Culturas

A nova vida da cultura do kiwi

‘Minikiwis’ e kiwis amarelos ou de polpa encarnada são algumas das tendências recentes para este fruto que prometem um novo fôlego para a cultura no nosso país. Atualmente, os produtores tentam resolver algumas debilidades destas novas variedades, caso da fraca capacidade de conservação ou resistência a doenças, que obrigam a experimentação e testes permanentes para encontrar as variedades mais adaptadas às nossas condições.

O cultivo de kiwi está a conhecer em Portugal um novo interesse, por via da introdução de novas variedades. A cultivar mais comum é a Hayward, mas o kiwi arguta – minikiwi – e o kiwi amarelo apresentam maiores potencialidades de negócio, considera Carlos Jorge Ferreira, produtor e ex-técnico da Kiwicoop.

Ainda é cedo para conclusões, mas sabe-se que o kiwi arguta tem fragilidades a ter em conta. “Este fruto tem um problema, é muito perecível, pois apresenta um período entre a colheita e o consumo muito curto. Relativamente ao kiwi amarelo, existem diferentes variedades, assim como por exemplo no kiwi de polpa vermelha. Embora o kiwi amarelo tenha menos resistência à bactéria PSA [Pseudomonas syringae pv. actinidiae], relativamente ao verde”, explica Carlos Jorge Ferreira.

“Estão a aparecer algumas espécies novas, com características e problemas, que só o tempo vai diferenciar as que têm a qualidade e sabor que o consumidor aprecie, e sejam produtivas o suficiente para agradar ao produtor cultivar”, refere José Carlos Soares, diretor desta cooperativa.

A Kiwicoop foi constituída, em 1988, por 70 agricultores da Bairrada. Hoje tem mais de 300 associados, com uma área somada de 700 hectares de kiwis, “dos quais mais de metade ainda não está a produzir” – informa José Carlos Soares, diretor desta cooperativa. “No início do seu cultivo não havia pragas ou ataques ao kiwi. Neste momento, a grande ameaça é a PSA ou cancro bacteriano, que tem dizimado muitos pomares por todo o mundo, não sendo a nossa zona exceção ”, salienta.

Investigação permanente

Carlos Jorge Ferreira salienta que tem havido uma grande evolução face aos primeiros kiwis amarelos. A que atualmente se cultiva é a G3, desenvolvida na Nova Zelândia, onde se testam, anualmente, perto de 100 000 plantas. “Conseguir duas ou três em quatro anos é muito bom”. Entre as exigências contam-se fatores de rentabilidade, de cor e de paladar, realizando testes de sabor em painéis de consumidores.

O amanho da G3 está a dar os primeiros passos em Portugal, em fase de testes, embora na Nova Zelândia e em Itália esteja em produção. Nas novidades há também a Jintao e a Soreli, desenvolvida em Itália.

Atualmente centrada na variedade Hayward, a Kiwicoop está a estudar começar a produzir o kiwi arguta, além de “uma das espécies de kiwi amarelo existentes atualmente no mercado”.

Quanto a especificidades de cultivo, Carlos Jorge Ferreira refere não existirem diferenças entre as cultivares. “Um bom local de cultivo, em primeiro lugar, tem de ser próximo do mar, para ter humidade relativa. Tem de ser um terreno bem drenado e um local que tenha 700 horas anuais de frio, inferiores a sete graus”.

“As variedades de kiwi amarelo são mais produtivas do que as de kiwi verde, na ordem das 40 toneladas por hectare.”

José Carlos Soares salienta a importância do fator frio. As horas de frio têm de ser “suficientes para fazer a diferenciação floral, bem como ausência de geadas tardias ou cedo. São estas algumas das condições essenciais para o cultivo do kiwi”.

Novas variedades mais valorizadas

Em termos de preço, as novas variedades têm tido uma maior valorização, em relação ao kiwi verde, informa Carlos Jorge Ferreira. “Nos últimos anos, o preço tem aumentado, devido à quebra de produção da Itália. No entanto, está prevista uma diminuição, em virtude da situação económica, aumento de produção da Grécia e Turquia, visível devido ao embargo da Rússia”, adianta Carlos Jorge Ferreira.

“O preço dos últimos anos tem estado em valores bastante aceitáveis, o que faz com que o rendimento dos kiwicultores tenha sido muito bom”, salienta José Carlos Soares.

Além do fator preço, Carlos Jorge Ferreira salienta que “as variedades de kiwi amarelo são mais produtivas do que as do kiwi verde, na ordem das 40 toneladas por hectare. No entanto, só se poderá afirmar estes dados após observar os resultados da plantação experimental. Estas novas variedades estão a ser estudadas de forma a melhorar o produto e oferecer outras alternativas ao novo consumidor”.

Carlos Jorge Ferreira afirma que Portugal tem condições mais favoráveis do que o Chile e a Itália, “terceiro e primeiro país em produção de Kiwi, respetivamente”. No nosso país, as áreas ideais situam-se no Centro/Norte e no Norte. “As plantações para sul deixam de ter rentabilidade, porque não têm as horas de frio suficientes durante o ano. Se olharmos às características no mundo, os locais numa latitude próxima de 45°, quer no hemisfério norte quer no hemisfério sul são os mais indicados”.

O diretor da Kiwicoop coloca a fronteira da aptidão mais a sul. “A partir de Leiria e até à fronteira norte, continuando para a Galiza, em Espanha; na zona litoral e até às zonas mais montanhosas”.

Em Portugal existem cerca de 2000 hectares de pomares de kiwi. Na zona onde Carlos Jorge Ferreira produz – Centro/Norte – a área média ronda um hectare.

Negócio em crescendo

A produção de kiwis, em Portugal, tem vindo a aumentar, “devido à valorização do fruto na produção. E claro, devido ao decréscimo da concorrência direta italiana”. Itália, o maior produtor mundial tem tido problemas, embora a PSA esteja a surgir em todos os países produtores.

“Depois do seu aparecimento, no final da década de 80, e até ao ano 2000, as quantidades mantiveram-se. Daí até 2013 o crescimento foi muito lento. Nos últimos dois anos o crescimento é muito grande” – informa o diretor da cooperativa.

De acordo com Carlos Jorge Ferreira, “a plantação de kiwis deve ser efetuada durante a primavera. A colheita é realizada em novembro, e depende do teor de Brix do kiwi (sólidos solúveis, o que as pessoas geralmente conhecem como açúcar). Neste período ocorre uma redução da temperatura que promove o aumento do Brix”.

De acordo com José Carlos Soares, o amanho da cultivar Hayward começa em dezembro ou janeiro, com a poda de inverno. “A partir daí há uma série de trabalhos a executar até à apanha, que é durante o mês de novembro, para a espécie Hayward”.

Quanto à última campanha, a produção foi menor, mas com o calibre ou peso médio, do fruto, “talvez o melhor dos últimos anos. Uma qualidade organolética muito boa e consequentemente um poder de conservação ótimo” – informa Carlos Jorge Ferreira.

Segundo José Carlos Soares, “a última campanha, que ainda está a decorrer, começou mal, por via da concorrência estrangeira, principalmente da Grécia e Itália. A partir de março, as coisas correram melhor e vamos terminar esta campanha ao nível do ano anterior, que foi um bom ano para os kiwicultores”.

Kiwi é exigente

Carlos Jorge Ferreira diz que a produção de kiwis é exigente, obrigando a um acompanhamento permanente dos pomares. Este fruto não exige rotação, “é uma plantação com estrutura”. Desconhece-se ainda qual o tempo de vida de um pomar em Portugal.

“Nos últimos anos, o preço tem aumentado, devido à quebra de produção da Itália.”

Em termos de trabalhos, a cultura do kiwi implica plantação, rega, fornecimento de matéria orgânica e de fertilizantes. “Sempre de acordo com a produção estimada, manutenção do terreno eliminando ervas daninhas (por solução química ou manual), poda e empa da planta e tratamentos fitossanitários; essencialmente cobre após a colheita, queda das folhas, poda e em algum momento de intempérie” – explica Carlos Jorge Ferreira.

O dirigente da cooperativa acrescenta ainda a necessidade de poda em verde, rega entre março e outubro e monda de frutos. José Carlos Soares é mais preciso quanto ao consumo de água: “Sim, requer um sistema de rega automática, habitualmente com microaspersores. A planta requer ente 60 e 100 litros de água diária”.

“O kiwi é normalmente plantado, com plantas envazadas ou de raiz nua, e demora entre cinco e seis anos para atingir o máximo de produção”, refere José Carlos Soares.

Por regra, os pomares situam-se ao ar livre. “No entanto, nos últimos anos, devido à PSA, os terrenos têm sido sujeitos a coberturas apropriadas, de forma a diminuir o risco de contaminação”.

Para José Carlos Soares, “uma das coisas boas que esta cultura tem é que existem regiões específicas no mundo onde tem condições ótimas para poder ser cultivada, daí que este cultivo seja feito ao ar livre.

Carlos Jorge Ferreira informa que o modo de colher depende da dimensão do pomar. “A colheita é sempre feita manualmente. No entanto, os pomares de grandes dimensões têm outros métodos que facilitam a carga e transporte do produto, facilitando o processo de colheita”.

“A apanha é feita manualmente, sendo que uma pessoa apanha, em média, uma tonelada por dia. Existem alguns apetrechos, quer para o apanhador, quer de transporte de campo, que facilitam a execução desta tarefa”, especifica o dirigente da cooperativa.

Os custos são compensados

O kiwi necessita de ser regado, mas a quantidade varia com as características do terreno. Em termos de custo, situa-se em torno dos 2500 euros por hectare. “Existem muitos fatores que podem influenciar bastante o valor. Apesar disso, a cultura do kiwi tem sido rentável para os seus produtores” revela Carlos Jorge Ferreira. José Carlos Soares admite que o custo poderá ascender a 3500 euros por hectare.

“Trabalhar na agricultura moderna é ser profissional e aceitar que está numa atividade que depende muito das condições climatéricas. Daí que é difícil dizer o rendimento, mas poder-se-á dizer que ainda é uma das atividades mais rentáveis na agricultura em Portugal”.

A produção portuguesa é escoada, sobretudo, no mercado nacional, representando cerca de 60%. Espanha é o principal destino das exportações. “Isto porque todo o outro mercado da Europa está condicionado pelo transporte”.

Além dos vizinhos, a Kiwicoop tem estado a vender para a Alemanha, Holanda e Suíça. “Esperamos alargar nos anos mais próximos”. Nesta empresa, as vendas ao exterior rondam os 50%.

“Primeiro temos de trabalhar bem o nosso kiwi e fazer que ele seja diferente, para melhor, e desta forma podermos vendê-lo, valorizando a sua qualidade. O passo seguinte é procurar mercados que paguem esta diferença, valorizando a qualidade em detrimento da quantidade”, afirma José Carlos Soares.

“O armazenamento da fruta, após a colheita e até à sua comercialização, depende do mercado e do tempo que qualquer entidade se proponha a comercializar, dentro de um período máximo de seis a sete meses. Para a conservação, com maior período de tempo, é necessário ter a fruta em atmosfera controlada e controlar a quantidade de etileno nas câmaras de conservação. O etileno é o que promove a maturação do fruto”, acrescenta Carlos Jorge Ferreira. Todavia, afirma não ser possível indicar um tempo de validade, pois “existem diferentes fatores que poderão condicionar o kiwi”.

“Os maiores concorrentes são Itália, França, Grécia e Turquia. Este ano a Grécia prejudicou o preço do kiwi na Europa, porque anteriormente a sua maior produção [em quantidade] era destinada à Rússia”. Devido ao embargo, o maior país do mundo deixou de comprar, pelo que entrou no mercado da União Europeia a fruta que era destinada àquele mercado.

Além de ser vendido como fruto em fresco, o kiwi tem utilizações industriais: “iogurtes, compotas, concentrados, etc. Este fruto é também utilizado em produtos de estética e higiene pessoal, nomeadamente, champôs, gel de banho e cremes de aroma”, conclui Carlos Jorge Ferreira.

Artigo publicado na edição de junho de 2015 da revista VIDA RURAL