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E tudo o vento levou…

E tudo o vento levou…

O mau tempo na região do Oeste trouxe altos níveis de destruição. Estufas antigas e recentes ficaram total ou parcialmente afectadas. Depois da tempestade, os produtores fazem contas à vida. Recuperar o que é possível recuperar, substituir o que é para substituir são as perspectivas para o futuro próximo.

Os 45 minutos do “tornado” da região Oeste em finais de Dezembro foram avassaladores. Destruí-ram plantações e estufas. Umas mais antigas, mas, também, projectos concluídos em 2009, que entravam agora em produção plena. Os produtores da região já puseram mãos à obra para recu-perar o que é possível recuperar. E, nos casos em que a destruição não foi total, tentar ainda tirar algum partido da campanha do primeiro semestre do ano.

A maioria das explorações não tinha seguro, o que cria dificuldades acrescidas à recuperação. O Ministério da Agricultura abriu um financiamento de 75% a fundo perdido, através do Proder. São 18 milhões de euros para reposição do potencial produtivo da região Oeste. As candidaturas abri-ram no início de Janeiro e, assegura o ministro da Agricultura, até 15 de Fevereiro todos os casos estarão decididos. Se a candidatura for aprovada, “o agricultor receberá de imediato 50% de adiantamento sem apresentar despesas”, garante António Serrano.

 

O responsável lembra que está também disponível uma linha de crédito de 50 milhões de euros, com uma bonificação de 85% e um período de carência de dois anos. Até ao limite de 500 mil euros por operação, é dirigida a pequenas e médias empresas dos sectores agrícola, silvícola e florestal e poderá ser utilizada pelos produtores na recuperação dos danos nas estufas.

Um ano “difícil”

 

Os dez hectares de estufas de Paulo Maria, perto de A-dos-Cunhados, foram um dos casos afecta-dos pelo mau tempo. Parte ficou totalmente destruída – com a queda da estrutura – e o restante com alguns danos. São, estima o produtor, cerca de 800 mil euros de prejuízo. Duas semanas após a tempestade, os esforços eram dirigidos para a recuperação do que poderia ser salvo. Se possível, tentar salvar alguma da campanha deste ano.

A exploração está direccionada para a produção de tomate – cultivada em Janeiro e em Julho. As plantas estavam já encomendadas e Paulo Maria procura agora atrasar um pouco a plantação: “dos dez hectares, estou a tentar a todo o custo conseguir recuperar quatro para podermos plantar”. Os restantes seis obrigam a uma reconstrução mais profunda. Até Junho espera ter seis hectares em actividade. E até ao final do ano, a totalidade a funcionar.

 

Com as empresas de construção de estufas sem capacidade de resposta, recorre aos seus funcioná-rios para esse trabalho. Tirar plásticos e ferros partidos, colocar novos ferros e refazer a cober-tura são as actividades a curto prazo. E, também, o estudo exaustivo dos estragos para apresen-tar a candidatura às ajudas do Proder.

Paulo Maria – que é também presidente da mesa da Assembleia da Associação Interprofissional de Horticultura do Oeste – assegura que, da parte das associações, tem sido feito todo um trabalho de apoio aos produtores. Desde disponibilização de informação, ao acompanhamento das candi-daturas e às reuniões com o Ministério da Agricultura. E espera que os prazos dados pelo Executi-vo para a atribuição dos apoios sejam cumpridos, para minimizar as perdas dos produtores. Até porque, recorda, esta tempestade foi o culminar de um ano que correu bastante mal para a cul-tura do tomate. “O ano estava a ser muito difícil em termos de preços por quilo, os produtores andaram muitos meses a vender abaixo dos custos”, lamenta.

 

À espera do Proder

Para muitos produtores da região do Oeste, o mau tempo destruiu projectos com pouco tempo de vida. Iniciativas que tinham sido desenvolvidas no âmbito dos apoios ao investimento do Proder, fundos que ainda não chegaram e que são para projectos que estão agora destruídos. Os mais recentes quatro hectares da exploração de Paulo Maria estão nessa situação. Pediu 100% do dinheiro desse projecto, a contar com o apoio do Proder. O crédito com a banca está agora comprometido: “as medidas que são apresentadas são boas. Mas o problema é que o meu plafond com o banco já está esgotado, porque já me tinha emprestado 100% para estes quatro hectares”, conta.

O caso é semelhante ao de Vitor Gonçalves. Os seus cinco hectares de estufa – dois de alface e três de tomate – tinham entrado em produção em Julho de 2009. Em Dezembro ficaram destruídos pelo mau tempo. Da plantação de alface, que iria começar a ser colhida em finais de Janeiro, não se sal-va nada. E o produtor prevê que só em 2011 conseguirá voltar a plantar.

O investimento foi de 1,6 milhões de euros no projecto. Pediu a totalidade ao banco e contava com um reembolso por parte do Proder, que ainda não aconteceu. Espera agora que o banco lhe conceda um novo crédito para a reconstrução. E contabiliza, em prejuízos, entre 800 e 900 mil euros.

Por agora, aguarda que a equipa do IFAP vá à sua exploração avaliar os estragos. Só depois irá começar com o processo de reconstrução. Os 75 mil pés de tomate encomendados estão no vivei-ro. E lá deverão ficar.

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Um ano para recuperar

A exploração é diferente, a história é a mesma. Nos cinco hectares de Hugo Teodoro, toda a área de estufa ficou inviabilizada. Um projecto iniciado em Abril de 2008, que implicou candidaturas ao Proder, e que começou a funcionar em Julho de 2009. 1,5 milhões de euros alocados. As culturas, tomate e curgete. 3,5 hectares ficaram totalmente destruídos. O resto, danificado e sem possibili-dade de ser utilizado a curto prazo. Hugo Teodoro explica que “as janelas estão empenadas, os plásticos cortados, o sistema de rega estragado, neste momento não é possível plantar nada”. Estima que os prejuízos cheguem a um milhão de euros.

Diz que estava a tratar do seguro, que ainda não tinha na sua exploração. Apresentou as can-didaturas para o apoio anunciado pelo Ministério da Agricultura e pondera recorrer à linha de crédito. Do que permaneceu montado nas estufas, acredita numa recuperação mais ou menos rápida. O restante, o mínimo um ano para reconstruir. Espera a presença dos peritos do IFAP para avaliação dos prejuízos. Por isso, neste momento, o trabalho dos seus funcionários tem sido “pôr os tomateiros no chão e começar a limpar, porque, para arranjar as estruturas que estão de pé, é necessário ter tudo limpo, para poder utilizar as máquinas”, conta.

A necessidade de melhores estruturas é reconhecida pelos produtores. Embora não saibam se isso é possível. Paulo Maria fala na possibilidade de “estudar medidas com os fabricantes, para avaliar as mudanças que se podem fazer nas estruturas”. Como aumentar a espessura dos ferros ou dos pru-mos. Todas as hipóteses estão em cima da mesa para evitar que estragos desta dimensão voltem a afectar a região. •

Produzir para exportar

A propriedade de Paulo Maria foi criada em 1997 e, nos primeiros quatro anos, teve um hectare. A partir daí começou a crescer até aos dez hectares que tem actualmente. Um aumento significativo e que tem sido comum na região do Oeste. Com o aparecimento de novas estufas ou o alargamento das explorações já existentes.

Para esse crescimento contam duas razões, evidencia o produtor. O clima da região, que permite ter uma muito boa qualidade em hortícolas, sobretudo nos meses de Setembro e Outubro, e exportar para o mercado espanhol – onde nesses meses não existe um produto com uma qualidade tão elevada. O que cria uma forte oportunidade de venda. E, também, o alargamento do mercado externo, para o que terá contribuído a proliferação de leilões. Paulo Maria adianta que, na região do Oeste, existem quatro leilões onde o agricultor vende os seus produtos a quem quiser comprar. “Tem a vantagem de o preço ser real, baseia-se na oferta e na procura, e de premiar a qualidade – quem tem maior qualidade consegue vender a um preço superior”, observa. Uma situação de mer-cado mais “justa”. São abertos à generalidade dos compradores, mas os espanhóis são grande parte dos clien-tes dos horticultores nacionais. De acordo com Paulo Maria, cerca de 80% da produção vendida em leilão é ven-dida para o país vizinho.

Poucos seguros e ‘desajustados’

No que toca aos seguros das explorações, a situação não é animadora: poucos produtores os têm. E o Sistema Integrado de Protecção contra Aleatoriedades Climáticas (SIPAC), através do qual é disponibilizado o Fundo de Calamidades, só poderá ser atribuído a agricultores que tenham subscrito uma apólice de seguro de colheitas.

Mas a regra diz que os produtores têm muita relutância em aderir a estes seguros. A razão, explica o presidente da Associação Interprofissional de Horticultura do Oeste (AIHO), prende-se com o seu “desenquadramento”. Os seguros de colheita, integrados no SIPAC, estão “desajustados”, observa António Gomes. E dá o exemplo: “as intempéries que cobre e as alturas em que cobre não são adequadas ao que se passa na realidade”.

No que toca aos seguros de estrutura, realizados pelas companhias de seguros, apresentam “soluções contra-tuais que não são benéficas aos produtores”, considera o responsável. Franquias muito caras, não cobrir compo-nentes como o plástico nas estufas ou impor condições, como só cobrir ventos até certos limites, são as principais queixas.

“As companhias de seguros nunca olharam para este sector como um negócio, mas da parte dos produtores tam-bém nunca houve adesão. Por essa razão nunca se criaram melhores soluções”, constata o presidente da AIHO. Um ciclo vicioso que agricultores, Ministério da Agricultura e companhias de seguro pretendem alterar no futuro próximo. Fazer rondas negociais entre associações, Ministério e seguradoras que permitam criar situações mais favoráveis para a aquisição de seguros. Da parte do Ministério há já o compromisso de aproximar o SIPAC da realidade dos produtores.

“O intuito é conseguirmos sair desta situação mais fortes, porque estamos todos muito vulneráveis e o futuro tem de passar por seguros mais ajustados e adequados às necessidades”, conclui António Gomes.