Na sua exploração na Golegã, Luís Vasconcellos e Souza faz entre 80 e 100 hectares de batata para indústria. Este ano deverão ser 80. Até porque as condições climatéricas não têm ajudado à pro-dução em 2010.
A batata costuma ser semeada a partir de 15 de Fevereiro. Este ano, a maioria foi para a terra em Abril. O motivo, as chuvas intensas que se fizeram sentir durante o Inverno e o início da Primave-ra, que não permitiram a entrada no campo pelos produtores e retardaram o início da sementeira. Cerca de um mês e meio de atraso que se vai reflectir nas produtividades da cultura.
A média de produção na região varia entre as 43 e as 60 toneladas. São os valores mínimos para que possa ser rentável (ver caixa). Na exploração de Luís Vasconcellos e Souza, ronda as 48 e as 50 tone-ladas. A sua área de produção tem vindo a aumentar ao longo dos anos. Começou com cerca de 20 hectares, que foi alargando até chegar aos 80/100. Um processo gradual, de adaptação e de apren-dizagem, até porque, evidencia, “a batata é uma cultura com muitas especificidades e que exige muita atenção, sobretudo do ponto de vista da fitossanidade e dos tratamentos”. Condições que têm de ser trabalhadas e asseguradas para que o produto cumpra os requisitos exigidos pela indústria.
Especificações de controlo de qualidade
A cultura da batata é bastante exigente, na produção e na entrega na fábrica. As especificações de qualidade são elevadas e prendem-se sobretudo com os teores de açúcar. Quanto mais elevados, mais a cor é diferenciada na altura da fritura e a possibilidade de ser rejeitada à entrada na fábrica aumenta. “Os industriais querem que seja uma batata com um peso específico alto, quanto maior melhor, e que não tenha concentrações de açúcar”, resume Luís Vasconcellos e Souza.
São questões que dependem essencialmente de três factores na produção: clima, variedade e maneio. E que nem sempre são fáceis de assegurar. A cultura da batata estende se por vários meses. Num ano dito normal, começa a ser semeada em meados de Fevereiro e é colhida em Setembro. Uma época que, observa o produtor, é complicada para assegurar a qualidade, porque “a planta já está sem folha, as temperaturas ainda estão elevadas e nem sempre é fácil de determinar a rega”. Os programas informáticos e a rede de sondas ajudam a atenuar este obstáculo. Os sistemas de avisos também dão um bom apoio, mas com o ponto fraco de serem feitos no próprio dia ou na véspera, o que torna difícil a aplicação de tratamentos em áreas muito alargadas. Dificuldade que, considera Luís Vas-concellos e Souza, só é possível reduzir com o próprio maneio da cultura por parte do produtor. “Tem de haver um trabalho preventivo e de observação, porque, na fase curativa, já não se conse-guem resultados tão satisfatórios”. Os principais problemas da batata, a este nível, prendem-se com o míldio, alguns ataques intensos de insectos e tripes, em anos muito quentes.
Os produtores da região trabalham com variedades sobretudo do Norte da Europa – holandesas e escocesas são apenas algumas das possibilidades, além das que são fornecidas pela indústria. São variedades que foram geneticamente melhoradas para tornarem a produção e o seu rendimento mais interessante.
Agromais entre produtores e indústria
A batata é vendida para a Agromais e a associação encarrega-se depois de a fazer chegar à indús-tria. Até lá, tem todo um processo de controlo de qualidade, lavagem e armazenamento. Questões em que tem vindo a investir para garantir um produto de maior qualidade. E, claro, uma maior competitividade no mercado.
Recebe anualmente cerca de 20 mil toneladas de batata. Destas, entre um terço a um quarto é armazenado em câmaras de atmosfera controlada durante quatro a seis meses. São três câmaras, com capacidade para cerca de 1300 toneladas cada, que asseguram uma entrega escalonada à indústria. Um investimento superior a um milhão de euros, mas que lhe permite enviar cinco mil toneladas mais tarde, com consequente acréscimo nos preços.
Hoje, praticamente 100% do que entrega à indústria é produto lavado. Uma mais-valia na cadeia produtiva, mas que implicou mais investimentos e uma nova organização logística, adianta Luís Vasconcellos e Souza, também dirigente da Agromais: “obriga a uma concentração de pré-lavagem e levanta alguns problemas de logística. Antes concentrávamos apenas a batata suja, agora temos de concentrar a suja e a limpa. E o período entre pré-lavagem, lavagem e entrega na fábrica tem de ser cerca de quatro horas, uma vez que a batata, depois de lavada, torna-se bastante pere-cível. Temos, necessariamente, de ter uma cadeia logística muito célere”.
O trabalho da Agromais é abrangente. Envolve, além do armazenamento e da lavagem, todo o processo de escolha do produto. Tem as máquinas de selecção em funcionamento na altura da entrada nas suas instalações, na fase de lavagem e à saída das câmaras frigoríficas.
Preços em queda
O principal cliente da Agromais na batata para indústria é a Frito-Lay. A evolução dos preços tem sido descendente e, lamenta Luís Vasconcellos e Souza, “uma cultura que, há uns anos, era muito interessante, neste momento está a tornar-se menos interessante”.
A Frito-Lay tem uma fábrica no Carregado e outra em Burgos, Espanha. A Agromais costumava entregar em ambas as fábricas. Hoje, a portuguesa tem quase o exclusivo, com valores elevados, explicados por aí se produzirem as designadas “batatas gourmet”. Já em Espanha, o consumo baixou bastante, com efeitos no preço pago à produção. Este ano serão 137,50 €/tonelada. “Uma diminuição de 10 a 12% em relação ao ano passado”, aponta o produtor da Golegã. Mas que também acaba por ser variável em função da época de entrega, sublinha: “Na altura em que é mais fácil produzir – nos meses de Julho/Agosto – os preços são mais baixos. A partir do final de Setembro começam a aumentar”.
Fazer um hectare de batata custa à volta de 5500 euros e as produtividades estão muitas vezes no mínimo para se atingir o break even. Razões que têm levado a uma diminuição do número de pro-dutores (ver caixa). É, por isso, uma cultura que, só com o aumento dos preços à produção, pode-rá vir a manter o elevado interesse que já teve para a região. •
Aliciar a indústria a investir na região
O negócio da batata na região do Ribatejo começou em 1991 numa iniciativa dos produtores, através da Agromais. Souberam que ia ser estabelecida em Portugal uma fábrica para batata, com dimensão europeia. Entraram em contacto com os responsáveis e aperceberam-se que o grosso da produção previsto pela fábrica seria importado. A excepção eram alguns acordos existentes com produtores de Palmela.
Chegaram a acordo e começaram a produzir batata para a fábrica. A quota de produção foi aumentando ao longo dos anos, conta Luís Vasconcellos e Souza: “no primeiro ano a nossa quota foi bastante baixa. O con-sumo de batata na fábrica rondava as 20/25 mil toneladas e nós fornecíamos apenas 20%”. A capacidade da fábrica aumentou para quase 70 mil toneladas. A quota de produção atingiu os 30%. Um valor que já voltou a descer. A razão, explica o produtor, prende-se sobretudo com o rendimento. “O break even directo desta cul-tura está nas 40 toneladas – sem os custos inerentes de exploração. Por isso, produzir abaixo das 45 tonela-das torna-a inviável”.
Hoje, a Agromais tem um número mais ou menos consolidado de produtores de batata. São cerca de 20. Des-tes, seis são responsáveis por 60% do total da produção. No global, a Agromais trabalha com cerca de 20 mil toneladas de batata.
Agromais
Do milho aos hortícolas
Criada, em 1987, como agrupamento de produtores dedicado sobretudo ao milho, a Agromais tem vindo a alar-gar a sua área de actividade. E a investir em infra-estruturas, instalações e numa transversalidade de produção. O objectivo, controlar todo o processo produtivo para oferecer um produto o mais acabado possível para a indús-tria. Com maior qualidade e que permita a sua valorização na fase final do processo.
Actualmente, os cereais continuam a deter a fatia mais importante da facturação, e em particular, o milho. O res-tante dos produtos que recebe abrange tomate, batata, cebola, curgetes, pimentos, brócolos e outros.
Também a área de influência, a nível geográfico, tem vindo a aumentar. Vai de Alpiarça a Abrantes e passa pela Chamusca, Golegã, Santarém, Vale Figueira, parte de Torres Novas, Barquinha e Constância. São regiões que, nota Luís Vasconcellos e Souza, “têm vindo ter com a Agromais”. E concretiza: “temos um negócio também liga-do aos factores de produção, com uma forte procura. Por um lado, porque temos preços bastante competitivos e, por outro, porque os agentes tradicionais de factores de produção têm vindo a diminuir bastante com a redução da área de vinha, a fatia mais importante da sua facturação”.

