional — linear e intensivo — revela-se cada vez mais insustentável, tanto do ponto de vista económico como ambiental. Sem uma mudança estrutural, setores como a agricultura continuarão dependentes de combustíveis e fertilizantes de origem fóssil, assim como de práticas que esgotam os solos, tornando mais difícil acompanhar as metas europeias de descarbonização e responder às exigências dos mercados internacionais.
A transição para modelos circulares, onde cada resíduo agrícola ou agroindustrial é visto como uma matéria-prima potencial, já está em curso em vários países líderes em bioeconomia. Portugal, com a sua abundância de biomassa residual nos setores agrícola e agroindustrial, tem todas as condições para acompanhar esta mudança, adotando a bioeficiência como princípio orientador das suas cadeias de valor.
Usar recursos de forma sustentável e eficiente
Alcançar uma gestão verdadeiramente sustentável dos recursos disponíveis passa por reforçar a adoção de modelos mais circulares e eficientes, que privilegiem a integração, a otimização e a valorização dos recursos ao longo de toda a cadeia de valor, complementando as abordagens produtivas convencionais. Na prática, isto significa olhar além do produto principal e valorizar também subprodutos e resíduos que, durante décadas, foram simplesmente descartados por não terem valor aparente.
Esta abordagem circular pode ser promovida através de tecnologias de conversão bioquímica e termoquímica. Processos como a fermentação, a digestão anaeróbia e a gaseificação permitem transformar estes fluxos de resíduos em produtos de valor acrescentado, reduzindo, ao mesmo tempo, emissões. Quando integrados em setores com elevada produção de resíduos, como o agrícola ou o agroindustrial, estes processos tornam possível o aproveitamento máximo de cada tonelada de biomassa do ponto de vista energético e material. Neste ponto, a implementação de práticas como a simulação de processos permite antecipar e otimizar estas soluções antes da sua implementação, reduzindo riscos e aumentando a eficiência na utilização dos recursos — uma abordagem já aplicada em vários projetos nacionais.
Valorização integrada em biorrefinaria
Uma biorrefinaria integrada é, na prática, a expressão mais clara do conceito de bioeficiência. Trata-se de um sistema onde diferentes tecnologias de conversão operam em conjunto para valorizar integralmente um recurso. Ao contrário das unidades industriais tradicionais, focadas num único produto, uma biorrefinaria permite gerar um conjunto diversificado de outputs a partir da mesma matéria-prima, sejam biocombustíveis, produtos químicos de base biológica ou energia térmica e/ou elétrica, assegurando a utilização em cascata da biomassa e a máxima valorização dos resíduos, minimizando desperdícios e potenciando a criação de valor ao longo de toda a cadeia produtiva.
Esta lógica de integração ganha forma na combinação de tecnologias convencionais e emergentes, como é o caso da digestão anaeróbia e gasificação, que permitem converter resíduos em produtos de maior valor. O Plano de Ação para o Biometano 2024–2040 (PAB) é um exemplo concreto desta abordagem a nível nacional, mostrando como é possível acelerar a produção de gases renováveis, como o biometano, a partir de resíduos e contribuir para as metas de descarbonização.
Produzido localmente e a partir de recursos locais, o biometano torna-se um exemplo claro de bioeficiência com impacto direto no setor agroindustrial português. Adotar esta lógica de biorrefinaria, capaz de produzir múltiplos produtos na mesma infraestrutura, é, por isso, uma alavanca crítica para a viabilidade técnico-económica dos sistemas agrícolas do futuro.
Produzir mais valor com menos inputs
No centro da bioeficiência está, pois, uma ideia simples: produzir mais valor com menos recursos. Na prática, isto traduz-se em gerar benefícios económicos, sociais e ambientais utilizando menos energia, menos água e menos inputs externos. Nas biorrefinarias integradas, este princípio concretiza-se através da maximização da eficiência de conversão, da substituição de recursos fósseis por alternativas renováveis locais e da criação de sinergias entre processos. Ao produzir vários produtos na mesma infraestrutura, é possível reduzir significativamente a intensidade de recursos por unidade de valor gerado.
Neste contexto, ferramentas como a modelação de processos e a análise de ciclo de vida assumem um papel central. A modelação permite explorar e comparar cenários onde “menos é mais”, por exemplo, identificar configurações que, através de uma melhor integração térmica, atingem o mesmo desempenho com 20–30% menos de energia consumida. Em paralelo, a análise de ciclo de vida torna possível quantificar estas escolhas ao longo de toda a cadeia de valor, revelando onde estão os pontos de maior pressão sobre os recursos e orientando assim decisões mais informadas.
Ao promover a bioeficiência, é possível reforçar não só a redução da dependência de combustíveis fósseis, mas também a sustentabilidade económica e ambiental do setor agrícola português. No fundo, trata-se de transformar desperdícios em recursos e criar valor de forma mais sustentável e inteligente.
O papel do CoLAB BIOREF na transição energética
Para que esta transição deixe de ser apenas uma visão e se traduza em soluções concretas no terreno, torna-se essencial aproximar conhecimento científico, inovação tecnológica e necessidades reais do setor agrícola e agroindustrial. É neste contexto que entidades como o CoLAB BIOREF assumem um papel relevante na aceleração da bioeconomia em Portugal.
O CoLAB BIOREF é uma associação privada sem fins lucrativos dedicada à transferência de conhecimento e inovação na área das biorrefinarias. Com foco na valorização de resíduos e de biomassa, o laboratório apoia empresas e organizações no desenvolvimento de soluções mais eficientes, circulares e sustentáveis para o setor agrícola e agroindustrial.
A sua atividade inclui o desenvolvimento e otimização de tecnologias para produção de biocombustíveis, gases renováveis e bioprodutos, bem como modelação, simulação e integração de processos de biorrefinaria. O CoLAB BIOREF disponibiliza ainda infraestruturas piloto e competências especializadas para estudos de viabilidade técnico-económica, análises ambientais e de ciclo de vida, avaliação regulamentar e desenvolvimento de projetos de biometano.
Mais do que uma tendência tecnológica, a bioeficiência afirma-se como uma condição essencial para garantir a competitividade e a sustentabilidade do setor agrícola e agroindustrial nas próximas décadas. A capacidade de transformar resíduos em recursos, integrar processos e produzir energia e bioprodutos de forma descentralizada será determinante para reduzir custos, diminuir dependências externas e responder às metas ambientais europeias. Neste contexto, a colaboração entre ciência, indústria e produtores será fundamental para acelerar a implementação de soluções capazes de criar valor económico e ambiental de forma duradoura.

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